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Diálogo intimista para piano e contrabaixo

Texto: JOÃO MORGADO FERNANDES

Grandes ‘standards’ americanos do século XX americano reinventados por Keith Jarrett e Charlie Haden. A segunda parte de uma sessão histórica.

ECM

Keith Jarrett anda há uns bons anos a tentar demonstrar que escrever canções ou interpretar canções é mais ou menos a mesma coisa. Desse ponto de vista, não será muito diferente o seu trabalho mais recente, muito assente na reinterpretação dos grandes standards americanos, e o improviso total, de que é exemplo mais perfeito o Koln Concert, de 1975.

Ouça-se, por exemplo, o modo como neste disco o pianista transfigura totalmente Round Midnight, ao ponto de apenas na recta final percebermos que se trata, efetivamente, da célebre peça de Thelonius Monk.

Charlie Haden, por seu lado, passou a vida a demonstrar que um contrabaixista não precisa de “gritar”, ou de fazer grande espalhafato, para se fazer notar, num instrumento que não está propriamente na primeira linha. Meticuloso, contido, Haden tinha a arte de colocar a nota certa no momento exato, sem que quase nos apercebêssemos dessa naturalidade das coisas, para depois, no “seu” momento, pôr em evidência a sua leitura, sempre melodiosa, sempre serena. Ouça-se, por exemplo, a forma com que aborda a peça de Gondon Jenkins (“Goodbye”), que encerra este disco.

Após três décadas de afastamento, os dois músicos reencontraram-se, em 2007, no estúdio caseiro de Jarrett, para uma sessão de gravação em que recordaram vários temas do cancioneiros americano do século XX. Essa reunião teve um primeiro episódio discográfico, em 2010, com a edição de Jasmine, e, em 2014, saiu este Last Dance, no qual, aliás, podemos ouvir duas versões alternativas de temas do primeiro disco. Quis o destino que este segundo CD tenha vindo a público poucas semanas antes da morte de Haden, o que acabou por o transformar num involuntário testamento (parcial, embora, que a obra do contrabaixista é bem mais vasta e importante, especialmente na liderança de grupos, como a Liberation Music Orchestra).

O resultado é um diálogo intimista, reflexivo, de quem já nada tem a demonstrar e se pode dar ao luxo de pegar nessas velhas canções e as tornar suas. Reconhecemos algumas daquelas linhas melódicas, mas aquelas canções é como se as ouvíssemos pela primeira vez. E que melhor se pode dizer de uma interpretação?

Keith Jarrett / Charlie Haden
“Last Dance”
ECM
4/5

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