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Nicki Minaj, ‘The Pink Print’

Ao terceiro disco de originais, Nicki Minaj volta a evidenciar a vitalidade da sua obra, salientando simultaneamente a sua importância enquanto ícone da expressividade feminina.

Presente no espaço mediático da música mainstream desde 2010, altura pela qual o disco de estreia Pink Friday deixava antever algum do modus operandi da sua autora, Nicki Minaj mantém-se cercada por níveis de popularidade e azáfama que tanto se devem ao seu repertório, como à forma como o – e se – decide apresentar. Sendo explicitamente bem-sucedida em canções que buscam os modos mais espalhafatosos de união entre a pop e a música de dança (recordem-se Superbass”, Starships ou Pound the Alarm), Nicki traçou entretanto um novo patamar para aquilo que uma figura feminina é capaz de atingir num contexto tão tipicamente misógino como o panorama internacional de rap/hip-hop. Roman Holiday, Beez in the Trap ou a sua incrível performance em Monster (presente em My Beautiful Dark Twisted Fantasy), são exemplos da cadência frenética e da originalidade rítmica de Nicki.

Assinando agora The Pink Print, o seu o terceiro longa-duração, a artista persegue objetivos menos festivos, optando por modos expressivos mais discretos apesar da irreverência contínua de Anaconda e do respetivo teledisco que, ao serem apresentados como breve antevisão do álbum, far-nos-iam prever uma audição agitada e rica em ritmos mais acesos. Uma armadilha sonora na qual o ouvinte pouco preocupado com rótulos de género não se importará de cair.

Com um alinhamento que coloca no seu início o tríptico de canções mais emocionais que Nicki Minaj alguma vez escreveu, All Things Go, I Lied e The Crying Game perfazem um desarme maior a nível das expectativas e de qualquer noção de preconceito sobre o que aqui se poderia vir a escutar. Estas são três faixas que, para além de profundamente biográficas, aliam uma rigorosa entrega vocal a ritmos quase minimalistas e a sintetizadores que tingem em tons subtis refrões que nos surpreendem em cada uma das canções.

Ao longo da duração do disco clarifica-se a proposta artística que salienta o álbum como objeto mais complexo do que um mero conjunto de canções: a consistência na sonoridade com que The Pink Print se constrói, torna-o uma audição sólida, apoiada por um arco semi-narrativo assente na introspeção como elemento chave.

Anaconda e Pills’n’Potions são os singles que servem de isco para ouvintes em busca de êxitos que possam rivalizar com as ideias mais histéricas que no anterior Pink Friday: Roman Reloaded resgatavam pulsões eurodance para as fundirem com EDM (electronic dance music, ou seja, uma ideia claramente direcionada para as pistas de dança) – mistura genérica que não se revelou exactamente vitalícia, deixada de parte quase por completo em The Pink Print.
Ainda que contando com várias colaborações em algumas faixas do álbum (dando especial destaque para Get on your knees, com Ariana Grande e The Crying Game com Jessie Ware), estamos diante de uma obra que enfatiza a singularidade do papel de Nicki Minaj na música popular desta década. Ao espelhar uma maturação notável e prescindido de formulas anteriores para sucesso comercial, a mestria de The Pink Print vive da peculiaridade de instantes como exercícios de dicção (Want some more), o inteligente manuseamento de loops de percussão (Four Door Aventadore ou Buy a Heart), a melancolia da tríade inaugural acima mencionada ou o final dramático com Grand Piano.

À semelhança de Broke with Expensive Taste de Azealia Banks, The Pink Print tem o que é necessário para se considerar um dos discos de hip-hop mais importantes de 2014, ao celebrar as possibilidades criativas da figura feminina nesse universo. – André Lopes

 

 

Nicki Minaj
“The Pink Print”
Island / Universal
( 4 / 5 )

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