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Vale a pena reencontrar os primeiros discos de José Cid

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1971 o primeiro EP de José Cid junta uma série de pistas que desenhariam caminhos futuros na sua obra. Um retrato crítico de Lisboa, um instrumental que adivinha sabores prog, ritmos tradicionais e temperos escutados nos mais recentes terrenos do rhythm and blues estão à espera de uma redescoberta.

José Cid era já um nome com obra feita no emergente universo pop/rock português quando, em inícios da década de 70, deu os seus primeiros passos em nome próprio. Já se tinha apresentado a solo no Festival da Canção de 1968 cantando “Balada Para D. Inês” porque as regras do concurso não previam a participação de bandas (tanto que o tema chegaria a disco num EP do Quarteto 1111). Mas em 1971, numa altura em que cumpria o serviço militar e mantinha ativo o Quarteto 1111, o músico apresentou com um conjunto de edições que desenhavam a vontade em alargar os espaços pelos quais a sua música poderia caminhar.

Com o álbum de estreia do Quarteto 1111 editado em 1970 (e votado ao silêncio pela censura, sem surpresa avessa às temáticas ali abordadas) José Cid apresenta então um magnífico primeiro álbum a solo – ao qual chama simplesmente “José Cid” – no qual são já evidentes os sinais de horizontes alargados a explorar nu alinhamento onde surge o belo “Volkswagen Blue”, de Gilberto Gil (que tinha passado por Lisboa a caminho do exílio em Londres).

No mesmo ano lançou ainda dois EPs com temas não incluídos no álbum. O primeiro deles, “Lisboa Perto e Longe” tem como tema principal a canção que lhe dá título e na qual se desenha um retrato crítico de uma Lisboa em confronto entre ecos da sua história e um presente cinzento. A presença da guitarra portuguesa, a voz que não se vergou aos cortes da censura (fala-se em “multidões silenciosas”) e um certo sarcasmo no último verso são marcas de uma canção que hoje parece algo esquecida no longo historial discográfico de José Cid mas que na verdade, como o resto do EP, traduz sinais de ideias que a obra seguinte continuaria a explorar.

Outro interessante sinal de ideias lançadas a prever passos futuros é o instrumental “Dida”, que continua os ambientes da canção de apertura mas junta ecos jazzy a imaginar um futuro progressivo.

Na face B do EP “Dona Feia” revela um gosto pela exploração das possibilidades da música tradicional, aqui claramente apontando os azimutes da curiosidade a Norte. A fechar o alinhamento “Zé Ninguém” revela a mais evidente ligação deste conjunto de gravações a terrenos rítmicos mais próximos da cultura pop/rock de então, sugerindo mesmo um interesse pelos caminhos do R&B.

Este EP, assim como os demais discos a solo que José Cid editou entre 1971 e 1974 correspondem a uma etapa que parece arredada do que o tempo definiu como o cânone dos seus grandes êxitos. Há aqui porém muitas pérolas (como esta) a pedir reencontros. É que, tal como outros discos desta sua etapa, este EP nunca teve edição em suporte digital.

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