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Não há senão melancolia para Maximilian Hecker

Texto: NUNO GALOPIM

Após três anos de silêncio, o baladeiro alemão regressa aos discos com ‘Spellbound Scenes of My Cure’, onde não parece ter vontade de fugir às suas zonas de (des)conforto.

Corre o mito urbano que conta que, por estes dias, o alemão Maximilan Hecker anda mais pelos lados da Ásia que pela Europa que o viu nascer. Apesar de, nos últimos anos a sua obra ter conhecido mais impacte – e chamado a sua presença – aquelas outras paragens do globo, a verdade é que o mais certo (e frequente) é encontrarmo-lo na cidade de Berlim onde há muito vive e respira uma paz que o deixa ter espaço para si mesmo e à sua volta cria o ambiente que necessita para poder compor novas canções.

Descobrimo-lo há 14 anos, com uma promissora estreia em Infinite Love Songs (Kitty-O) belo álbum onde, além de desvendar o trovador melancólico essencialmente acompanhado pela presença de uma guitarra ou um piano, dava conta de um gosto pelo tactear de arranjos mais elaborados, não fechando mesmo as portas à presença das electrónicas (na verdade o melhor instante do disco era mesmo o tema Infinite Love Song, tema pop feito de electrónicas e desencanto, ainda hoje um dos melhores instantes de toda a sua obra). Seguiram-se 11 albuns (um deles ao vivo, um de maquetes e um outro de inéditos). Houve alguns mais momentos de exceção, como o sinfonista Kate Moss com que abria, em 2003, o álbum Rose ou a versão electro de Summerwaste (que dava uma vez mais sinais de um caminho que poderia ter mais frutos por este lado). Mas, com pontual incursão elétrica aqui e uma curva electrónica ali, o grosso da sua discografia não deixou nunca afastar do centro das atenções o baladeiro melancólico (a sua voz, de resto, ajustando-se que nem uma luva às necessidades destas canções).

Agora, após um silêncio de três anos, e numa altura em que mais que nunca alia o trabalho com imagens à escrita, gravação e interpretação de canções, Maximilian Hecker apresenta um novo álbum de originais. Chama-lhe Spellbound Scenes of My Cure e, sem surpresas, pouco mais propõe que um reencontro com formas, modelos e sonoridades já bem familiares entre o corpo da sua obra. Nada contra a manutenção de marcas de continuidade numa carreira. Mas ao cabo de quase 15 anos de discos, e sem uma coleção de composições de calibre maior um novo disco de Maximilian Hecker num mesmo comprimento de onda compromete a arrumação do seu nome entre as promessas de inícios do século que deviam ter ido mais longe. Às vezes jogar sistematicamente numa mesma zona de conforto – mesmo sendo a solidão, os desencontros e desencantos um foco de desconforto – veta à música as vitaminas de desafio que tanta falta fazem para que esta possa, eventualmente, respirar outra vitalidade depois de passado aquele tempo de encantamento que as descobertas costumam proporcionar.

Maximilian Hecker
“Spellbound Senes of My Cure”
Eat to The Beat
2 / 5

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