O triunfo da vontade
Texto: NUNO CARVALHO
The Fountainhead (1949), de King Vidor, conheceu em português o título de Vontade Indómita. Na verdade, essa expressão refere-se à vontade intransigente do protagonista, Howard Roark (Gary Cooper), um arquiteto visionário e com uma integridade artística da qual não abdica em troco de nada (ou seja, nunca vende a alma ao diabo, por mais que os diabos que encontra pela frente lhe tornem a vida um inferno e lhe façam ver que quem insiste em ter ética e ser fiel aos seus princípios passa fome). A sua vontade está sempre em conflito com uma sociedade composta na sua esmagadora maioria por almas mortas – isto é, gente que se rendeu ao conformismo e formatação de um código moral e social que manda aplainar as naturais e saudáveis sinuosidades da individualidade a favor de uma planura e uniformidade de personalidade, e que julgou descobrir na ideologia igualitária que defende que todos os pregos devem ser bem martelados para que jamais algum deles sobressaia uma fonte de justiça e consolo, quando na verdade fez medrar a morte nos espíritos de homens que são únicos e irrepetíveis, e que como tal devem viver, ao persuadi-los a trocarem a sua identidade original por uma matriz cunhada na linha de montagem.
O horror do nosso tempo é o homem-massa, clonado em série e colonizado por ideias medianas e homogéneas que formam uma mentalidade que abdica da complexa idiossincrasia do humano (um lugar nunca fácil de habitar) para se entregar nos braços da banalidade, do lugar-comum e da abnegação cobarde que, sendo sempre um falso altruísmo, quer passar por virtude espiritual. Como dizia Ortega y Gasset, “já não há protagonistas, só coro”.
Mas em The Fountainhead há um protagonista, alguém com um timbre de voz que se destaca do coro. Howard Roark é esse homem, e ele não está disposto a deixar secar a fonte da sua criatividade submetendo-se à “inevitabilidade” de projetar edifícios segundo os padrões de gosto apreciados pela multidão. Nem mesmo depois de ser expulso da escola de arquitetura, por se recusar a aprender e insistir em considerar apenas os seus critérios, ou de o prestigiado velho arquiteto que o contrata, desesperado e amargurado, lhe pedir para “ceder” e para se render, sob pena de ir a caminho do inferno. É claro que o inferno que Roark está disposto a enfrentar para não se trair a si próprio não é de natureza religiosa, mas tão-só o de contemplar a hipótese de morrer de fome se mantiver as suas ideias. Contudo, Roark, sendo um espírito idealista, não é um idealista ingénuo ou romântico – bem pelo contrário, o seu idealismo é duro como o aço, ele está disposto a tudo para preservar a sua vontade (a sua insubmissão é volitiva, ele quer que os seletivos projetos que for capaz de concretizar e ver aprovados, e não abertos a modificações feitas por outros, sejam a expressão em pedra de uma determinação e obstinação que não vergam, quebram ou vacilam, sendo afinal símbolos fálicos de um vitalismo que não se deixa domesticar, narcotizar ou mesmo zombificar). E é por isso que, quando nenhum cliente aceita as suas condições (no fundo, a condição de poder trabalhar em liberdade criativa), opta por se ir embora de Nova Iorque e se entregar ao trabalho braçal numa pedreira de granito. Porém, o destino reservar-lhe-á a partir daí ainda muitas surpresas (e nada trágicas, porque se, por um lado, ele está disposto a pagar o elevado preço da independência, por outro, esse preço há de pagar algum bem…)
É claro que há outras personagens em The Fountainhead para além de Howard Roark. Por exemplo, Dominique Francon (Patricia Neal), a filha de um famoso arquiteto, dono da pedreira, que se apaixona por Howard ainda sem saber que ele é quem é. Uma mulher que com ele partilha o amor da liberdade (que define como liberdade “para não querer nada, nem esperar nada, nem depender de nada”, ou seja, libertação da escravidão do desejo, de resto um conceito muito budista). Mais tarde, quando Roark volta à ribalta, reencontram-se na inauguração de um edifício por ele desenhado, e Francon, que é crítica de arquitetura no Banner, um tabloide de grande circulação, demite-se da sua função em solidariedade com Roark e em protesto pelo ataque que lhe é feito por Ellsworth Toohey, o crítico conservador e demagogo que representa o sistema que não suporta a grandeza, a nobreza e o valor de homens como Howard Roark. Ela teme o que o mundo possa fazer-lhe. “Pensas que Enright House [o novo arranha-céus] é o teu começo? É a tua sentença de morte. Algum outro cliente te procurou? Não virão. Odeiam-te pela grandeza da tua realização. Odeiam-te pela tua integridade. Odeiam-te porque sabem que não podem corromper-te, nem dominar-te. Não te deixarão sobreviver. Roark, eles vão destruir-te”, adverte-o Francon. O problema de Roark, para Dominique, é ser “demasiado bom”. E demasiado bom para um “mundo em que não cabem a beleza e a genialidade. O mundo das massas e do Banner”. Um mundo em que cada homem se submete aos padrões da maioria. E Howard Roark está decidido a estabelecer os seus próprios padrões.
No entanto, quando Roark é levado a tribunal por haver dinamitado um complexo de apartamentos que desenhara para um colega e amigo, e que permitira que este assinasse sob a condição de não fazer nenhuma alteração no projeto, ganha o apoio de Gail Wynand (Raymond Massey), o dono do Banner, que ao tomar essa posição “elitista” arruina as audiências do jornal (porque, pela primeira vez, não dá à massa de leitores a “junk food” que estão habituados a consumir, mas um maná de verdade). Em defesa de Roark, Wynand escreve: “Autossacrifício? Mas é precisamente a sua essência que não pode e não deve ser sacrificada. A essência de um homem é o seu espírito. É o não sacrifício da sua essência que devemos respeitar acima de tudo. E onde a encontramos? Num homem como Howard Roark.”
O filme é baseado no romance homónimo de 1943 de Ayn Rand (1905-1982). Também autora do argumento, Rand, uma escritora e filósofa russo-americana defensora do modelo do capitalismo laissez-faire (o sistema que, na sua ótica, reconhecia os direitos individuais), ter-se-á inspirado parcialmente no seu “herói” Frank Lloyd Wright para esculpir a personagem de Roark. Inicialmente rejeitado por diversas editoras, o livro tornar-se-ia um best-seller, vendendo milhões de exemplares e influenciando filósofos, psicólogos, empresários e até um futuro presidente do conselho de administração da Reserva Federal. Tal como o livro, um romance de ideias, o filme, que possui uma estética bastante expressionista (o que condiz bem com a sua essência, na medida em que os expressionistas estavam interessados não no que viam, mas nas suas visões pessoais), utiliza as personagens como arquétipos ideais e corporizações de princípios, da mesma forma que imprime aos diálogos um recorte não naturalista e artificioso que serve também na perfeição o edifício estético e ético de Rand e de Vidor. Na floresta do alheamento das massas, Howard Roark é a árvore que se destaca e que cresce acima das outras. Está só e é dificilmente alcançável, mas pode e tem o dever de ver mais longe do que as outras.
The Fountainhead (1949)
Realização: King Vidor
Elenco: Gary Cooper, Patricia Neal, Raymond Massey
DVD Mon Inter Comerz, com legendas em português (disponível na Fnac)
( 5 / 5 )

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