Um regresso, dez anos depois
Texto: FRANCISCO GONÇALVES SILVA
Em Maio celebra-se o décimo aniversário sobre o momento em que The Woods viu a luz do dia e as Sleater-Kinney se preparavam para seguir diferentes rumos e projectos. 2015 traz-nos agora o regresso de uma das bandas mais carismáticas do final do século XX, com uma atitude mais adulta e responsável, numa música não menos intensa do que a que nos mostraram ao longo dos anos noventa.
Donas de uma identidade influente com ligações aos primórdios do punk feminista americano (ao lado de bandas como Le Tigre, Bratmobile, Bikini Kill ou até mesmo as Hole de Courtney Love), com No Cities to Love, o novo álbum lançado através da editora americana Sub Pop, marcam uma nova abordagem a temas políticos e identitários. Causas que, de resto, se mantiveram sempre presentes e que marcaram todo o percurso desta banda de Olympia, Washington.
Tinham a intenção de primar pela diferença e de tornar o mundo num local tolerante ao que não é normativo. E suficientes provas foram dadas entre 1994 e 2006 através de uma prestigiada e consolidada discografia (que recentemente foi alvo de uma campanha de reedições). O oitavo álbum, agora lançado, é o produto final de um processo de maturação, que ganhou forma durante o hiato e encontrou fulgor na fase criativa de escrita e gravação, sendo assim o primeiro passo para uma nova etapa de relacionamento com os palcos de todo o mundo (que certamente se segue).
Dez faixas (mais duas na edição especial) fazem um corpo coeso que foi preparado em segredo ao longo de um ano. No Cities to Love é um disco que tanto preserva as origens da banda como revela um ponto de vista rockn’n’roll mais actual, tornando-o talvez mais “acessível”, sem abafar todo um conjunto de ideais.
Sem nunca negarem o percurso que as tornaram influentes, Carrie Brownstein, Janet Weiss e Corin Tucker procuraram, no entanto, polir a sonoridade rompante que antes marcara a sua música. A essência do som das Sleater-Kinney persiste mesmo assim em canções como, por exemplo, Price Tag, flagrante hino de ódio ao capitalismo. Bury Our Friends questiona normas e rotinas da vida em sociedade. Em No Anthem ou Surface Envy exploram questões de identidade e afirmação no feminino.
Sente-se a confiança, a vontade de criar mais e melhor e principalmente uma amizade que nunca desapareceu e que ainda une e mantém as Sleater-Kinney activas. Contas feitas aqui floresce num exemplar álbum de rock que pode dar a conhecer às novas gerações memórias de uma época feita de outras experiências, de erros e confusões, de lutas convictas e desenfreadas contra o social e politicamente correcto, ou mesmo contra a desigualdade de género. Tudo isto sem desiludir os mais velhos entusiastas. Claramente, não ficam por aqui.
Sleater-Kinney
“No Cities to Love”
Sub Pop / Popstock
( 4 / 5 )

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