Julianne Moore ao poder!
Texto: JOÃO LOPES
É um facto que, nos últimos anos, a proliferação de aventuras de super-heróis (“melhores” ou “piores”, não é isso que está em causa) tem favorecido uma visão simplista do cinema americano como uma fábrica de efeitos especiais… Infelizmente para todos nós, essa visão é, por vezes, sustentada pelas formas mais primárias, ou apenas mais preguiçosas, de jornalismo.
Se há virtude que podemos reconhecer na temporada de Oscars de 2015 é a de envolver diversos títulos que nos levam a repensar — e, sobretudo, a revalorizar — aquele elemento peculiar, humano por definição, que está para além de qualquer efeito especial. A saber: o actor, a actriz.
E se mais exemplos não houvesse para celebrarmos o poder inerente a um prodigioso trabalho de interpretação, a composição de Julianne Moore em O Meu Nome É Alice bastaria. Aqui está a actriz de coisas tão admiráveis como Jogos de Prazer (Paul Thomas Anderson, 1997), O Fim da Aventura (Neil Jordan, 1999) ou Longe do Paraíso (Todd Haynes, 2002), excedendo-se, se tal é possível, na criação da personagem de uma mulher a quem, ao chegar à barreira dos 50 anos, são diagnosticados sinais prematuros da doença de Alzheimer.
Dizer que estamos perante a representação de um perturbante “caso-de-vida”, eis o que correria o risco de não fazer justiça à complexidade humana de O Meu Nome É Alice. De facto, a realização de Richard Glatzer e Wash Westmoreland (dupla ligada às paisagens da produção independente) está muito para lá de qualquer dramatismo determinista, típico de telefilme, sabendo colocar em cena dois factores tão específicos quanto interdependentes: por um lado, acompanhamos as vivências mais interiores da personagem de Alice, num processo cruel em que vai perdendo a própria faculdade de discernir o que tem à frente dos seus olhos; por outro lado, nada nesse processo é banalmente abstracto ou simbólico, uma vez que somos também levados a compreender a sua inserção numa complexa teia de factores familiares, profissionais e sociais.
Daí que seja importante não isolar Julianne Moore na abordagem do filme, valorizando igualmente o trabalho do restante elenco, com destaque para Alec Baldwin (no papel do marido), Kristen Stewart e Kate Bosworth (as duas filhas). Estamos, afinal, perante um cinema pensado, escrito e construído a partir de um factor fundamental: o primado dos actores. Quer isto dizer que a herança de autores como Nicholas Ray ou Elia Kazan não está perdida.
O Meu Nome é Alice (Still Alice)
de Richard Glatzer e Wash Westmoreland
com: Julianne Moore, Alec Baldwin e Kirsten Stewart
Distribuição: Big Picture

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