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E cinquenta anos depois, finalmente podemos ouvir Woodstock (quase) de fio a pavio

Texto: NUNO GALOPIM

Uma caixa para colecionadores (que já esgotou), novas edições antológicas e discos com as gravações de algumas atuações integrais juntam agora importantes contribuições à história das memórias discográficas do festival de Woodstock.

Não se vai saber nunca quantos milhares ali estiveram… Meio milhão? É o número mais vezes citado para contar a história dos três dias de paz, amor e música que, como se lia nos cartazes, tiveram lugar em Woodstock entre os dias 15 e 17 de agosto de 1969… Na verdade, tal como o meio milhão, também o nome do festival e as datas em que aconteceu fazem parte de uma mitologia. Woodstock existe, de facto, mas fica a uns bons quilómetros de distância da quinta do senhor Max Yasgur que deu o sim para receber o festival. E onde? Em Bethel… Convenhamos que Bethel 1969 não soa da mesma maneira. Isto para além de Woodstock ter um outro valor além do som: era ali que então vivam Bob Dylan e os membros dos The Band… Dylan não foi a Bethel… Mas Woodstock fez as honras de dar nome ao festival que, de modo algum, foi o primeiro do género (e basta lembrar que desde 1967 havia já grandes cartazes e multidões em Monterey, na Califórnia). Mas Woodstock teve algo diferente e marcante: imagens. Desde o início havia uma equipa de cinema, comandada por Michael Wedleigh (e contando com figuras como Martin Scorsese, Thelma Shoenmacker ou Harrison Ford), que partiu, sem guião, mas com olho atento, em busca das figuras, dos lugares, dos acontecimentos. E convenhamos que teve sorte. A multidão inesperada, o palco rudimentar, as tempestades, a lama, os banhos idílicos… Pormenores que um bom argumentista desenharia mas que o acaso colocou pela frente das câmaras. E se quem ali esteve viveu momentos únicos, na verdade coube ao filme – estrado um ano depois – a inscrição definitiva de Woodstock como experiência de impacte maior na história da música e, mais ainda, da sociedade…

Ao longo de 50 anos Woodstock foi memória tantas vezes citada mas sobretudo recordada (e por muitos conhecida) através das imagens do filme de Michael Waldleigh. A música, afinal a razão central de tudo aquilo, chegava igualmente através das imagens ou da banda sonora que seria editada num triplo LP logo em 1970, juntamente com a estreia internacional do filme. Em 1971 surgia um segundo volume de registos captados durante as atuações, desta vez num LP duplo que incluía entre as novidades a atuação de Melanie, presença que a montagem do filme deixara de fora. Era mais uma coleção de fragmentos… E foi preciso passar algum tempo para que a memória de ‘sets’ completos começasse a ser fixada em disco. E sem surpresa Jimi Hendrix esteve (postumamente, claro) na linha da frente dos acontecimentos, com uma edição de um álbum ao vivo com as gravações de Woodstock em 1994, o mesmo ano que assistia a uma nova (mas claramente menor) edição do festival.

A celebração dos 40 anos do festival gerou, em 2009, uma série de novos lançamentos, entre os quais a compilação “Woodstock 40” que juntava gravações já célebres a momentos inéditos das atuações de Tim Hardin, Arlo Guthrie, The Incredible String Band, Creedence Clearwater Revival e colocava em cena os Mountain, até ali um nome quase “esquecido” de Woodstock. Ao mesmo tempo surgiu uma série – com o título “The Woodstock Experience” – pela qual começaram a ser editadas gravações integrais de algumas atuações no festival. E ao mercado do CD chegaram então discos dos Jefferson Airplane, Sly & The Family Stone, Johnny Winterm Janis Joplin ou Santana. As edições surgiram em CD, tendo a Music On Vinyl editado em 2018 uma versão em vinil do disco com a atuação de Johnny Winter. Todas elas estão já disponíveis nas plataformas digitais.

Agora, meio século depois de Woodstock, a chuvada de edições é para deixar qualquer alma ensopada em som… Há de tudo para todos os gostos e carteiras… Mas a mais emblemática das edições sumiu-se num ápice… Era – e uso o passado porque está esgotada – uma caixa com 38 CD criada com a curadoria de Andy Zax, produtor e arquivista que achou recentemente, num armazém de Los Angeles, uma série de fitas provindas dos escritórios da Atlantic Records (em Nova Iorque) que tinham sido para ali enviadas. E entre elas estavam as gravações integrais do que se passou no palco em Woodstock. As gravações foram ordenadas cronologicamente arrumadas, pelo que tudo começa ao som de Richie Havens e termina com Jimi Hendrix. A caixa inclui um Blu-ray com o filme de Mi há ainda gravações de comentários gravados durante o próprio festival por Charles Groesbeek. Acontece que apenas 1969 unidades foram fabricadas. E todas elas já têm dono…



Para carteiras sem o fôlego das que puderam deixar escorrer valentes dólares pela caixa grande, há uma outra com uma seleção de momentos chave, ordenados em 10 CD. E ainda há uma terceira versão, mais concisa, em apenas 3 CD, mas todas elas sob o título “Back To The Garden”. Não faltam novidades, as maiores sendo, pela primeira vez, a revelação das gravações das atuações dos The Band e dos Grateful Dead. Retomando o grafismo da banda sonora do filme e do segundo volume de memórias de arquivo de 1971 surgiram, em vinil, mais duas edições com fragmentos do festival. “Woodstock Three” é um triplo LP com excertos das atuações de Richie Havens, Bert Sommer, The Incredible String Band, Melanie, Creedence Clearwater Revival, Keef Hartley Band, Joe Cocker, Jefferson Airplane, Canned Heat, Country Joe & The Fish, Sweetwater, Sly & The Family Stone, Janis Joplin, The Who, Johnny Winter, Blood Sweat & Tears, Crosby Stills Nash & Young e John B Sebastian. “Woodstock Four” junta gravações dos Jefferson Airplane, Ten Years After, The Who, The Butterfield Blues Band, Joe Cocker, Arlo Guthrie e de Ravi Shankar. Para os colecionadores de vinil há ainda uma versão especial numa caixa com 5LP.

Além destas novas edições antológicas a celebração dos 50 anos de Woodstock está a promover uma série de lançamentos individuais. Acabam de surgir em CD e 2LP “Live In Woodstock” dos Creedence Clearwater Revival e, para já apenas em suporte digital, “Live In Woodstock” de Joan Baez. Das gravações editadas em CD em 2009 foram agora lançados em vinil os discos “Woodstock, Sunday August 17, 1969” dos Jefferson Airplane (3LP), “Woodstock, Sunday August 17, 1969” de Janis Joplin (2LP), “Woodstock, Sunday August 17, 1969”, dos Sly & The Family Stone” (2LP). Há também lançamentos de autações integrais que, por enquanto, estão apenas disponíveis em suporte digital. E aí encontramos as memórias das atuações dos Blood Sweat & Tears, Mountain e Melanie…


Ou seja, a caixa dos 38 CD e um DVD, a tal que só existe agora em 1969 coleções, pode ter desaparecido… Mas não faltam aí maneiras de reencontrar as memórias do que aconteceu no palco de Woodstock há meio século!

PS. O “quase” do título do post desaparece no caso de o leitor ser um dos 1969 donos da mega-caixa!

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