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O narcoestado de Rodrigo Duterte

Texto: NUNO CARVALHO

Brillante Mendoza tem em “Alpha: Os Bastidores da Corrupção” um dos seus filmes mais maduros, vigorosos e melancólicos. Venceu o Prémio Especial do Júri no Festival de San Sebastián e será exibido em antestreia nacional na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, na quarta edição do Close-Up.

Apesar de já ter ganho mais de 50 prémios em festivais internacionais (entre os quais o de melhor realização em Cannes e outros de relevo em importantes mostras competitivas como Berlim, Veneza ou Locarno), o realizador filipino Brillante Mendoza é uma figura marginalizada e malquista no seu país, onde os seus filmes não são vistos e passam ao lado de uma audiência narcotizada por comédias apolíticas e histórias românticas. Percebe-se bem porquê – simplesmente, é uma voz incómoda e corajosa, que não se coíbe de fazer sempre uma crítica social e política aguda nos seus filmes, pondo-se do lado dos mais frágeis e vulneráveis e expondo os (muitos) podres do poder e do sistema e os esquemas de corrupção nas mais altas esferas. É claro que esta visão do país não agrada a um líder fraco (mas violento e autoritário) e com um perfil semipsicopático como Rodrigo Duterte (no poder desde 2016), cuja política de “guerra às drogas” só tem sacrificado os pequenos traficantes e consumidores (são conhecidas as execuções sumárias de elementos secundários na gigantesca cadeia de tráfico, aliás condenadas pela comunidade internacional), e protegido o peixe graúdo e os barões da droga, contribuindo para fazer o país caminhar ainda mais para a condição de narcoestado – que, de forma populista e enganadora, finge querer reverter. De facto, é muito fácil (e abjeto) ser muito forte com os fracos e muito fraco com os fortes…

A controversa (e perversa) “guerra às drogas” do presidente Duterte é justamente o cenário de fundo de Alpha: Nos Bastidores da Corrupção (Alpha: The Right to Kill). E aqui o exemplo de corrupção vem de um comandante de uma unidade SWAT que, após uma operação de fuzilamento de pequenos traficantes, se apropria de uma mochila com drogas ilícitas e usa o seu alpha (um funcionário da limpeza recém-contratado que trabalha num departamento da Polícia Nacional das Filipinas e que se torna seu informador) para vendê-las junto de passadores que depois as põem a circular nas ruas de uma Manila caótica, pobre e onde o perigo da violência e o clima de medo sequestram quase todas as possibilidades de convivência pacífica e normal. Em patamares muito diferentes na hierarquia da pirâmide social, os dois protagonistas estabelecem uma relação perigosa que caminha, num crescendo de tensão, para um ponto em que tudo pode acabar mal (sobretudo quando a Polícia descobre um elo de ligação ao informador que pode denunciar o esquema).

Mendoza volta a temas que já tinha tratado noutros filmes (como, por exemplo, em Ma Rosa), mas aqui num estilo mais próximo do thriller de ação (captando também, além do próprio suspense decorrente da ligação perigosa entre as personagens centrais, a atmosfera de paranoia instalada nas ruas de Manila por uma liderança ditatorial que está a transformar as Filipinas num Estado policial e a criar uma espécie de lei tácita de “abstinência”, ao ponto de uma pessoa temer pela vida pelo simples facto de ser apanhada a beber álcool ou a fumar e não confiar na Polícia, com os seus esquadrões da morte longe de executarem apenas raides “cirúrgicos”). Com o habitual registo de câmara à mão e uma montagem exímia e fluente, Alpha: Nos Bastidores da Corrupção é simultaneamente um dos filmes mais maduros, vigorosos e melancólicos de um realizador com uma filmografia consistente não só a nível cinematográfico como da intervenção social e política.

“Alpha: Nos Bastidores da Corrupção” passa hoje, às 21.45, no Grande Auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, no âmbito do Close-Up – Observatório de Cinema de Famalicão

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