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Sabre: a olhar directamente para o sol

Texto: JOÃO MOÇO

A dupla Sabre lançou recentemente o EP “Morning Worship”, com o qual se reafirmam como um dos maiores valores da música de dança actual.

Fazer música de dança para dançar. A expressão pode roçar o pleonasmo, mas tem-se sentido que quanto mais hermética, abstracta, ou melhor, quanto mais dependente de maniqueísmos goth utilizados como desculpa para transparecer uma alegada profundidade/turbulência emocional, melhor para os arautos da opinião.

Não deixa por isso ser de salutar um grupo como os Sabre, formados por Bruno Silva (ultimamente algo hiperactivo nas edições enquanto Ondness, mas que já militou em projectos ligados à cena improv como Bandeira Branca, Olive Troops SOS ou Canzana) e Carlos Nascimento (que com Bruno foi uma das metades dos Osso, além de também ter feito parte de Olive Troops SOS e, a solo, assinar como Robert Foster).

Depois dos excelentes EPs Bali/Ging (Tasteful Nudes, 2013) e Nightdrive to Bolland (WT Records, 2013), o duo supera-se nesta edição pela holandesa Clone Royal Oak, Morning Worship. Isto é verdadeiramente música de dança para dançar, independentemente da complexidade e riqueza melódica das produções ou das fugas a convenções limitadoras sem fazer disso um manifesto fetichista.

Começo pelo fim, por Streets of Love – Blaze, que é também o tema que se destaca deste EP. Uma linha de sintetizador que cada vez mais só me faz lembrar a guitarra de Mark Knopfler na Sultans of Swing dos Dire Straits, mas que serpenteia com irregularidade numa produção deep techno que, como Tom Faber do blogue White Noise referiu, traz à memória os ambientes (visuais e emocionais) dos filmes dos anos 1980, enquanto elementos percussivos vão surgindo com uma liberdade que, certamente, muito deve ao passado que os dois músicos têm ligado à música improvisada.

Ao longo de todo o EP (algo que também já acontecia nas anteriores edições) persiste uma sensibilidade para a criação de momentos épicos, dando destaque a elementos melódicos que evocam uma sensação que os anglo-saxónicos conseguiram resumir na expressão larger-than-life, mas que traduzida não replica o mesmo significado. É o que acontece nesse momento maior que é Ghetto Prophet, onde nem as batidas percussivas catedralescas fazem adivinhar o que acontece após o crescendo, um momento de puro júbilo dominado pelos sintetizadores que, aos meus ouvidos, são quase sambistas na forma como se aliam com a produção rítmica (referência que também pode ser reflexo de ter passado os últimos meses a ouvir incessantemente algum do melhor samba que o Brasil nos deu).

Os sintetizadores ensolarados e a forma distintiva com que eles são trabalhados de produção em produção já se tornou uma marca idiossincrática da música dos Sabre, como acontece logo no tema de abertura, Cascavel Breeze, repleta de texturas veraneantes sobre batidas quebradas, ou como olhar directamente para o sol num dia de verão.

Ao fim de três edições parece-me que os Sabre chegaram também ao ponto máximo da exploração destes momentos épicos e o que se seguirá pós-Morning Worship será, provavelmente, uma redefinição do seu som. Mas com este EP provam uma vez mais como são das melhores coisas que aconteceu à música de dança nos últimos anos. Não só em Portugal, até porque essa separação de águas cai, facilmente, num exercício proteccionista que só é provinciano.

“Morning Worship”
Sabre
Clone Royal Oak
5 / 5

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