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Olhar o passado para além das vénias do costume

Texto: NUNO GALOPIM

Um filme de época pode contrastar nas imagens com a história da obra anterior do realizador grego Yorgos Lanthimos. Mas o tom subversivo com que olha jogos de poder na aurora do século XVIII é o que habitualmente corre pelos seus filmes… “A Favorita” parte para os Óscares com 10 nomeações. Tantas quanto “Roma”.

Há uma expressão curiosa em língua inglesa que nos diz muito do olhar normativo sobre aquilo a que em português chamamos “filmes de época” ou “filmes históricos”… Falo de “costume drama”, expressão que dá a entender quão importante na construção de uma ideia de outro tempo pode ser o guarda roupa (e, já agora, a direção artística em geral). E quantas vezes a coisa está cheia de folhos, cabeleiras, vénias e de mais do mesmo, tudo limpo limpinho, mas sem acrescentar mais a séculos de histórias contadas… É claro que houve já quem transgredisse as normas. Da visão livre com que Pasolini sugeria um outro tempo em “Decameron” à junção de passado e presente no modo como Derek Jarman construiu o deu “Eduardo II” há ideias distintas do que possa ser essa noção de transgressão (que não se limita às imagens, entenda-se). E neste rol de transgressores podíamos juntar o par de ténis All Star numa sala do palácio de Versalhes na “Maria Antonieta” de Sofia Coppola. Ou o caráter plástico mais teatral com que Rohmer talhou uma visão da Revolução Francesa, mas vista do lado da nobreza que perdia privilégios (e cabeças) em “A Inglesa e o Duque”… Em “A Favorita” o realizador grego Yorgos Lanthimos aceita ser fiel aos códigos visuais do tal “costume drama”, procurando filmar em palácios com relação arquitetónica com a época retratada, tal como fez questão em assegurar que o guarda roupa ajudasse a sublinhar um caráter realista (que, apesar da fotografia muito característica e diferente, ecoa as opções de um Patrice Chéreau no belíssimo “A Rainha Margot”). Aqui a subversão está num outro plano. Mergulha sem filtro na carne e alma das personagens e no modo de olhar os seus comportamentos. Entra sem pedir licença pelos bastidores das aparências nos jogos palacianos e da alta política. E, claro, serve-se de uma direção de fotografia que vinca o olhar autoral (das escolhas de luz ao tipo de lentes) que faz de “A Favorita” um caso raro e maior na história do “cinema de época” e que, talvez contra o que parecem ser os mais habituais caminhos do gosto “mainstream”, não só se transformou num caso de sucesso na bilheteira como surge taco a taco com “Roma”, de Alfonso Cuarón, como um dos filmes com mais nomeações (dez) para os Óscares deste ano.

Há realidade e ficção em “A Favorita”. O filme tem como um dos três vértices a figura fisicamente débil e politicamente alheada da rainha Ana, que comandou os destinos da Grã Bretanha e Irlanda entre 1702 e 1714 e que, apesar das 17 ocasiões em que engravidou, morreu sem deixar descendência, sendo a última monarca da dinastia Stuart. Com ela outras duas figuras completam um trio que faz de “A Favorita” um filme sobre poder feminino. São elas Sarah, duquesa de Marlborough (e antepassada de Winston Churchill), cuja influência sobre a rainha é determinante (é na verdade ela quem tomava as grandes decisões), e Abigail, uma criada (de origem aristocrata, mas de família caída em desgraça), cuja ambição lança jogos de poder que vão afetar o equilíbrio entre as forças deste triângulo. Se historicamente o triângulo existiu e teve um papel influente em escolhas de estado por ocasião de uma guerra com a França, já na visão de Lanthimos – que parte de um guião originalmente escrito nos anos 90 por Deborah Davis e que durante anos a fio não conseguiu um “sim” para se transformar num filme – há dados ficcionais que acabam por valorizar a intensidade dos jogos de poder do trio.



Historicamente debatida (com prós e contras em função de quem emite a opinião) a dimensão mais íntima do relacionamento de Sarah (interpretada por Rachel Weisz) e Abigail (Emma Stone) com a rainha Ana (Olivia Colman) toma aqui um papel claro e central na definição das personagens e das forças emocionais que ora as atraem ora repelem. Poder, solidão, perda, ambição, são ingredientes usados com conta peso e medida numa trama que tem como satélites mais próximos um líder da oposição parlamentar (interpretado por Nicolas Holut) e um outro jovem nobre de certa forma objetificado (Joe Alwyn), figuras masculinas que acabam como meros peões num tabuleiro que tem as jogadas decisivas nas mãos do triângulo feminino.

Os ambientes são frios, sujos e desconfortáveis, salvo nas salas confortáveis dos palácios, onde distrações de uma corte com mais tempo do que afazeres são retratadas de forma mais contundente do que o modo como (com outra visão plástica) Sofia Coppola havia já mostrado o “não passa nada” dos privilegiados de Versalhes no seu “Maria Antonieta”. Tal como Sofia Coppola esteve entre as opções de Lanthimios um olhar sobre a música que transcendeu a ideia do realismo de época, usando, além de compositores do tempo retratado, nomes de outros tempos. Apesar de uma canção de Elton John nos créditos, as escolhas de Lanthimios rumaram a Messiaen, Luc Ferrari e Anna Meredith…

Numa altura em que muita gente corre às salas de cinema para ver “os filmes dos Óscares”, esta é a melhor das escolhas em cartaz… Grande filme!

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