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Scott Walker: o retrato de um homem do século 30

Texto: NUNO GALOPIM

Disponível em DVD e Blu-ray, o documentário “30 Century Man” mergulha na obra de Scott Walker na companhia de depoimentos de figuras como Bowie, Eno ou elementos dos Radiohead, mas tem como peça central uma entrevista com o músico, que acompanhamos em estúdio durante as gravações de “The Drift”.

Um breve olhar pela ficha técnica de “30 Century Man”, documentário sobre Scott Walker que vi pela primeira vez há uns anos no Festival de Berlim, revela um facto curioso que traduz o que, na verdade, é uma expressão as muitas ligações que tantas vezes unem trilhos de admiração e influência entre músicos. David Bowie é o produtor executivo do filme. E não só assumiu esse papel como é um dos muitos entrevistados, às tantas confessando, além de notar o papel determinante da viola baixo na música de Scott Walker ou de chamar atenções para as características da sua voz, que quando o escuta não procura exatamente compreender o que quer dizer mas, antes, o modo como faz soar o que quer passar a quem o escuta… E em meia dúzia de palavras fica claro que não é só no modo de cantar (tantas vezes semelhante) que entre ambos há afinidades…

Scott Walker já tinha uma carreira (hoje quase esquecida) como teen idol nos EUA quando Bowie começou a tocar com bandas em 1962. Conquistara sucesso com os Walker Brothers (que nem eram Walker nem irmãos) quando Bowie lançava primeiros singles (que passavam a leste das atenções). Mas a ambos coube a rara coincidência de editarem primeiros álbuns em nome próprio no mesmo ano. 1967. E se bem que “David Bowie” apontasse azimutes mais a um Adrian Newey e a ecos do teatro musical e “Scott Walker” revelasse uma pop orquestral elegante (na qual não se escondia uma admiração por Jacques Brel, de quem ali gravava três primeiras versões), ambos os discos escapavam às linhas que dominavam as atenções nesse tempo em que “Stt. Pepper’s” dos Beatles ou os discos de estreia dos Pink Floyd ou Doors traduziam ecos mais vivos de tendências dominantes na vanguarda da invenção pop/rock… O tempo mostraria que os dois homens com discos aparentemente “clássicos”, afinal, seriam autores de duas das mais desafiantes obras que a música popular escutou desde que há discos.

Realizado por Steven Kijack (um antigo discípulo de Cassavetes) e com direção de fotografia de Grant Gee (que muitos poderão conhecer pelo seu trabalho com os Radiohead), “30 Century Man” apresenta-nos, em pouco mais de hora e meia, um panorama relativamente amplo e claro do percurso de Scott Walker entre os seus primeiros passos a cantar temas banais e os seus mergulhos numa nova dimensão exploratória que é encetada com “Nite Flights” (dos Walker Brothers) e se vai aprofundando nos álbuns “Climate of Hunter” e “Tilt”, desembocando num percurso tardio do qual aqui acompanhamos a gravação de alguns momentos de “The Drift”, editado em 2006.

Uma multidão de músicos dá aqui conta da sua admiração por Scott Walker. E o desfile inclui figuras como Jarvis Cocker, Johnny Marr, Marc Almond (que também gravou versões de Brel), elementos dos Radiohead, Brian Eno, Damon Albarn, Alison Goldfrapp, Hector Zazou, Gavin Friday ou Lulu… Há imagens de arquivo que nos permitem acompanhar memórias de várias etapas (e um fã colecionador revela tesouros esquecidos dos dias de juventude do músico). Mas o tutano do documentário reside numa entrevista com o próprio Scott Walker que, juntamente com as incursões pelo estúdio onde o vemos a gravar elementos para “The Drift”, sublinham marcas de um presente a partir do qual se podem lançar reflexões sobre o antes e o depois. A figura habitualmente avessa à visibilidade mediática revela ser afinal um tranquilo conversador, capaz de comentar quem antes foi e decidido a explicar porque caminhos quer que a sua música possa continuar a existir. E que música é esta… Nada como a escutar. Não é imediata (de todo!). Mas há a dada altura uma alusão à pintura de Francis Bacon. E foi precisamente por essa mesma porta que, depois de inicialmente ter “esbarrado” em “The Drift” (e mesmo tendo “Tilt” como o meu disco preferido da sua obra), encontrei um caminho para explorar as demandas que então animavam Scott Walker à entrada da etapa final da sua obra.

Scott Walker morreu este ano, a 22 de março. E desde a estreia de “30 Century Man” editou mais três álbuns de estúdio e criou música para mais dois filmes. O documentário (estreado no Festival de Londres em final de 2006) não os inclui, naturalmente. Mas não deixa de ser um bom retrato de uma obra que convém (re)descobrir.

PS. Atenção aos extras nas edições em home vídeo. Há excertos das entrevistas não usados na montagem final. E há, inclusivamente, uma entrevista com Neil Hannon que nem sequer foi usada no filme.

“30 Century Man”, de Stephen Kijack, está disponível em DVD e Blu-ray.

1 Comment on Scott Walker: o retrato de um homem do século 30

  1. Um monstro, no bom sentido do termo.
    Inesquecível!

    Gostar

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