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A política (e os media) como as coisas são

Texto: JOÃO MORGADO FERNANDES

“Borgen” é uma série dinamarquesa sobre os bastidores da política e da sua relação com os media. Tão realista que daria para fazer um manual

O que nos prende a House of Cards é aquela vertigem permanente para o abismo. Por exemplo, um futuro vice-presidente dos EUA que atira, literalmente, uma jornalista para a frente de uma carruagem de metro… Na série mais premiada da atualidade sobre os meandros da política e dos media, ganha sempre a ficção.

Com “Borgen” é exatamente o contrário. Continuamos nesse território fascinante que cruza as sombras da política com a luz dos media, mas aqui a ficção serve apenas de veículo para nos mostrar “a realidade”. Ou seja, onde House of Cards é hipérbole, Borgen é quase documentário.

Cada episódio abre com uma epígrafe (como se calcula, Maquiavel é autor quase residente) e toda a trama dos 50 minutos se organiza em torno dessa ideia. Cada episódio acaba por se tornar, dessa forma, numa exposição prática de uma teoria acerca do funcionamento da política e/ou dos media. Daí que os aspirantes à vida política, a jornalistas ou a spin doctors (a expressão eleita pela série para os especialistas em Comunicação) muito ganharão em ir tomando notas – no final, ficam na posse de um autêntico manual dessas matérias.
A série toma o título ao Castelo (ou Cidadela) onde, em Copenhaga, funcionam o governo, o parlamento e o supremo tribunal e – garante quem conhece a política dinamarquesa – algumas semelhanças com a realidade daquele país não são mera coincidência.

A trama organiza-se em torno de quatro polos: um governo de coligação, o que permite pôr em cena todo o tipo de crises e negociações e demonstrar que na política o maior inimigo é, frequentemente, o parceiro; uma mulher na liderança do governo, pondo em evidência as tensões domésticas derivadas da vida política; um assessor de imprensa que tem uma relação amorosa conturbada com uma jornalista e que, como se imagina, nem sempre consegue (ou quer) distinguir os vários planos da sua vida; e, finalmente, um líder partidário derrotado que toma a direção de um jornal e torna demasiado evidentes os focos de promiscuidade entre as duas atividades.

Produzida pela televisão pública, Borgen utiliza uma linguagem estritamente televisiva, seja na realização seja na interpretação, o que a aproxima mais de séries clássicas sobre o tema, como West Wing (Os Homens do Presidente), do que das incursões mais recentes, como House of Cards ou mesmo Scandal, mais exuberantes e próximas do cinema.

Paradoxalmente, apesar de Maquiavel ser vastamente citado, a série transmite uma visão bem pouco maquiavélica da política. Há, sim, muitas manobras de bastidores, mas todas elas visando, em última instância, o bem comum. Essa não é a linha dominante na ficção contemporânea sobre o tema e, dirão os mais cínicos (ou realistas, dependendo do ponto de vista), não é também a linha dominante na vida real.

“Borgen” passa, de segunda a sexta, às 22 horas, na RTP2.

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