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Há dez anos era assim: Duran Duran

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

Abrimos uma janela no tempo para evocar discos que surgiram em cena há dez anos. Hoje recordamos “Red Carpet Massacre”, um álbum pelo qual os Duran Duran procuraram dialogar com novas tendências da pop, colaborando com Justin Tiberlake e Timbaland.

“Red Carpet Massacre”
(Epic)

Madonna, na hora certa, recorreu a William Orbit ou Stuart Price. E Jonnhy Cash e Neil Diamond a Rick Rubin… Ou seja, bater à porta de um produtor de perfil afirmativo e marcante num tempo novo é opção lícita no mundo da música pop (e não só). Porém, ao saber-se das presenças de Timbaland, do seu colaborador regular Nate ‘Danja’ Hills e de Justin Timberlake (que co-assina e canta em dois temas), muitos logo suspeitaram que, como tantos outras figuras no presente, também os Duran Duran se vergariam à lei do produtor mais cotado do momento. Porém, o que Red Carpet Massacre mostrou em 2007 não era uma deferente prova de vassalagem, mas antes o resultado de uma partilha frutuosa, na qual as técnicas e temperos de Timbaland (e sua entourage) se entenderam com a lógica de funcionamento e o sentido de canção pop de uma banda de personalidade há muito vincada. Isto para, no final, fazer deste o melhor álbum dos Duran Duran desde os seus dias de glória de inícios de 80 (em concreto, o melhor desde Rio, em 1982). Isto em 2007, claro… Convenhamos que All You Need Is Now (2010) e Paper Gods (2015) foram ainda mais longe…

Na verdade Red Carpet Massacre não é um disco de ruptura, e muitas das ideias que escutamos nestas canções não reflectem mais que novas formas de abordagem, em diálogo atento com o presente, a velhas demandas já conhecidas na música dos Duran Duran. A sua relação com a música de dança remonta aos dias de Planet Earth, Girls on Film ou My Own Way, logo no seu ano de estreia discográfica em 1981. O interesse pela música negra (que pontua o disco) recorda-se, por exemplo, em Nororious ou Skin Trade

Red Carpet Massacre retoma ainda outra marca antiga dos Duran Duran: o gosto pelo desafio, uma certa ousadia formal que sempre fez com que o grupo, apesar do evidente sucesso mainstream, nunca tivesse abandonado as franjas da cultura alternativa que sempre tomou como referências. Depois de um regresso (mais mediático que musicalmente apelativo) em Astronaut, onde o grupo parecia mais atento ao jogo da cautela em terreno seguro, Red Carpet Massacre revelou verdadeiro entusiasmo e renovada vontade em reclamar um ceptro na pop que já teve na banda indiscutíveis donos. Pelo caminho ficou, aparentemente quase pronto, o álbum Reportage. Ao que parece mais dominado pelas guitarras… Será que alguma vez verá a luz do dia?

John Vanderslice, “Emmerald City”
(Basurk Records)

Mais um herdeiro da “escola” Neutral Milk Hotel, o norte-americano John Vanderslice estava há cerca de dez anos a chamar atenções com uma carreira a solo que juntava a arte da escrita de canções a uma demanda pelas formas finais com que estas se podem apresentar. Alguns talvez se recordem da polémica em tempos gerada pelo seu Bill Gates Must Die (logo na ocasião da estreia a solo, em 2000)… Em 2007 conheciam-no sobretudo como o proprietário de um estúdio por aqueles dias adoptado por nomes como os Death Cab For Cutie, Okkervil River ou Spoon e até mesmo pelo trabalho de produção que assinara em Gimmie Fiction, destes últimos. Mas, na verdade, a sua obra autoral merecia já mais destaque do que estas afinidades profissionais.

Depois de um conjunto de cinco álbuns nos quais explorara, sem evitar nunca a canção de autor, as potencialidades das cenografia lo-fi (electrónicas incluídas), mostra-se, ao sexto disco, inesperadamente despojado. O foco das atenções recaía assim sobre um conjunto de canções que, em apenas 38 minutos (o tempo ideal para um álbum), nos confirmavam em Vanderslice um magnífico contador de histórias.

O seu álbum anterior, Pixel Revolt, fora espaço de reflexão concreta das feridas deixadas pelo 11 de setembro e pelas consequências que os factos desse dia tiveram na vida da América desde então. Sem evitar pontuais incursões pela mesma memória traumática, Emmerald City é, contudo, um disco mais pessoal e, na verdade, quase autobiográfico (as canções compostas durante um processo, frustrado, e ainda não resolvido, de luta pela obtenção de um visto de residência para a sua namorada, uma francesa).

A arte de Vanderslice, além do evidente domínio de heranças musicais (que, além dos Neutral Milk Hotel, revelam a presença dos Beatles, Dylan e mesmo Bowie), reside numa rara capacidade em sugerir as histórias, lançar as ideias, e sair delas antes de as tornar óbvias. Quem dele não se lembra ou não conhece tem aqui um belo ponto de partida para entrar no seu universo.

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