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Imagens e histórias de ‘robots’ para refletirmos sobre o futuro

Texto: JOÃO FERNANDES

Patente no Maat (Lisboa) até 22 de abril, a exposição “Hello Robot”, com o subtítulo “Design Between Human and Machine” começa por nos mostrar ‘robots’ criados pela cultura popular e outros que já vivem entre nós para, depois, lançar olhares sobre os caminhos que o futuro coloca como possibilidade.

Foto: N.G.

“My battery is low and it’s getting dark”… Foi esta a última mensagem que o rover Opportunity enviou de Marte, antes de se ter declarado por terminada a sua missão no passado dia 13. Depois de 15 anos de exploração na superfície marciana, muitas pessoas celebravam o espantoso, astronómico sucesso do Opportunity. Mas também houve expressões de pesar e tristeza pela perda – por estranho que pareça, o mundo estava de alguma forma de luto pela morte de um robot.

Será possível sentir tristeza pela “morte”, pela perda de um robot? Poderá a sua falta causar-nos mais do que irritação pela inconveniência? Será possível amar num robot, confiar num robot? Podemos sentir por robots as mesmas emoções que sentimos por outras pessoas? De que maneira podemos ver em máquinas com variado grau autonomia as marcas de inteligência, consciência e humanidade?

A exposição “Hello, Robot”, patente no MAAT até dia 22 de abril, procura explorar a maneira como as pessoas olham para os robots, se relacionam com eles, o modo como irá a sua crescente presença no quotidiano afetar o nosso futuro. Aborda a ansiedade em relação ao número de postos de trabalho que se prevê que serão perdidos para robots, mas também as possíveis maneiras pelas quais nos poderemos ajudar a nós próprios e também uns aos outros recorrendo a máquinas mais ou menos inteligentes.

O percurso pela exposição é guiado por uma série de perguntas, que levam o visitante a reflectir sobre a sua experiência com robots e a sua relação com eles. A primeira é se “Alguma vez conheceu um robot?”. A pergunta é feita numa sala cheia de imagens, vídeos, sons e modelos de robots reconhecíveis da cultura pop: R2-D2 da “Guerra das Estrelas”, performances do grupo de música eletrónica Kraftwerk, modelos de robots mecha conhecidos de séries de TV japonesas, imagens da série de desenhados animados “Os Jetsons”, cenas do filme “Metropolis”, de Fritz Lang, entre outros, não faltando uma referência à peça de teatro, de 1920, “R.U.R”, do checo Karel Čapek que conduziu a palavra “robota” (que significa “aquele que faz trabalhos forçados”) à tradução “robot” na língua inglesa e que logo foi assimilada pelo mundo da ficção científica. Nesta primeira sala há também robots que pertencem ao mundo real e que aparecem no telejornal, como por exemplo, aeronaves não tripuladas, ou como são normalmente chamadas, drones.

A intenção é obviamente mostrar que nada de novo há na palavra robot, que ocupa o pensamento da humanidade há muito tempo, juntamente com palavras próximas: autómato, ciborgue, inteligência artificial, biónico, androide. Contudo, a perspetiva geral da exposição é completamente virada para o futuro, mais próximo ou longínquo.

Na segunda sala são mostrados vários exemplos de novos processos de fabrico industrial que estão transformar a divisão do trabalho e a organização económica da sociedade. Aqui têm especial destaque as tecnologias de impressão 3D e de prototipagem rápida. Os exemplos mostrados são variados, desde um projeto para imprimir uma casa em gelo na superfície marciana e pontes pedonais que se auto-constroem até ao mais banal fabrico de cadeiras – é evidente a sua versatilidade e adivinham-se que as suas áreas de aplicação sejam muito vastas.

É dada também atenção ao modo como processos automatizados de desenho associados aos processos de fabrico também poderão substituir o trabalho humano. Através de algoritmos baseados em voxcels (o análogo 3D ao píxel dos ecrãs de computador) uma cadeira pode ser desenhada para ser impressa em 3D, não tendo de ser manualmente projectada por um humano. Assistimos então a uma substituição de trabalhadores humanos em toda a cadeia de produção, não apenas nas linhas de montagem onde tarefas repetitivas e desgastantes são realizadas.Por outro lado, são também demonstradas formas de tornar mais fácil e eficiente, mas também mais ousado o trabalho verdadeiramente criativo e conceptual, que permanecerá a cargo dos humanos.

A terceira sala da exposição mostra vários robots que foram criados para auxiliar os seres humanos nas suas tarefas diárias, seja como ajudantes de limpeza, cuidadores na doença, babysitters ou professor de crianças. Aqui os robots são feitos com caras simpáticas e têm um comportamento gentil, para que os “seus” humanos se sintam confortáveis na sua presença e lhes dêem a sua confiança, embora fique em aberto para o visitante refletir sobre o grau de confiança que daria aos seus companheiros robóticos. Confiaria num robot para varrer o chão da casa facilmente, mas talvez não se sentisse confortável deixando os seus filhos pequenos a cargo de um babysitter robótico.



A quarta e última sala coloca no centro da atenção as derradeiras fronteiras que separam os seres humanos das máquinas. Se por um lado um humano pode ser descrito como uma máquina biológica, então pelo outro um robot pode ser descrito como um humano mecânico-eléctrico.

A arquitectura celular do corpo humano pode ser replicada ao mais fino nível, pelo menos em princípio, por um enxame de pequenas máquinas, cada uma com a sua própria inteligência ou programa na memória, que em conjunto se organizam numa maquina maior – no que se chama “self-assembly” ou “self-organization”, ou então podem estar todas dependentes de uma unidade de controlo central a que todas as outras respondem. Podemos começar a imaginar então robots com sistemas nervosos, que respondem de maneira óbvia mas complexa a diferenças de iluminação causadas pelo movimento de pessoas e objetos à sua volta, adotando diferentes poses e configurações.

Também podemos imaginar maneiras de como podem os seres humanos complementar ou suplementar as capacidades dos seus corpos através de módulos robóticos. Tem particular interesse a aplicação de próteses biónicas a pessoas com limitações motoras, que se tornam em autênticas extensões do seu corpo e dos quais dependem para levarem a cabo a sua vida normal. Para essas pessoas, os impedimentos biológicos deixam de existir, e embora possa causar estranheza, os seus membros robóticos devem ser encarados com naturalidade. O notável benefício que as próteses robóticas trazem para as pessoas que as recebem, no aumento da sua autonomia e na redução do estigma associado às suas dificuldades motoras, leva-nos a pensar que há algo de bom a ganhar ao abraçar o nosso próprio lado mais robótico. Se aplicações robóticas em corpos humanos podem melhorar em tanto a vida dos que mais delas precisam, poderiam talvez melhorar a vida de todas as pessoas. Isso implicaria a perda de parte ou toda da nossa identidade como humanos, seres biológicos, orgânicos, moles e húmidos por dentro (e às vezes também por fora), e fica para o visitante pensar se estaria disposto a aceitar esse custo.

Nos últimos cem anos assistimos a várias revoluções industriais, a uma explosão demográfica e a um marcado aumento da qualidade de vida a nível global. Em particular, a grande redução da pobreza ocorreu quando em muitos países as pessoas deixaram de estar dependentes da agricultura de subsistência e passaram a trabalhar em fábricas por um ordenado melhor. Perante a prevista substituição de muitos destes trabalhadores por máquinas, fica a pergunta de que outra via para a prosperidade terão os cidadãos de países em desenvolvimento disponíveis para si próprios. Nas vésperas do início da história humana houve a transição de uma vida nómada de caçador-recoletor para uma vida sedentária assente na prática agrícola, num processo que levou à domesticação de plantas e animais , mas também de certa forma do Homem, cujo destino ficou para sempre estreitamente ligado aos das suas colheitas e dos seus animais. É possível que estejamos a assistir a um processo de transição semelhante, mas não é possível ver ainda completamente aonde ele nos vai levar.

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