Últimas notícias

Uma fábula elementar

Texto: DIOGO SENO

Do realizador holandês Michael Dudok de Wit, reconhecido como um dos nomes mais destacados da animação europeia, a Monstra apresenta hoje o filme “A Tartaruga Vermelha”. Passa às 20.00 no Cinema São Jorge, em Lisboa.

Apenas com duas curtas, O Monge e o Peixe e Pai e Filha, o realizador holandês Michael Dudok de Wit cimentou a sua reputação como um dos nomes mais destacados da animação europeia. Ambas mostravam um perfeito casamento entre “conteúdo” e “forma”: à depuração das linhas e das figuras e à quase monocromia correspondia uma narrativa simples, repetitiva, próxima das fábulas orientais. Dudok de Wit exibia inspirações da pintura e desenhos chineses e japoneses e as duas curtas captaram a atenção do Estúdio Ghibli, sobretudo do realizador Isao Takahata. Surgiu assim o convite para realizar a primeira longa-metragem co-produzida pelo estúdio japonês.

O resultado final é diferente de todo o portfolio do estúdio, embora compartilhe alguns traços. A simplicidade da animação talvez esteja mais próxima das experiências de Takahata do que da exuberância de Miyazaki. Curiosamente, Dudok de Wit afasta-se dos seus traços estilísticos anteriores e das inspirações asiáticas e cria um universo visual peculiar, bastante europeu, que parece beber tanto da arte da animação como de outras artes visuais (nomeadamente da banda desenhada), onde o desenho se encontra com a aguarela, onde as paisagens são simples mas dinâmicas, onde o horizonte é apenas uma linha, e onde as figuras são simplificadas ao máximo mas não perdem “vida”.

Um dos aspectos mais interessantes deste filme acaba por ser a forma como concilia as potencialidades desta animação minimalista com um ritmo e naturalismo que não é habitual nesta arte, muito menos em longas-metragens recentes.

Entregue aos ciclos da natureza, e da vida humana, profundamente ligados, Dudok de Wit mostra como a resistência inicial do homem naufragado dá lugar à aceitação de uma nova condição. Até aqui, apesar do desconhecimento das razões que o levaram ali e da presença misteriosa da tartaruga, mantêm-se um registo mais natural do que fantástico. Mas a fantasia e as metáforas começam a ganhar vida. É nos aspectos mais oníricos e poéticos que o filme se aproxima de forma mais clara do universo Ghibli, e há inclusive uma piscadela de olho ao fascínio de Takahata e Miyazaki com a “capacidade de voar”. Também nos gestos dos bonecos, nas suas acções vagarosas, no ritmo ponderado da história, na atenção ao pulsar do meio ambiente (o mar, a floresta, os animais) mostra o realizador a sua capacidade de recriar de forma poética e estilizada o “real”. Embora não desenvolva a sua premissa e as mensagens desta fábula sejam já conhecidas de outras paragens e não atinjam a sofisticação de outros filmes do estúdio, com 80 minutos (dez vezes mais do que as curtas anteriores do realizador) e sem diálogos (embora as personagens tenham voz), A Tartaruga Vermelha mostra como ainda é possível, com uma animação depurada e de belíssima cor, mostrar a nossa relação com a natureza e a passagem do tempo de forma melancólica e comovente.

“La Tortue Rouge”
de Michael Dudok de Wit

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: