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Os dez melhores singles de Kate Bush

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

Enquanto esperamos a chegada de “Before the Dawn”, álbum ao vivo que terá edição no próximo dia 25, vamos recordar aqui dez singles que marcaram episódios significativos na discografia de Kate Bush.

Estamos em plena contagem decrescente para a edição de um álbum que nos dará a escutar o que aconteceu em palco durante a aclamada residência que Kate Bush protagonizou há pouco mais de dois anos no Hammersmith Apollo, em Londres (precisamente a mesma sala, embora então com outro nome, onde a cantora havia registado, em vídeo, um filme da sua digressão de 1979).

E assim, antes da chegada do seu disco ao vivo, e sem a vontade de focar atenções apenas nos temas que os alinhamentos dos concertos então apresentaram, deixamos aqui um percurso através de dez singles que marcaram a sua discografia.

Uns transformaram-se em sucessos de dimensão planetária. Outros passaram longe das atenções. Mas todos eles refletem as qualidades autorais e interpretativas de uma cantora maior do nosso tempo e refletem bem a diversidade de caminhos pelos quais soube desenhar uma obra, em todos eles deixando clara sempre uma muito firme marca de identidade.

1. “Cloudbusting” (1985)
Há várias formas possíveis de apresentar uma narrativa com fulgor documental (o que, note-se, não impede um ponto de vista pessoal e uma abordagem artística). E em Cloudbusting Kate Bush deu-nos, além de uma assombrosa canção – numa dimensão em sintonia com a que cruza o alinhamento do tão desafiante quanto popular álbum The Hounds of Love – um retrato sobre o psicólogo e filósofo austríaco Wilhelm Reich (1897-1957). A canção (ou o retrato, como preferirem), é-nos contada do ponto de vista do filho, Peter, transportando-nos a memórias de Organon, a quinta onde viviam e na qual estavam montadas máquinas de fazer chuva (às quais chamava, em inglês, cloudbusters, daí o título da canção), que usavam supostamente a energia “orgónica” presente na atmosfera, assim o defendia Wilhelm Reich. Baseada em A Book of Dreams, memória do filho de Wihelm, Peter (num claro exemplo das relações literárias expressas na obra de Kate Bush), a canção teve depois um teledisco concebido por Terry Gilliam e realizado por Julian Doyle, no qual Donald Sutherland interpreta a figura de Reich, cabendo à própria Kate Bush o papel do filho Peter. É uma das obras-primas do teledisco de meados dos anos 80, servindo de forma perfeita uma canção maior na obra da cantora.

2. “Running Up That Hill” (1985)
O sucessor de The Dreaming levou três anos a surgir, no que representou o primeiro hiato na discografia de Kate Bush. Mas quando entrou em cena, Hounds Of Love revelava sinais de absoluto domínio criativo que, de uma forma diferente do que se escutara no disco mais experimental de 1982, sublinhava o valor da personalidade de uma autora que aprendera entretanto a dominar também o espaço do estúdio, assumindo a produção. Antes do álbum, o primeiro sinal de que um salto artístico estava a caminho chegou através de Running Up That Hill, que fora a primeira canção composta entre as novas que se revelariam no LP e que, por isso, Kate Bush insistiu que fosse o single de apresentação. A canção, que surgiria depois no álbum com o título mais completo Running Up That Hill (A Deal with God), é uma reflexão sobre identidade de género, sublinhando diferenças e de como trocar de corpo para experimentar o outro pode ajudar a entender as coisas de outra forma. O single revelou-se o seu maior sucesso desde Wuthering Heights.

3. “King of the Mountain” (2005)
Foi de 12 anos o compasso de espera que separou The Red Shoes (1993) de um novo álbum de estúdio. Mas convenhamos que, finalmente apresentado em 2005, o duplo Aerial compensou em tudo o tempo de silêncio. Trata-se de um álbum de fôlego maior, ambicioso nas formas e referências convocadas, mas firme nas mãos de uma compositora que então dava sinais de entrar numa nova etapa da sua obra. À ausência, que tivera sobretudo motivos familiares, sucedia um corpo de música arrumado em duas partes, a segunda ordenada segundo uma lógica concetual, a primeira juntando algumas canções sem que uma linha temática maior as dominasse. É desta primeira parte (que corresponde ao CD1) que foi extraído King of The Mountain, o único single editado a partir de canções de Aerial. A figura de Elvis Presley (que Kate Bush chega mesmo a citar vocalmente em alguns momentos) é presença nesta canção que lhe deu o seu maior sucesso desde Running Up That Hill, 20 anos antes.

4. “Wuthering Heights” (1978)
O single de estreia de Kate Bush causou (literalmente) um vendaval de surpresa quando nos fez descobrir a sua voz e visão artística em finais da década de 70. O título marcava, logo na sua primeira experiência em disco, uma relação com fontes literárias que se afirmaria uma das presenças mais determinantes de toda a sua discografia, citando aqui claramente O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, mostrando contudo a letra da canção não fechar aí as suas referências. O single representou uma primeira expressão da sua determinação como artista, já que traduziu uma aposta pessoal contra o facto de a editora ter então uma outra canção em vista para lançar como single de avanço de The Kick Inside, o álbum que seria editado em fevereiro, poucas semanas após o single. Kate Bush tinha razão, tendo o single trepado ao primeiro lugar na tabela de vendas britânica dando-lhe aquele que, comercialmente, sereia mesmo o êxito de maior amplitide de toda a sua discografia. Ainda a três anos da entrada em cena da MTV, a canção apostou mesmo assim no teledisco como importante veículo de promoção, criando dois filmes distintos para apresentar Wuthering Heights: um rodado em estúdio, o outro (usado sobretudo nos EUA) filmado ao ar livre.

5. “Army Dreamers” (1980)
Sucessor de Breathing e Babooshka, Army Dreamers foi o terceiro single extraído do álbum Never For Ever, que encerraria então um primeiro single de edições de grande sucesso aos quais se seguiria um breve hiato definido pela relação menos entusiasmada do público mainstream com os caminhos mais experimentais da pop do álbum The Dreaming, do qual só o single de avanço A Sat In Your Lap obteve resultados mais evidentes (se bem que apenas no Reino Unido e Irlanda). Army Dreamers é uma canção definida como uma valsa, construída em tons suaves, nos quais Kate Bush nos fala de uma mãe que chora a perda de um filho em manobras militares, situação que levanta uma reflexão maior sobre a guerra e morte. O teledisco representou uma das primeiras experiências satisfatórias (segundo a própria Kate Bush) na criação de pequenas sugestões narrativas, ideia que levaria a um outro patamar alguns anos depois no trabalho cinematográfico com que acompanharia as canções do álbum Hounds of Love. A temática militar e, sobretudo a relação cética com quem a canção retrata a guerra, fez desta canção um dos temas aos quais a BBC não autorizou o airplay anos depois, durante a primeira guerra do golfo.

6. “Don’t Give Up” com Peter Gabriel (1986)
Tentamos sempre encontrar formas de resistir (e ultrapassar) os momentos difíceis. E foi ao ver fotografias tiradas na América, no período da grande depressão, que surgiram as primeiras ideias que acabariam por conduzir Peter Gabriel a uma canção pela qual cruzou essas memórias com os ecos de dificuldades económicas num presente então vivido no Reino Unidos nos tempos de Margaret Thatcher, como ele depois explicou. O músico, que compôs este tema como um dueto, tinha originalmente imaginado a possibilidade de contar com a cantora de country Dolly Parton a seu lado. Mas foi com Kate Bush que acabaria por gravar a canção que integrou no alinhamento do álbum de 1986 So, extraindo-a como segundo single, que então sucedeu ao surpreendente devaneio pop com alma r&b de travo clássico de Sledgehammer. O dueto com Kate Bush não só beneficiou da reunião, em volta de uma canção belíssima, de duas figuras maiores do firmamento pop/rock britânico como as teve em cena ainda por cima num momento de grande visibilidade e aclamação crítica de ambos, ela ainda perto dos dias de triunfo de Hounds of Love, ele a viver com So um dos episódios mais marcantes da sua carreira.

7. “Wild Man” (2011)
Apesar dos longos hiatos que têm espaçado os seus discos desde meados dos anos 80, Kate Bush surpreende-nos em 2011 com dois álbuns. E desde o início da sua carreira não lançava dois discos com um tão curto intervalo entre si. Um deles, Director’s Cut, era na verdade uma obra de reflexão sobre canções suas, regravando (sob novos pontos de vista) temas dos álbuns The Sensual World de 1989 e The Red Shoes, de 1993. O outro, 50 Words For Snow, representava, tal como o anterior Aerial, uma expressão de um novo e desafiante fôlego criativo. Gravado com um pequeno ensemble de veteranos, entre os quais passavam vivências jazzísticas, o álbum explorava uma narrativa concetual projetada nos Himalaias (envolvendo a figura mítica do Yeti), mas usava como título uma ideia de uma cultura do grande norte na qual se diz que há 50 palavras para dizer “neve”, noção consequente perante estas composições já que, pelas canções, o cair da neve é uma presença constante. Wild Man foi escolhido como single de avanço (tendo a promoção sido reforçada um pouco mais adiante com Lake Tahoe), revelando desde logo uma postura vocal diferente, mais sussurrada, cruzando a fala e o canto, traduzindo uma das várias novas propostas estilísticas num disco que foi recebido sob aclamação e é reconhecido como um dos melhores da discografia de Kate Bush.

8. “The Sensual World” (1989)
A primeira pausa na carreira de Kate Bush abriu um silêncio de quatro anos entre o aclamado (e maravilhoso) The Hounds Of Love, durante esse intervalo tendo a cantora apresentado como novidades de maior visibilidade o single Experiment IV (inédito integrado numa antologia) e um dueto com Peter Gabriel, assim como colaborações na banda sonora de Castaway (de Nicolas Roeg) ou em discos de Midge Ure e dos Go West. Ao regressar, em 1989, com The Sensual World, ficava claro que a pausa servira para um repensar das relações da sua música com outras possíveis cenografias e influências (sobretudo escutadas entre ecos assimilados da tradição folk – de costela céltica – e um aprofundar do trabalho de orquestração nos arranjos das canções). Ao mesmo tempo ficava também evidente uma relação mais sólida ainda com os interesses literários de Kate Bush, traduzindo, por exemplo, o tema título, uma clara expressão de admiração pelo Ulisses de James Joyce. O álbum, onde colabora uma multidão de nomes, que vão desde o maestro Michael Kamen, o compositor Michael Nyman (que assina arranjos) ou o violinista Nigel Kennedy, a figuras da folk como Alan Stivell e Davy Spillane, sem esquecer depois o velho parceiro David Gilmour ou o baixista (ex-Japan) Mick Karn, teve no seu tema título um cartão de visita que guarda em si a essência de todo o corpo de canções a quem serviu de (bom) aperitivo.

9. “Babooshka” (1980)
O segundo single extraído do álbum Never For Ever (de 1980) apresentou-nos um belo exemplo do poder narrativo das canções de Kate Bush num dos temas de viço pop mais marcado desta etapa da sua carreira. Apesar do título poder sugerir a história de uma avó – já que esse é o significado de “babooskha” em russo – na verdade a canção apresenta-nos uma trama, com ingredientes de paranóia, de uma mulher que tenta testar a fidelidade do marido ao criar uma personagem que lhe envia cartas sedutoras e que a ele acabam por lembrar a mulher, nos dias de juventude. Contando com a presença no contrabaixo de John Giblin (músico que trabalhou com nomes como os de Peter Gabriel, David Sylvian ou Scott Walker), Kate Bush valoriza a sua sonoridade ao contracenar com um contrabaixo em várias sequências do teledisco.

10. “Suspended in Gaffa” (1982)
Tendo ganho progressivamente maior protagonismo na produção dos seus discos desde a sua estreia em 1978, em 1982 The Dreaming representou o momento em que tanto a condução da escrita como a das gravações estava finalmente sob o pulso único de Kate Bush. O álbum, que colocava em cena visões pop de saudável ousadia experimental alargou consideravelmente o espetro instrumental e as soluções de cenografia sobre as quais moldava as suas canções. Depois de Sat in Your Lap, escolhido como cartão de visita (dando ao álbum o seu maior êxito) e do tema-título, como terceiro single as escolhas dividiram-se, alguns territórios tendo optado por Suspended In Gaffa, canção que usava a imagem das fitas adesivas empregues pelas equipas técnicas quando montam palcos como metáfora para a ideia de alguém que vive à espera, num patamar de emoções suspensas, depois de ter vivido uma experiência mística que não se repetiu.

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