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100 discos (daqueles que não costumam aparecer nas listas): Fotheringay, 1970

Texto: NUNO GALOPIM

Uma lista com discos que não costumam figurar nas tabelas habituais. Este foi editado em 1970 e surgiu depois de Sandy Denny ter abandonado os Fairport Convention para poder explorar mais a fundo a sua composição. É um disco marcante para reencontrar como a folk então desenhava novas possibilidades para heranças antigas.

A folk (e sobretudo as suas recentes evoluções em diálogo com a música elétrica) era terreno fértil em ideias e a viver sob o foco das atenções no Reino Unido na reta final da década de 60. E entre as figuras de proa de uma cena que então cativou muitas atenções estava Sandy Denny. Começara por atuar em pequenos palcos do circuito folk, gravara um primeiro disco (em 1967) em parceria com o norte-americano Jackson C. Frank e, depois, juntou-se aos Strawbs. Em 1968 os Fairport Convention – banda de proa da cena folk britânica de então – procuravam uma nova voz para tomar o lugar de Judy Dyble e encontraram em Sandy Denny não apenas a resposta à demanda mas uma força que os levou a embarcar na etapa mais aclamada da sua carreira. A presença de Sandy Denny foi, contudo, sol de pouca dura entre os Fairport Convention e em finais de 1969 saia, procurando então um espaço onde pudesse focar mais atenções no seu trabalho como autora. E é então que surge um projeto com o qual nasce um álbum único (houve uma reunião, mas sem Sandy Denny, uns valentes anos depois) que podemos lembrar como um bom retrato do que estava em jogo na confluência de referências e nos horizontes de possibilidades que então se podia viver em terreno folk, por aqueles lados.

É assim que nasce o coletivo Fotheringay, juntando a Sandy Denny dois músicos que vinham dos Eclection (Trevor Lucas e Gary Conway (e ainda dois antigos elementos dos Poet and The One Man Band (Jerry Donahue e Pat Donaldson). O nome da banda foi encontrado no título de uma canção de Sandy Denny que abria o alinhamento do álbum de 1968 dos Fairport Convention “What We Did on Our Holidays” e na qual era referido o Castelo de Fotheringhay, local onde esteve presa Mary, rainha dos escoceses. A capa desse que foi (nessa primeira vida do grupo) o único álbum dos Fotheringay mostrava uma ilustração que mostrava o grupo com cores e roupas vivas, sugerindo o cruzamento dos tempos mas deixando logo bem evidente uma verdade: a folk que praticavam juntava as guitarras acústicas às elétricas.

As sugestões da capa não podiam ser melhor apresentação da música que ali se revelava. Apesar do claro protagonismo de raízes folk – que se notam desde a composição ao modo de cantar da própria Sandy Denny -, há entre as canções de “Fotehringay” uma série de manifestações de assimilações que passam pela presença de solos de guitarra elétrica e ocasionais momentos de alguma complexidade maior em alguns arranjos. Há todavia uma presença firme do gosto em evocar histórias, lugares e figuras de outros tempos que cruzava muitas das narrativas apresentadas em canções folk. E é nesses diálogos entre tempos que aqui se vinca uma expressão de contemporaneidade para um universo de referências que assim assimilava os ecos do seu tempo. O disco é dominado por composições da própria Sandy Denny (e também de Trevor Lucas, que dá voz principal a um dos temas) mas abre espaços à presença de um tradicional e a versões de canções de Bob Dylan e Gordon Lightfoot. Vale ainda a pena lembrar que a produção é de Joe Boyd, outro dos protagonistas da cena folk de então, com obra assinada junto de nomes como os Fairport Convention, Nick Drake ou Vashti Bunyan.

O projeto Fotheringay teve vida curta e, nesta formação, durou apenas o tempo de editar um álbum e o apresentar. Sandy Denny partiria pouco depois para uma carreira a solo. Em 2009 surgiu “Fotheringay 2” um disco criado a partir de gravações inacabadas e inéditas deixadas há muito no arquivo. E em 2016 três dos elementos sobreviventes e alguns novos músicos reativaram o grupo.

“Fotheringay” teve uma edição original em 1970 pela Island Records. Há edições em CD desde 1978, tendo as que surgiram depois da viragem do século acrescentado faixas bónus ao alinhamento. Nos últimos anos voltaram a surgir novas prensagens em vinil.

Da discografia dos Fotheringay e de Sandy Denny vale a pena descobrir discos como:
“Sandy” (1972), de Sandy Denny
“Essen 1970” (2011)
“Nothing More – The Collected Fotheringay” (2015)

Se gostou, experimente ouvir:
Fairport Convention
Nick Drake
Vashti Bunyan

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