Beleza/psicose americana
Texto: JOÃO MOÇO
Lembro-me com clareza de ter 16 anos e apanhar na MTV o teledisco da Sugar, We’re Going Down, dos Fall Out Boy, e de cada vez que a ouvia acabar a fazer o air guitar mais ridículo do mundo em frente à televisão. A ressonância emocional não se prendia apenas com a canção em si, mas com a história que o próprio vídeo contava, a do adolescente que se destaca de todos os outros e que chega a testar as soluções mais drásticas só para também ele sentir que pertence a alguma coisa. No final dos três minutos de canção assentava imediatamente o sentimento de culpa, derivado de muitos lados, entre eles o de acreditar na altura que gostar de uma banda como os Fall Out Boy era só mais um sinal de inferioridade pessoal. Esta crença absurda manteve-me semi-afastado do grupo norte-americano durante anos. Felizmente hoje consigo perceber porque é que o Folie à Deux (lançado três anos depois daquele air guitar, em 2008) é seguramente um dos melhores álbuns rock da primeira década do século XXI – sendo que os anteriores Infinity on High (2007) e From Under the Cork Tree (2005) não lhe ficam assim tanto atrás.
Foi precisamente neste período entre 2005 e 2007 que os Fall Out Boy, a par dos My Chemical Romance, foram apelidados de bastiões da música emo. Se essa conotação não seria errada se fosse aplicada somente aos primeiros discos de cada uma das bandas, então não vinha mal ao mundo. O problema é que a imprensa mais preguiçosa (e consequentemente o público mal informado e menos interessado ainda) não se cansou de os conotar a um género e a uma forma de actuação que depressa cada um dos grupos largou. Os My Chemical Romance apontaram o seu caminho para um rock operático descendente dos Queen e recuperaram a escola glam rock (entretanto colocaram um ponto final nesse percurso, mas o vocalista Gerard Way lançou-se a solo e fez o melhor disco de guitarras que ouvi no ano passado). Os Fall Out Boy têm feito da sua missão criar em cada canção um hino de estádio obcecado com cultura pop e que progressivamente se tem aproximado do hip hop. Há dois anos, quando lançaram Save Rock’n’Roll (o álbum que assinalou o seu regresso depois de cinco anos sem gravar), convidaram o rapper Big Sean para colaborar em The Mighty Fall e desafiaram 2 Chainz para uma nova versão de My Songs Know What You Did In the Dark (Light Em Up). Antes já tinham convidado Lil Wayne e Pharrell Williams para o injustamente ignorado Folie à Deux e Jay Z tem uma aparição imemorável no álbum Infinity on High. E este ano já anunciaram uma digressão com Wiz Khalifa.
Agora regressam com American Beauty/American Psycho e fazem aquele que é o seu álbum mais obcecado com a cultura pop (logo a começar pelo título), repescando samples de canções de gente tão diversa como Son Lux, Mötley Crue ou Suzanne Vega para o universo épico dos Fall Out Boy, um método de construção tão próprio do hip hop. O disco reafirma-os como grandes fazedores de canções pop do nosso tempo, onde cada gancho melódico é letal e cada refrão é catedralesco, ao mesmo tempo que experimentam com precisão novas fórmulas dentro da sua já precisa identidade musical. O exagero que talvez se lhes pudesse apontar derivado de tanto momento épico poderia fazê-los cair no ridículo, mas o sentido de humor que sempre exploraram (contrastando-os da cena emo a que os associam) leva-os a abraçar o ridículo de tal forma que cada canção se torna não só altamente cativante mas relacionável com o comum dos mortais.
É o que acontece com o grande tema deste sexto álbum, Uma Thurman, que acaba por se transformar em duas ou três canções numa só. A canção referencia a actriz durante o filme Pulp Fiction, partindo de um piano que podia ter saído de um sucesso mais efusivo de Elton John (que, curiosamente, já colaborou com a banda no tema que deu título ao álbum Save Rock’n’Roll) para desembocar numa malha surf rock que sampla o genérico da série televisiva The Munsters (“rival” nos anos 1960 da Família Adams).
É no centro do alinhamento que se encontram as canções deste American Beauty/American Psycho que podem figurar ao lado das melhores do grupo, da emotiva The Kids Aren’t Alright (faixa 4) a Favourite Record (faixa 9), sobressaindo sempre a riqueza melódica, mesmo quando atacam logo aos primeiros segundos com um refrão que ambiciona ser maior que a vida (oiça-se Fourth of July, que sampla Lost It to Trying, de Son Lux). A transição de uma toada midtempo para um refrão bombástico em Jet Back Blues não deixa também de ser impressionante. Favourite Record (cujo verso do guitarrista Pete Wentz, “I’ll spin for you like your favourite records used to”, faz-me lembrar imediatamente a You Spin Me Round (Like a Record) dos Dead or Alive) vive muitos dos seus preciosos detalhes, da inicial entrega vocal de Patrick Stump num ritmo partido até que a canção ganha progressivamente uma estrutura delineada.
Claro que existem momentos menores ao longo do álbum, como são o caso dos singles Centuries (no qual se sampla Tom’s Diner de Suzanne Vega) e Immortals, dois casos flagrantes de uma composição desajeitada. Ainda assim, passados quase 15 anos desde a sua formação e ainda conseguirem ter um conjunto de canções deste calibre é de salutar e só reforça a riqueza dos Fall Out Boy.
Fall Out Boy
“American Beauty/American Psycho”
Island Records/Universal Music Group
( 4 / 5 )

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