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Visitar a obra de Leonard Bernstein em dez discos (2)

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

No mês que assinala o centenário de Leonard Bernstein fazemos um percurso através de dez discos que recordam grandes episódios da sua obra como compositor. Como sempre aqui vão passar, um a um.

O tempo tem vindo a dar razão aos que cedo reconheceram em Leonard Leonard Bernstein (1918-1990) não apenas um dos grandes maestros e comunicadores do seu tempo, mas também das mais vivas vozes de uma identidade musical americana e, ainda, um dos grandes compositores do século XX.

Herdeiro de, por um lado, toda uma herança maior da música ocidental (admirador de Mahler, de quem foi importante divulgador num tempo em que a sua música não morava ainda entre o repertório sinfónico global como hoje conhecemos) e, por outro, atento observador da América ao seu redor, fez da sua música uma expressão do seu aqui e do seu agora, cruzando linguagens várias, muitas então vistas como realidades exteriores aos “cânones”, encontrando no jazz, na música popular e até mesmo nos palcos da Broadway as referências que lhe deram, devidamente assimiladas, importantes marcas de identidade.

Figura de importante perfil político, fez da sua música, sobretudo a que expressava uma carga narrativa, espaço para aprofundar mais ainda toda uma série de visões sobre a cultura e sociedade americanas do século XX. Agora que se assinala o seu centenário (nasceu a 25 de agosto de 1918) lembramos dez discos que nos dão um olhar panorâmico pela soa obra como compositor.

“Mass”
(CBS, 1971)

A Missa (Mass, no original), de Bernstein, nasceu para surpresa de tudo e todos quando, em 1971, o John F. Kennedy Center For Performing Arts (em concreto, Jacqueline Kennedy) lhe encomendou uma obra para ser estreada na noite da sua inauguração, não especificando junto do compositor (e também reconhecido maestro) que tipo de peça pretendia. Bernstein tinha há muito uma admiração por Kennedy e, de resto, havia-lhe dedicado a sua terceira sinfonia, na sequência do assassinato do Presidente em Dallas, em 1963. De ascendência judaica, Bernstein optava pela composição de uma missa (um dos géneros mais importantes da tradição musical na velha Europa cristã) não apenas para assinalar o facto de Kennedy ter sido o Presidente católico apostólico romano dos EUA, mas também porque, nem inícios de 70, a Igreja vivia tempos de mudança (da emergência da teologia da libertação à revisão de velhos dogmas e rituais), que assim fazia questão de sublinhar.

A Missa, de Bernstein, mais que apenas uma obra religiosa, é uma obra política, servindo a forma musical (e a sua carga histórica) como catalisador para uma demonstração do poder unificador das artes em volta da memória de uma figura e a crença uma ideia. Na sua Missa, Bernstein cruza a exploração concreta de questões do foro religioso (que abordara já, tanto na Sinfonia Nº 3 e nos Chichester Psalms, para referir dois possíveis exemplos), com uma reflexão sobre as concretas condições sociais da vida do dia-a-dia, que por si fora já abordada na música de West Side Story. Os dois mundos, não apenas temáticos, mas igualmente musicais (juntando aqui, claramente, tradições da música erudita a marcas da cultura popular, nomeadamente a herança do musical), juntam-se numa obra absolutamente espantosa, que apela a uma necessidade de espiritualidade. Musical, política e socialmente, a Missa de Bernstein é um retrato do seu tempo. Teatralizada, cruza linguagens, sublinhando também na sua interpretação a noção de diversidade que a própria música em si transporta.

O historial de gravações da Missa começa a juntar já uma série de títulos que faz desta uma das obras de grande fôlego de Bernstein com mais interpretações registadas em disco. Esta edição em disco, que data de 1971, corresponde à gravação com o elenco original da estreia no Kennedy Center, com Alan Titus como voz protagonista. Leonard Bernstein dirige um conjunto de músicos expressamente reunidos para a ocasião. Edição em álbum duplo em vinil, no formato de caixa, mais tarde disponível em CD duplo.


“Candide”
(Deutsche Gramophon, 1989)

Originalmente estreada na Broadway, em 1956, a opereta Candide começou por dividir opiniões. A música, contudo, revelava uma vez mais as capacidades de cruzamento de linguagens (e de comunicação) de Bernstein, tendo a Abertura sido tocada por mais de cem orquestras no ano seguinte… Foram, todavia, precisos 33 anos e várias revisões (convocando muitas delas novas contribuições na reescrita do libreto), para que Bernstein encontrasse a desejada “versão definitiva” de Candide. O tom satírico do texto de Voltaire, inicialmente publicado em 1759, encontrou a adaptação mais fiel à sua identidade, ao mesmo tempo revelando o melhor de Bernstein como compositor atento às realidades sociais e políticas do seu tempo, não faltando citação subliminar aos “trabalhos” da comissão do senador McCarthy numa cena que tem a Lisboa pós-terramoto de 1755 por cenário.

A versão de 1989, que aceita adendas ao texto por figuras que vão de Stephen Sondheim e Dorothy Parker a Bernstein e à sua mulher, Felícia, conheceu primeira gravação em Londres, em dezembro de 1989, sob direcção do próprio Bernstein (com o mesmo elenco usado numa apresentação pública da qual nasceu uma edição de um DVD). O carácter operático da revisão “definitiva” da obra levantou debate sobre como a definir, se opereta, se ópera, se ópera cómica… Na verdade é tudo isso, com tempero de sátira e melodrama, como sublinharia a crítica, claramente favorável, publicada em 1992 na Gramophone. Esta versão “definitiva” chegou a disco em gravação ao vivo de uma atuação dirigida pelo próprio compositor, frente à London Symphony Orchestra, contando com as vozes de, entre outros, Jerry Hadley, June Anderson, Adolph Green, Christa Ludwig e Nicolai Gedda.


Leonard Bernstein apresenta “Candide”


A sequência lisboeta de Candide é este “Auto de Fé”


O hilariante “I Am Easily Assimilated”, com explicações de Bernstein e a voz de Christa Ludwig como ‘the old lady’.

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