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A rainha imortal da cidade escondida nos gelos

Texto: EURICO DE BARROS

Adaptado do livro de H. Rider Haggard, autor de As Minas de Salomão, She-A Luz da Imortalidade, produzido em 1935 por Merian C. Cooper, um dos realizadores de King Kong, está em DVD na versão original e preto e branco e noutra a cores, com supervisão de Ray Harryhausen. Um filme que quase se perdeu

Devemos a Buster Keaton o facto de She – A Luz da Imortalidade não ter desparecido para sempre. O realizador e actor tinha guardada na sua garagem uma cópia deste filme de 1935, então considerado perdido, realizado por Lansing C. Holden e Irving Pichel, e produzido por Merian C. Cooper, um dos realizadores de King Kong. Keaton deu-a ao coleccionador Raymond Rohauer, que procedeu ao seu restauro.
Baseado no livro homónimo de 1887 de H. Rider Haggard, o autor de As Minas de Salomão, que Eça de Queirós traduziu e melhorou, e intitulado A Deusa do Fogo quando se estreou em Portugal, faz agora 80 anos, o filme foi rodado na sequência do imenso sucesso de King Kong, de Cooper e Ernest B. Schoedsack e está agora em DVD, numa edição remasterizada que contém a versão original e preto e branco, e outra colorizada, sob a supervisão do grande Ray Harryhausen, como homenagem a Merian C. Cooper.

Sucede que She era para ter sido rodado a cores, mas à última da hora, a RKO cortou no orçamento do filme e Cooper teve que optar pelo preto e branco (a sua mulher, Ruth Rose, escreveu o argumento, com Dudley Nichols). Há por isso, uma justificação forte para esta versão a cores. De lamentar que a presente edição não inclua os extras originais, onde, entre outras coisas, Ray Harryhausen fala sobre a fita e descreve o seu restauro e colorização. Esta é a primeira de várias adaptações ao cinema do livro de Haggard (os mais cinéfilos recordar-se-ão decerto da de 1965, produzida pela Hammer, com Ursula Andress, Christopher Lee e Peter Cushing) e pertence a um género hoje praticamente extinto, o filme de aventuras exóticas.

Em vez de situar a acção em África como no livro, Cooper mudou-a para a imensidão do Árctico russo, para onde ruma uma dupla de aventureiros, Leo Vincey e Horace Holly (Randolph Scott e Nigel Bruce), em busca de uma cidade perdida nos gelos governada por uma rainha aparentemente imortal, que deve esta condição a uma lendária “chama mística”, e que, 500 anos antes, um antepassado de Vincey terá visitado e depois desaparecido misteriosamente.

Acompanhados pela filha do seu guia, que morre numa avalanche, Vincey e Holly descobrem a cidade perdida de Kor, a sua sociedade e a rainha, conhecida por She (ou “Aquela-que-Deve-ser-Obedecida”), interpretada pela actriz da Broadway e cantora de ópera Helen Gahagan. O considerável fracasso comercial do filme ditou que a sua estadia no cinema se ficasse por aqui e Gahagan optou por uma carreira mais prosaica na política, tendo sido eleita para o Congresso pela Califórnia por duas vezes nos anos 40.

She – A Luz da Imortalidade é bem uma grande produção escapista da sua era, quando a Depressão ainda fazia sentir os seus efeitos nos EUA e as pessoas viravam-se para o cinema para fugirem da realidade difícil e feia. O filme tem o seu lado datado (interpretações um pouco afectadas, diálogos que rangem aqui e ali), mas as qualidades superam alguns estragos feitos pelo tempo. Sobretudo o amplo fôlego aventuroso, com ambientes longínquos e mortíferos, uma civilização sofisticada e cruel oculta num glaciar, os elementos fantásticos da rainha imortal e do fogo mágico, a elaborada visualização do reino de Kor, cortesia da direcção artística do veterano Van Nest Polglase, que se foi inspirar à Art Déco, a tribo antropófoga que o trio de protagonistas enfrenta, e várias e saborosas personagens-tipo, a começar pelo par de heróis, o destemido aventureiro e o característico cientista british de contornos cómicos. E, claro está, a figura da rainha, tragicamente romântica e friamente impiedosa, cuja primeira aparição, no alto de uma imponente escadaria, de rosto velado e envolta em fumo, é um dos grandes momentos do cinema de aventuras. Basta dizer que Walt Disney, fã militante do filme, se inspirou nela para criar a sua Rainha Má de Branca de Neve e os Sete Anões.

Injustamente, She – A Luz da Imortalidade surge nalgumas listas de Piores Filmes de Sempre. Não merece lá estar nem por sombras. E a prová-lo, o facto da sua versão colorizada sob supervisão de Ray Harryhausen ter sido triunfalmente exibida em estreia na ComicCon de 2006. A rainha imortal da cidade escondida nos gelos continua a exercer o seu poder sobrenatural sobre nós, humildes cinéfilos do século XXI. E pensar que esteve anos a fio esquecida na garagem de Buster Keaton.

She – A Luz da Imortalidade / She (1935)
Realização: Lansing C. Holden e Irving Pichel
Elenco: Randolph Scott, Nigel Bruce, Helen Gahagan, Helen Mack, Julius Adler
DVD Unimundos
(3/5)

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