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Coragem ou crueldade? Você decide

Texto: LIA PEREIRA

O que sente o irmão de uma criança, mais tarde um quase-adulto, com deficiência? Pena seria o nosso palpite mais imediato, seguido de uma miríade de emoções difusas: empatia, carinho, curiosidade e confusão estariam entre elas.

Professor e linguista, o narrador de O Meu Irmão não nutre por Miguel, o mano mais novo de uma família numerosa, qualquer destes sentimentos. Ou por outra, se os sente, não são eles que dominam e definem a complicada relação fraternal. Sem nome, a personagem a quem chamam “doutor” nos cenários por onde se vai movendo, da aldeia de dois ou três habitantes onde se refugia a certa altura à associação onde o irmão passa os dias, confessa que olha para Miguel – uma criança diferente, um adulto que nunca chega a sê-lo – sob a égide de uma palavra começada por i, alojada a páginas tantas no dicionário de Língua Portuguesa. Não é difícil imaginar que se trata de inveja, afinal, que a vida, naturalmente limitada e muito pouco autónoma de Miguel, suscita no nosso herói (humano, demasiado humano). Esta revelação, que entrevemos pouco a pouco nas palavras e ações do narrador, é talvez a grande surpresa e o maior ponto de interesse de boa parte d’ O Meu Irmão, primeiro romance de Afonso Reis Cabral, distinguido em 2014 com o Prémio Leya.

Num estilo escorreito e descritivo, por vezes correndo lento como um rio lodoso, o autor mostra-nos o trajeto de Miguel até à idade adulta: a relação com os pais, o isolamento relativo do mundo lá fora, o colégio e, naquilo que irá definir o rumo da ação, a paixão por uma colega, também deficiente, chamada Luciana.

Por que razão tem este aspirante a escritor inveja de um homem com Síndrome de Down vamos desvendando ao longo das quase 400 páginas d’ O Meu Irmão – e não será por acaso que o narrador não tem nome; ele existe como irmão e, depois da morte dos pais, como cuidador de Miguel, mas pouco mais. Os laços que estabelece – casamento efémero, vida profissional baça – são frágeis e empalidecem, a seu ver, na comparação com o brilho impossível da bolha, falha de crítica e expectativa, em que habita Miguel.

Não se pense, porém, que é paternalista o tom d’ O Meu Irmão; ao invés de enaltecer a virtude ou a ingenuidade dos doentes, em detrimento do caráter daqueles a quem a deficiência não tocou, a estreia de Afonso Reis Cabral é crua, por vezes mesmo cruel, espelhando os conflitos e as adversidades de uma relação raras vezes pacífica. A deficiência é um fator central nesta dinâmica, mas os ressentimentos familiares são passíveis de gerar identificação junto de qualquer leitor; de igual forma, o retrato do interior do país, em acelerado desaparecimento, e o pano de fundo com suaves alusões à crise são marcas inconfundíveis do Portugal contemporâneo.

E por falar em ressentimento: tal como o rio enganadoramente plácido de uma das muitas histórias de infância em que se ancora o presente deste livro, também o ritmo de Afonso Reis Cabral se altera drasticamente na reta final d’ O Meu Irmão. Boa parte da ação vai-se desenrolando no Tojal, a tal aldeia quase abandonada para onde Miguel é levado, a fim de esquecer um acontecimento traumático que só conheceremos no final. No dito lugarejo, os únicos habitantes são um casal com um filho adulto, Quim, cuja doença de ordem física espelha as dificuldades de Miguel. A partir do momento em que a história desta personagem se completa, também os acontecimentos, ou a memória dos mesmos, parecem precipitar-se na mente do narrador. Finalmente sabemos o que aconteceu – depois de, durante boa parte do tempo, acreditarmos que não seria possível ou até importante descobrir – e a narrativa ganha um fôlego inesperado e perturbante, tom no qual o livro termina. “Regressamos lado a lado, devagar, tacteando. Perto do caminho que sobe para nossa casa, estreito-o com força. Murmuro-lhe ao ouvido ‘Miguel, não sei o que dizer’, e ele responde ‘Não digas nada’.» – são estas as últimas palavras que lemos em O Meu Irmão e, à semelhança dos seus dois grandes protagonistas, terminamos esta obra sem saber ao certo o que pensar: sobre a natureza do ato do mano mais velho – fruto do amor pelo irmão, garante –, sobre a justeza das suas decisões ou o sobre o futuro daquela parelha problemática. E é nesta dúvida moral que se joga, a nosso ver, o grande trunfo d’ O Meu Irmão, tanto mais convincente quanto aborda sem contemplações as fronteiras entre amor e honestidade, crueldade e coragem.

Afonso Reis Cabral
“O Meu Irmão”
Leya, 368 páginas
ISBB 978 – 989 – 660 – 344 – 1
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