Um reencontro com Drácula
Texto: NUNO GALOPIM
Não era a primeira vez que o estranho conde que vivia num castelo remoto nos Montes Cárpatos chegava ao cinema. Criado por Bram Stoker em 1897, e inspirado na figura remota (mas real) de Vlad Tsepes, um governante da região no século XV que ficou sobretudo lembrado pela forma violenta com que castigava os seus inimigos, Drácula tivera uma primeira vida no cinema através de uma abordagem que, por não ter sido oficialmente autorizada, tentou usar um outro nome para se mostrar. Estreado em 1922 Nosferatu, de F.W. Murnau não era senão uma visão possível dessa figura estranha, quase imortal, que habitava apenas os espaços da noite e se alimentava de sangue… Os herdeiros de Bram Stoker contudo agiram legalmente e, apenas por sorte, o filme escapou a uma ordem que visiva a sua destruição. Sobreviveu e hoje é um dos mais aclamados clássicos do cinema mudo e uma peça determinante na génese de um cinema de “terror”…
O passo seguinte – tanto na representação dos vampiros no grande ecrã como na definição de um cinema de terror – chegou com uma primeira adaptação oficial do livro produzida pelos estúdios da Universal e que, dado o impacte que obteve, lançou uma sucessão de outros filmes com “monstros” e alguns outros com a própria figura de Drácula, abrindo uma porta que não mais se fechou. Com Todd Browning na realização, o Dracula de 1931 tem o livro de Bram Stoker como ponto de partida, embora tome diversas liberdades narrativas (o argumento junta por exemplo as personagens de Jonathan Harker e Renfield numa mesma pessoa). Muito do impacte do filme se deve contudo à forma como o protagonista Bela Lugosi vestiu a pele do Conde Drácula, lançando mesmo um look e um sotaque que definiram um paradigma. O ritmo da ação e montagem (menos lento que o habitual no seu tempo), uma art direction capaz de sugerir o medo entre castelos em ruínas e caves de abadias e uma direção de fotografia que explora brilhantemente os escuros e sombras contribuíram para fazer deste um episódio influente e capaz de sobreviver à passagem dos tempos.
Nos anos 90, ao projetar uma revitalização do seu arquivo de filmes de “monstros”, a Universal desafiou Philip Glass a criar uma nova banda sonora para o filme de Tod Browning. Composta para quarteto de cordas e interpretada pelo Kronos Quartet, a nova abordagem musical de Glass encontrou sentido ao recuperar o subtexto romântico presente no livro de Bram Stoker, transportando para imagens dos anos 30 e ecos de uma narrativa do século XIX a força da saudade de um amor antigo que habita a alma do protagonista (e que mais tarde Coppola exploraria a fundo na sua adaptação a cinema da mesma matéria prima narrativa).
Esta nova edição em DVD junta pela primeira vez num lançamento português a banda sonora alternativa de Philip Glass como um dos menus de extras. E surge numa mesma altura em que é lançado o livro Tod Browning’s Dracula, de Gary D. Rhodes (Tomahawk Press) que recorda a criação de Dracula e explora a importância histórica do filme, confrontando-o com o que era o mundo do cinema seu contemporâneo.
‘Dracula’ foi editado em DVD pela Universal

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