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As sete lições de ‘Sete Palmos de Terra’

Texto: NUNO CARDOSO

Alan Ball prepara o seu regresso à TV. Mas foi há dez anos que terminou a sua primeira série de êxito, a aclamada ‘Sete Palmos de Terra’ que, mais do que apenas contar histórias, deixou também algumas lições

– “Porque é que as pessoas têm que morrer?”

– “Para que a vida se torne importante”.

Primeira temporada, último episódio. Um diálogo entre uma viúva e o o filho mais velho dos Fisher acabou por revelar a grande mensagem da trama eleita pela Time como uma das melhores séries de sempre.

Agora que Alan Ball prepara o seu regresso à TV com Virtuoso, série sobre o dia-a-dia numa escola de músicos prodígios, a qual está a escrever ao lado de Elton John, não é demais desconstruir a êxito do seu primeiro sucesso no pequeno ecrã. Sete Palmos de Terra, o drama da HBO exibido entre 2001 e 2005, em torno de uma família dona de um negócio funerário, foi sinónimo de boas audiências e do elogio consensual da crítica, tendo recebido quase cinquenta galardões.

Família. Solidão. Sexualidade. Revolta. União. Incompreensão. Ódio. Ambição. Rebeldia. Apatia. Preconceito. Perda. Conquista. Infidelidade. Religião. Depressão. Amor. E a principal de todas, morte. A lista do léxico de Sete Palmos de Terra foi extensa. Afinal, porque é que tantos se apaixonaram por Ruth (Frances Conroy), David (Michael C. Hall), Nate (Peter Krause), Claire (Lauren Ambrose), Brenda (Rachel Griffiths) e companhia?

1. Nenhuma família é normal. E ainda bem.
Os Fisher: família disfuncional por excelência. Uma mãe recém viúva que ressente não ter aproveitado a vida. Um filho mais velho que regressa a casa e deixa a vida descomprometida. Um filho do meio frustrado com a sua sexualidade. Uma filha mais nova à procura de si. Entre eles, problemas de comunicação e de aceitação. Os Fisher tinham defeitos, inseguranças, sim. Choques de atitudes, de valores, de fé. Mas um bom coração: todos procuravam ser amados.

2. Não há boas séries sem um bom guião.
Não existem meias-palavras em Sete Palmos de Terra. O argumento escrito por Alan Ball e sua equipa, sem tabus, notoriamente cru, honesto, straight-to-the-point, sem açúcar nem adoçante, quando assim tinha que ser, e com doses de humor negro quando se exigia, valeu duas nomeações para os Emmy e quatro para os Writers Guild of America.

3. Mas o silêncio também vale ouro.
Mais é menos. Saber ler nas estrelinhas. Dizer tanto nos diálogos como nos silêncios. Etc. A profundidade na exploração da emoção também se fez em Sete Palmos de Terra de forma muda. E aqui entra não só a mestria de Ball e da sua equipa na realização como a dos atores na entrega.

4. A banda sonora certa é meio caminho andado.
Tal como o argumento da série, o tema do genérico, criação de Thomas Newman, é simples e direto, balançando entre a luz e a melancolia. A dar música aos episódios esteve uma playlist inteligentemente eclética mas que nunca feriu a identidade da série, onde se ouviu Nina Simone, Coldplay, Radiohead, Interpol, Arcade Fire, Bebel Gilberto, P.J. Harvey ou Craig Armstrong. E claro, Sia, a escolhida para o grande adeus, com Breathe Me, uma escolha que deu novo fôlego à carreira da australiana.

5. A importância de um bom começo. E um bom fim.
Todos os episódios de Sete Palmos de Terra começaram com uma morte, quase sempre de uma personagem até então desconhecida e cuja história de desenrolava ao longo do episódio. Uma estrutura coerente – tornou-se marca da série – que ajudou a prender a atenção para o que se seguia. Já nas despedidas, no último capítulo, Ball surpreende ao mostrar como serão as mortes de todas as personagens, dando uma noção de conclusão – literal – mas deixando na imaginação o que poderá ter acontecido até lá. O final, de resto, é tido por muitos como um dos melhores de sempre de uma série – casos do New York Post e da TV Guide, por exemplo.

6. Há 1001 formas de se lidar com a perda.
Luto, a consequência da morte. Os Fisher, especialistas em reprimir sentimentos, mostraram como existem mil e uma formas de se lidar com a perda, umas convencionais, outras o oposto. Um luto reprimido que acabou, muitas vezes, por se expressar de forma explosiva. E porque explorou Alan Ball este conceito de forma tão intensa? Para explicar ao mundo que os funerais, o negócio principal da série, “são formas de luto que evitam o verdadeiro luto”.

7. Nada é para sempre.
O medo da mortalidade: um dos motores da trama. Sim, a série disse-nos constantemente: ‘Todos nós morremos’. Mas também nos disse: ‘Parem de viver com medo da morte’. E assim, Ball abordou o tema de forma honesta, dando que pensar a quem estava no sofá. “Sete Palmos de Terra ajudou-nos a crescer”, escreveu o The Guardian. Um estudo da Universidade de Minnesota, que colocou 200 pessoas a assistir a dez episódios da série, mostrou resultados surpreendentes: entre a fase pré e pós-visionamento, deu-se um aumento de 18% de inquiridos que frisaram aceitar a morte com naturalidade.

2 Comments on As sete lições de ‘Sete Palmos de Terra’

  1. Fizeram-me querer ver a série!

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  2. Eu sou viciado em series… Mas a sete palmos marcou a minha vida… Começo e término perfeito. Mas eu ainda tenho um problema com a perda, quando finalizei essa série ainda não estava preparado fiquei quase duas semanas de luto, quase não consegui sair de casa , chorei muito. Série mais que demais. Todas as pessoas que gostam de series deveria ver essa, as que não gostam também.

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