E agora, Jon Stewart?
Texto: NUNO GALOPIM
As notícias que cruzaram o Atlântico esta noite ora dão conta do debate entre os candidatos à nomeação republicana – com Donald Trump a não fechar a porta à eventualidade de uma candidatura independente – e a despedida do Daily Show, que fez de Jon Stewart uma das figuras mais influentes do panorama televisivo norte-americano dos últimos anos. Não que a primeira das duas fontes de notícia não seja importante. Afinal, escolhem-se ali candidatos à sucessão de Obama na Casa Branca. E com Trump (e o impacte, até aqui, das suas atitudes e respostas) a personalizar tudo o que de mais errado pode nascer como consequência da era dos famosos e do mediatismo fácil chegado por via do pequeno ecrã. Não faltam hoje na imprensa comentários e observações sobre o que se disse, incluindo o que pareceu um relativamente discreto star power de Jeb Bush e as potenciais fontes de surpresa que poderão surgir de alguns nomes até aqui menos destacados nas sondagens mas, ao contrário do mais moderado antigo governador da Florida, irmão e filho de ex-presidentes, parecem mais próximos da alma conservadora que define o atual eleitorado republicano… Há cenas dos próximos capítulos a seguir nesse departamento.
Bem diferente do que a Fox apresentava, o Daily Show despedia-se de Jon Stewart após 16 anos de um trabalho notável que dele fez uma das vozes mais vivas e acutilantes de uma América mais liberal do que a que escutava o debate em busca daquele a quem dar (ou não) o voto. Crítico da administração de George W. Bush, mas igualmente capaz de comentar a de Obama, Jon Stewart ajudou a moldar um modelo de informação comentada ao qual aderiu sobretudo um público mais jovem, mais urbano e mais esclarecido para quem o humor é uma arma contra a ignorância.
Na hora da despedida a multidão de artigos publicados sobre Jon Stwart dá conta do valor que o seu trabalho conquistou na cultura popular do nosso tempo. E é perfeitamente natural que se questione: e agora?
Ainda esta manhã, num dos blogues associados ao Guardian, eram apontados vários caminhos possíveis para o (agora) ex-apresentador do Daily Show, desde umas simples férias em família ao abraçar de lutas por causas públicas, não esquecendo a stand up comedy ou outras experiências de jornalismo (sobretudo, como o jornal inglês recorda, na sequência de um desafio da NBC). O mais provável dos caminhos – que pode certamente não ser o único – deverá voltar a vê-lo em breve por detrás das câmaras, vestindo uma vez mais a pele de realizador.
Vale a pena recordar aqui a sua estreia no grande ecrã. Aconteceu recentemente com Rosewater (que acaba de ter edição em DVD entre nós). Baseado na memória Then They Came For Me, do jornalista da Newsweek Maziar Bahari, assinada em conjunto com Aimee Molloy, o filme evoca os 118 dias de detenção e sucessivos interrogatórios que se sucederam a uma gravação de uma peça humorística para o Daily Show com o protagonista como um dos intervenientes. De origem iraniana, e de regresso ao país para acompanhar as eleições de 2009, onde procurou escutar vozes defensoras dos dois principais candidatos, foi tido como espião ao serviço de várias agências, uma delas… a Newsweek.
Gael García Bernal interpreta em Rosewater o papel de Maziar, filho e irmão de opositores políticos. Minimalista nos recursos, o filme aproxima-nos do ambiente de isolamento a que foi confinado, interrompido apenas pelos sucessivos interrogatórios, muitos deles feitos de olhos vendados, daí nascendo a memória do cheiro do perfume que o agente que repetia incessantemente as mesmas perguntas lhe lançava.
Recebido com entusiasmo moderado, dividindo algumas opiniões (ao que parece mais por questões no plano político do que artístico), Rosewater não deixa de ser uma interessante demonstração de capacidades que Jon Stewart deverá continuar a explorar. Como ele mesmo o disse, o cinema afinal representa outra forma de contar histórias que é, no fundo, o que já fazia. E se a isso aliar – como muito bem o faz em Rosewater (pronto, fica claro que gostei do filme) – um saber no tomar partido de posições, mantendo viva a voz crítica a que nos habituou, só temos a ganhar com isso.
“Rosewater” está editado em DVD entre nós pela NOS

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