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Uma grande festa para celebrar as memórias dos Soft Cell

Texto: NUNO GALOPIM

Um concerto na londrina O2 Arena, perante uma multidão de 20 mil pessoas, assinalou a despedida dos palcos dos Soft Cell. Agora chegam versões para ouvir e ver de um concerto essencialmente feito de memórias.

Uma O2 Arena, à pinha, com vinte mil almas – entre as quais figuras como Jarvis Cocker (Pulp), Rusty Egan (Visage), Andy Fletcher (Depeche Mode) ou Claudia Brücken (Propaganda) – e uma transmissão em direto para várias salas de cinema fizeram da noite de anunciada despedida dos palcos dos Soft Cell um acontecimento em nada comparável à sua estreia, numa pequena festa de Natal do departamento de arte da Leeds Poytechnic, em dezembro de 1977. Com duas vidas, ou uma terceira se juntarmos esta que ganhou forma naquela sala londrina em setembro de 2018 (mais o single inédito “Northern Lights” igualmente lançado nesse ano), começaram por se mostrar como uma das mais subversivas forças de uma então emergente pop eletrónica para se transformarem num (inesperado) caso de sucesso e referência com claras descendências.

Apesar de uma separação dolorosa que chegou em 1984, ainda antes da edição do seu terceiro álbum de originais (e em parte gerada pelo desconforto gerado pelas sequelas do estatuto de popularidade conquistado depois do impacte global de “Tainted Love” em 1981), a vida de Marc Almond e Dave Ball conheceu vários episódios seguintes de cruzamentos. Reencontros que começaram com uma parceria (via The Grid, projeto de Dave Ball) no álbum “Tennement Symphony” de Marc Almond antes de se materializar uma reunião que gerou o quarto álbum “Cruetlty Without Beauty” (2002), uma digressão e um primeiro álbum ao vivo em 2003.

Em setembro de 2018 um novo encontro – que na verdade chegou em tempo de novas sessões de estúdio das quais ainda poderão chegar novidades – foi anunciado para a O2 Arena, num concerto de dimensão nunca antes vivida pela dupla e que, supostamente, terá representado o fim de ciclo para a via dos Soft Cell no palco.

A atuação arrancou ao com do mítico “Memorabillia” (tantas vezes erradamente citado como o disco de estreia do grupo, havendo já um EP, de título “Mutant Moments”, lançado antes). E avançou num arco narrativo não cronológico que passou por todos os álbuns e por singles e lados B, arrumando as memórias em blocos. Primeiro os temas do álbum, depois uma primeira incursão por “The Art Of Falling Apart” (disco de 1983 e o mais visitado pelo alinhamento) e, depois, memórias de “This Last Night In Sodom” (1984) e do clássico “Non Stop Erotic Cabarert” (1981), com uma reta final em registo “greatest hits” ao som de “What”, “Bedsitter”, “Tainted Love (em medley com a versão de “Where Did Our Love Go” que surgia no lado B desse single de 1981), “Sex Dwarf” e, a fechar, “Say Hello Wave Goodbye”. Pelo meio lá estava o recente “Northern Lights”, assim como um dueto com Mari Wilson ao som de “Last Chance”, em noite que assinalou a estreia ao vivo de algumas canções, uma delas Where The Hear Is” que agora ficou de fora do alinhamento da versão editada em disco. De resto, dos temas apresentados no concerto, apenas dois ficaram fora do disco: esse single de 1982 e “…So”, o lado B de “What?”.

Um Dave Ball quase irreconhecível deu conta das eletrónicas (excelente o suporte instrumental). Marc Almond – que nunca recuperou o fôlego e o viço de outrora depois do acidente quase fatal que o vitimou em 2004 – foi bom mestre de cerimónias, com uma ou outra nota fora do lugar, o que nem foi surpresa nem pareceu incomodar ninguém.

A gravação áudio e vídeo celebra 40 anos de trabalho e de grandes memórias. É um concerto mais feito de nostalgia do que de lançamento de eventuais caminhos futuros em conjunto (se é que existirão) ou até mesmo a solo. Na verdade, salvo o aparato cénico e o efeito do natural impacte do momento em qualquer gravação ao vivo, em nada o concerto acrescenta valores a uma discografia de referência na história da pop eletrónica. Os que os acompanham há 40 anos vão saborear as memórias (e sabem bem). Os que agora chegam aos Soft Cell talvez devessem optar por escutar as gravações originais… Mas celebrar memórias não faz mal a ninguém. E este é o retrato de uma grande festa.

“Say Hello Wave Goodbye – The O2 London” está disponível em vários formatos áudio e vídeo. Ver aqui.

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