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Diferentes graus de solidão

Distinguida há poucos dias na premiação dos Globos de Ouro, a série ‘Transparent’ leva à ficção televisiva um novo olhar sobre personagens transgénero.

Texto: MÁRIO RUI VIEIRA

No seu discurso de vitória na cerimónia deste ano dos Globos de Ouro norte-americanos, Jeffrey Tambor, ator principal de Transparent – série estreada recentemente na televisão por cabo portuguesa (TVSéries, quinta-feira às 22h30) – exclamou “isto é tão importante. É muito mais importante do que eu”, antes de dedicar a sua prestação à comunidade transgénero, “pela sua coragem, inspiração e paciência”. O ator de 70 anos, provavelmente mais conhecido por ter integrado o elenco da série de culto Arrested Development, levou para casa o galardão de Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical, mas a própria série foi distinguida, batendo a concorrência feroz de Girls e Orange is the New Black.

Produzida pelos Amazon Studios, Transparent conta a história de uma família que, apesar dos seus conflitos e segredos, consegue ser bem menos disfuncional do que se poderia prever. No centro da ação está Mort Pfefferman, um professor de ciência política que decide, ao fim de décadas de luta interna, assumir perante a família que se identifica como mulher. Quem é essa família? Sarah (Amy Landecker), a filha mais velha, que troca o marido por uma mulher; Josh (Jay Duplass), o filho do meio, um produtor musical com queda para relações complicadas com mulheres; e Ali (Gaby Hoffmann), a filha mais nova, desempregada, também com sérias dificuldades de relacionamento com o sexo oposto (e consigo própria). Shelly Pfefferman – personagem desempenhada por Judith Light, da sitcom Chefe, Mas Pouco e, mais recentemente, Betty Feia – é a excêntrica, mas compreensiva, ex-mulher de Mort, agora Maura.

Criada por Jill Soloway – argumentista, realizadora e comediante que viu o seu nome associado a séries tão marcantes quanto Sete Palmos de Terra, Anatomia de Grey ou As Taras de Tara -, Transparent é baseada em factos verídicos. Inspirada pelo pai, que há pouco mais de três anos decidiu passar a viver como mulher, Soloway não teve medo de arriscar contar uma história fraturante num panorama televisivo que ainda recentemente recebeu Sophia Burset, personagem transgénero de Orange is the New Black, desempenhada pela também transgénero Laverne Cox, de braços abertos, oferecendo-nos um dos produtos televisivos mais arrojados e honestos a surgir no pequeno ecrã nos últimos anos.

Pode ficar para a história, acreditamos mesmo que isso aconteça, como “a” série de televisão que deu voz à comunidade transgénero – e isso, só por si, já é louvável – mas Transparent é muito mais. Tanto que, por vezes, se torna doloroso assistir. É uma história de aceitação, de inconformismo, de incompreensão, também, mas é, acima de tudo, uma história que nos coloca frente a frente com pessoas iguais a todos nós, que vivem a solidão de forma muito particular. Mort/Maura questionando-se a cada a momento: “aceitar-me-ão como realmente sou?”; Sarah em busca da felicidade fora de um casamento que não a preenche; Josh incessantemente à procura de algo que não sabe bem o que é mas que nunca será comparável à relação que marcou a sua infância/adolescência; Ali vivendo numa eterna insegurança que a impede de aproveitar em pleno as suas potencialidades. O que sobressai de todos estes conflitos internos de personagens defendidas por um elenco avassaladoramente talentoso é a esperança que chega com a transparência, isto é, o momento em que os outros passam a ver-nos como nós próprios nos vemos… Como realmente somos (?). 

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