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Testemunha do horror

Texto: NUNO GALOPIM

Filme de 1985 “Vem e Vê”, de Elem Klimov, regressa numa cópia restaurada. Baseada em memórias reais, o filme retrata as experiências de um jovem partizan bielorusso confrontado com atrocidades cometidas durante a II Guerra Mundial.

Quantas vezes ouvimos dizer que só “quem lá esteve” é que sabe… E, de certa forma, é dessa velha consciência de que não há como uma testemunha ocular para garantir a verdade de uma descrição que criamos uma primeira ligação com um filme que, logo no, título deixa evidente essa sugestão. “Vem e Vê… E quem “vai” e vê é Flyora, um jovem adolescente bielorusso que, arrancado da mãe e irmãs por um grupo de partizans que recruta almas para combater os alemães, acaba por ser testemunha de terríveis atrocidades cometidas pelos invasores.

O filme convida-nos a acompanhar Flyora… Com ele saímos de casa e começamos por sentir um prazer de descoberta ao caminhar entre florestas, conhecer outros partizans ou a procurar armas perdidas entre areias que assistiram a combates recentes. Mas o invasor está perto. Perto demais… E aos poucos Flyora dá conta de outras dimensões numa história que vai conhecer na pele até que o horror entra numa espiral descontrolada que atinge patamares de loucura. Flyora está lá. Foi e viu. E nós, com ele, vemos também.

Realizado por Elem Klimov (1933-2003), cineasta russo com parte significativa da sua obra criada na década de 60, “Vai e Vê” data de 1985 e correspondeu à última obra que o realizador concluiu. Teve uma pré-história longa, com oito anos de espera gerados por confrontos com organismos soviéticos pouco entusiasmados com a proposta narrativa e, sobretudo, estética. Mas quando finalmente foi rodado, montado e estreado, representou um fenómeno de sucesso tremendo, tendo só na URSS alcançado uma bilheteira no limiar dos 29 milhões de espectadores. Uma cópia restaurada, premiada recentemente em Veneza, está na base desta nova vida do filme nas salas de cinema.

“Vem e Vê” evolui como os braços de uma espiral, começando por nos abraçar e desafiar, sugando-nos depois num vórtex de acontecimentos que apagam do olhar de Flyora a vida e humanidade que antes ali brilhava. Quando o vemos a rir, nos planos de abertura, é um rapazito. No fim o olhar carrega o peso de muitos anos. Não os do tempo real que entretanto passou. Mas antes os que vincam o fardo do horror que desfilou à sua frente.



Apesar de não ter assistido a momentos como aqueles que o filme retrata Klimov não deixa de ter na história da sua própria vida memórias de um “inferno” (como ele mesmo chegou a descrever) vivido naqueles tempos. Na verdade quem esteve mais próximo das situações que o jovem protagonista “viu” foi Ales Adamovich (n. 1927), autor do livro no qual o argumento é baseado. Tal como Flyora o então jovem Ales (que é natural de Misk) foi partizan durante a guerra num tempo em que fizeram história os ataques de forças alemãs a aldeias bielorussas nas quais queimaram populações inteiras. 628 aleias conheceram esse destino, como lemos no ecrã no final do filme.

Há uma dimensão poética, sobretudo na criação das imagens. Mas o choque entre o realismo que desenha algumas das sequências mais dramáticas e o surrealismo com que Klimov caracteriza a pulsão de revolta e desejo de retaliação do protagonista fazem de “Vem e Vê” um caso único e distinto na história das representações de cenários de guerra no cinema. Se é o “melhor filme de guerra”, cada um decida por si… Mas o certo é que em “Vem e Vê” está um dos melhores filmes que este ano vamos ver nas nossas salas.

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