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Bowie 74: ecos de uma mutação em curso

Texto: NUNO GALOPIM

Editado num formato de 3LP por ocasião do Record Store Day o álbum ao vivo “Cracked Actor” recorda como os primeiros ecos das experiências vividas num estúdio de FIladélfia no verão de 1974 passaram pelos palcos antes de se materializarem na visão de uma “plastic soul” que surgiria em depois “Young Americans”.

A discografia ao vivo de David Bowie é já relativamente extensa, mas tem ainda muito a explorar entre os baús das memórias, já que há ainda digressões não devidamente representadas (mesmo tendo memória fixada em filme) com edições discográficas assim como há certamente registos de concertos que podem acrescentar olhares adicionais sobre as suas histórias de palco. Assim de uma assentada rápida não só falta um disco da muito global Serious Moonlight Tour (se bem que haja edição em suporte de vídeo), assim como da Sound and Vision Tour. E apesar de edições especiais – como Liveandwell.com ou um disco extra gravado no auditório da BBC por alturas da edição de hours… – estão na verdade ausentes de uma edição que fixe a totalidade de um concerto as digressões que saíram à estrada entre a Oustide Tour de 1995 e a Heathen Tour de 2000. De resto, após a “Isolar II Tour” de 1978, só a Glass Spider Tour teve já edição em disco (se bem que num formato que junta num mesmo pack um DVD e dois CD). Aos poucos esta é uma história que certamente se vai completar. E o ano de 2017 já contribuiu com dois novos episódios. Um deles foi a individualização, num lançamento avulso, de Live Nassau Colisseum ’76 (que antes tinha já surgido numa edição especial de Station to Station e na caixa antológica Who Can I Be Now?). O outro, que conheceu edição em vinil no Record Store Day, não é mais do que o registo áudio de um concerto de 1974 que surgira já retratado no documentário de Alan Yentob Cracked Actor, que a BBC então produziu (mas que nunca teve ainda também edição em vídeo).

Cracked Actor documenta a segunda etapa da Diamond Dogs Tour, a digressão que caminhou por palcos dos EUA e Canadá com as canções do álbum editado no início do ano, juntando ainda memórias anteriores, mas assegurando claramente a partida para desafios diferentes dos que haviam dominado as suas demandas na fase Ziggy Stardust/Aladdin Sane. O Bowie mais assombrado e pós-glam que surgira nas canções de Diamond Dogs materializou-se em palco acompanhado por um cenário muito elaborado a 14 de julho de 1974 em Montreal. Depois de três datas canadianas entrou nos EUA, sucedendo-se uma intensa série de concertos até que uma pausa surgiu após o segundo de um par de concertos no Madison Square Garden (Nova Iorque), a 20 de julho. Nesse percurso de estrada houve uma série de dias em que Bowie se fixou num pequeno teatro nos subúrbios de Filadélfia. E entre os dias 8 e 13 de julho o Tower Theatre acolheu a visita de uma equipa que gravou os concertos, desses registos surgindo, em finais de outubro, o álbum David Live.

Por essa altura a digressão ia já numa terceira etapa. A segunda tinha arrancado em inícios de setembro no Universal Amphitheatre em Los Angeles onde Bowie fez nova residência por sete noites. E foi numa delas – a de 5 de setembro – que a equipa da BBC registou o concerto, captando imagens para o documentário. Mas desde então não só o áudio acabara na gaveta como, para lá do que o filme da BBC mostrava, muitos momentos tinham igualmente ido parar aos arquivos. Até que, em finais de 2016, uma equipa sob chefia de Tony Visconti pegou nas fitas e, após um trabalho de recuperação e mistura do áudio, eis que finalmente podemos ouvir, na íntegra, este Cracked Actor.

Com apenas edição em vinil – num triplo LP de cinco lados (sexto não tem música) – Cracked Actor recorda o momento em que, após as descobertas de novas músicas feitas durante a sua passagem por Filadélfia, Bowie estava já num processo de procura de um caminho para uma possível abordagem sua aos terrenos da música soul. As sessões de trabalho realizadas em agosto nos Sigma Sound Studios – nas quais se gravavam as canções de um novo disco que começou por ser The Gouster mas mais tarde a ideia migraria, com algumas das canções, para Young Americans – estavam materializadas em palco de duas maneiras. Uma delas no alinhamento do concerto, que incluía os novos It’s Gonna Be Me e John I’m Only Dancing (ambos faziam parte de The Gouster mas acabariam de fora de Young Americans). A outra na formação da banda que incluía Luther Vandross nos coros e o guitarrista Carlos Alomar. Não fora ali que Alomar conhecera Bowie, já que participara nas sessões de gravação de Can You Hear Me, single de Lulu que o autor de Diamond Dogs havia composto. Mas só nas sessões no Sigma Sound arregaçaram as mangas juntos, iniciando-se uma colaboração com inúmeros frutos nos anos seguintes e que, mesmo depois de um último trabalho de grande fôlego em 1980, na verdade se manteve até aos tempos de Reality.

A banda (e também as novas canções) trazem nuances novas ao corpo de uma obra em tempo de mutação. E se David Live nos tinha dado um documento sobre como em palco Bowie tinha conseguido reinventar-se depois de arrumado o capítulo glam rock, agora, em Cracked Actor, conseguimos escutar como o percurso começara a migrar para um primeiro reencontro com o terreno do universo do rhythm and blues e seus arredores (que na verdade alimentara muitas influências suas quando ainda assinava como David Jones). E, convém sublinhar, com um trabalho de mistura e produção de uma nitidez exemplares.

“Cracked Actor”, de David Bowie, está disponível numa edição em 3LP pela Parlophone. ★★★★★

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