Apaguem as luzes. E espreitem o escuro
Texto: MIGUEL MARUJO
John Carpenter pede que se ouça o seu novo álbum (sim, um álbum de música) às escuras. Apaguem as luzes, diz o realizador. Faz sentido o pedido, vindo do mestre do terror e do medo – e é na noite, na escuridão, que tudo se teme. O escuro é afinal o sítio que quase sempre tememos. Mesmo em adultos, largados numa viela escura ou a passar na orla de uma mata, qualquer barulho inesperado faz sobressaltar o mais destemido Van Damme que há em nós. A literatura e o cinema, mais do que a música, sempre exploraram esse espaço.
Repitam isso agora às crianças: o escuro é o sítio de todos os medos. Como na obra de Lemony Snicket, ilustrada por Jon Klassen, O Escuro, em que logo se vê na capa ao que vamos: Lucas, o miúdo da história, abre uma porta e olha para umas escadas que mergulham na escuridão.
O escuro vive na casa de Lucas, onde parece que Carpenter se instalou para filmar. “Era uma grande casa, com um telhado que rangia, com janelas lisas e frias e com muitos lanços de escada.” O escuro andava por ali, sempre a rondar Lucas, a explorar os seus medos. Qual vampiro, refugiava-se na cave, escondido da luz. “À noite como seria de esperar, o escuro saía e espalhava-se pelas janelas e pelas portas da casa do Lucas.”
Não antecipemos finais, mas Lucas aprende a conviver com o escuro – e o leitor desce as escadas com os dois. O traço de Klassen é despojado, dando às palavras de Snicket as tonalidades certas, mesmo nas páginas mais escuras ou nas figuras mais iluminadas. E é nestes contrastes que o texto mais se ilumina.
No campo da ilustração, a literatura infantil (a nacional e a traduzida) vive uma criatividade de uma regularidade e qualidade que espanta quem anda mais desatento ao fenómeno, no campo da edição – e que continua a saber reinventar os temas mais batidos e clássicos. Como este medo primitivo do escuro. Basta pestanejar duas vezes e mergulhar nestas páginas.
Lemony Snicket e Jon Klassen
“O Escuro”
Orfeu Negro, 44 páginas
ISBN 978-989-8327-44-4
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