Jibóia: “A ideia é ter várias peles, como a cobra”
Texto: NUNO GALOPIM
Com o tempo sempre dividido entre o trabalho por várias bandas, Óscar Silva fez do seu projeto Jibóia um dos episódios que valeu a pena assinalar entre o mapa da música que foi emergindo por estes lados em 2014. Depois de um primeiro EP em 2013 lançou Badlav em finais do ano passado, pela Lovers & Lolipops. Por ali passam sons de outras latitudes e longitudes, escapando aos caminhos mais habituais por estas bandas.
À memória deste tipo de demandas podemos convocar as experiências de diálogo com outras músicas – sem procurar rótulos world music, mantendo assim a coisa mais perto de vivências com escola feita entre espaços pop/rock alternativos e afins – como as que os alemães Dissidenten procuravam rumo a heranças magrebinas em álbuns como Sahara Electric (1984) ou Life At The Pyramids (1987), cruzando geografias, vivências e linguagens distintas das mais habituais no seu local de berço (eram berlinenses). Uma atitude diferente, portanto, de expressões de herança genética (e cultural) mais próximas desses espaços visitados, como as que nomes como os Joi ou Talvin Singh (ambos de ascendência indiana ou paquistanesa, mas com vida feita em Londres) projetaram nos anos 90 rumo a uma curiosidade pelas músicas do espaço cultural indiano. Estamos também muito longe das tonalidades de um exotismo loja dos 300 que, ao longo dos anos, fizeram tantos projetos ocidentais procurar temperos em outras paragens, mas para pouco mais que um efeito de papel de parede. Em Jibóia, respiram-se sabores de sons que chegam de longe. Mas há uma alma indie atual, que gosta de transgredir fronteiras, a gerir os diálogos e encontros.
Jibóia é um espaço de liberdade. E, com o tempo, como alerta o seu timoneiro, de eventual surpresa. Depois da atuação entre o vasto cartaz Boiler Room, esta semana volta a atuar em Lisboa. Vai ser amanhã, no Lux, com Riding Pânico (que vão apresentar o clássico Autobahn, dos Kraftwerk) e Pista, além de uma série de DJs. Sábado estará no Maus Hábitos, no Porto. E por isso falámos com ele…
Dividiste o trabalho já por várias bandas. É Jibóia o projeto onde te vais fixar?
Tenho e continuo a ter! Neste momento menos do que há uns anos atrás, é verdade. Mas em termos de projetos, há tantos com Jibóia, que é quase como Jibóia fosse mais uma data de bandas diferentes. Por isso, o fixar é difícil, mas a par de Papaya, Jibóia é o projecto onde tenho mexido mais ultimamente.
Há regras ou um conjunto de ideias a definir o que é o som de Jibóia?
Nenhumas. Aliás, foi um bocado por aí que isto começou. A ideia é poder ter a cobra tanto a tocar ao fim da tarde um set acústico num auditório, como às 5.00 da manhã uma cena dançante numa discoteca. É óbvio que as ideias depois convergem, e sem pensar muito nisso acabas por te mover mais num meio do que noutro, mas a ideia é que o projeto tenha “várias peles, como a cobra”, passo o cliché…
O disco lançado no ano passado define um espaço de entusiasmos por músicas de raiz noutras paragens do mundo. Como chegaste a essas referências?
Comecei há uns tempos a descobrir uma data de discos – primeiro as compilações, depois os próprios discos um bocado mais a fundo – que até aí não conhecia. Principalmente em termos de ritmo. Um ritmo diferente. Sempre toquei em bandas rock, e quando comecei a descobrir mais estes sons comecei-me a embrenhar neles, a tentar perceber o que faz com que, quando ouves uma banda do Gana de 1970, a sonoridade te leve logo para essa ambiência, para esse postal. É um bocado o que tenho feito, ir atrás desses entusiasmos.
O universo Bollywood tem algo a ver com tudo isto, ou as procuras foram mais além?
Mais além, mas passando por aí. O início da viagem foi ali na Síria, ao ouvir o Omar Souleyman, que me despertou para uma cena mesmo bruta, ao mesmo tempo hipnótica, estranha, que me agarrou a esse desconhecido. Daí que depois me tenha conotado um bocado mais com a marca do médio oriente do que o resto das influências. Com a Ana Miró, e principalmente neste disco, descemos um bocado mais, à Índia, porque andávamos entusiasmados com aquelas vozes femininas. Acho que o Bollywood apareceu aí.
O caminho futuro do projeto fica condicionado pelo que o disco sugeriu ou a música tem liberdade para ir por outras direções?
Total liberdade. Foi da descoberta que nasceu o projeto e é a baseado nela que ele continua a existir. Por isso não me vou surpreender se daqui a uns anos estiver a tocar forró ou cumbia.
Vês Jibóia mais como um projeto pessoal que possa contar com colaboradores que uma banda no sentido clássico da ideia de corpo coletivo fixo?
Sim, Jibóia foi criado também a pensar nisso. Sei que quero ter controlo no que faço mas é muito mais prazeroso fazê-lo acompanhado do que sozinho. Em palco é fácil, tens o público (e por vezes a Miró), não estás sozinho. Na sala de ensaios há divertimento sozinho também, mas quando acrescentas uma pessoa ou um jantar ao projeto, torna-se diferente e bom.
Porque tratas o projeto como “a cobra”? Há uma separação clara entre o músico/obra e o Óscar que vive depois o seu dia-a-dia?
Sim, claro. Eu não sou “indiano”, nem uso turbante, nem tenho descendência nenhuma de nenhuma das influências mais presentes na cobra… A cobra é o meu laboratório, ou alter-ego, se preferires, para poder desvendar isso à vontade, sem pressões nem fronteiras.
É a música ou o movimento o segredo dos encantadores de serpentes?
Eu acho que são os dois….
Tens alguma história pessoal que envolva cobras?
Nenhuma história… Só as que surgem no videoclip da Dvapara Yuga. Mas só lhes senti as escamas depois, dos restos que deixaram em cima do meu material, por onde passearam. Estar ao pé delas? Deixei isso para o Miguel e a Joana, que fizeram o video. Eu…estava a trabalhar, com muito trabalho, não consegui ir lá… cof cof…

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