Sérgio Tréfaut: “Fiz questão de referir a importância do silêncio dos alentejanos”
Entrevista por NUNO GALOPIM
A chegada do filme numa altura em que a UNESCO avaliou (e aprovou) a candidatura do Cante Alentejano a património imaterial da humanidade foi uma coincidência?
Não, o filme nasceu de um convite simultâneo da Câmara Municipal de Serpa, que englobava a realização do filme de 10 minutos integrante da candidatura do Cante Alentejano a património imaterial da humanidade e uma longa metragem, que veio a ser Alentejo, Alentejo.
A vivência familiar com o Alentejo e a sua cultura – da música à gastronomia – foi uma primeira porta para pensar o filme ou houve, antes, vontade de procurar o desconhecido?
A minha intimidade com o Alentejo data da adolescência, a sensibilidade e admiração pelo Cante Alentejano existiam desde há muito.
Como se faz o trabalho de campo para rodar um filme como este?
Li o que pude ler, vi o que era possível ver em arquivos, falei com especialistas, etnomusicólogos, antropólogos, cantores e ensaiadores em várias localidades. Fui gradualmente mergulhando num universo que é muito mais vasto do que parece. O filme está longe de abarcar essa vastidão. Quando comecei a rodar existiam centena e meia de grupos. Hoje é possível que existam perto de duzentos.
Parte-se com a câmara e capta-se o que se vai vendo?
Isso pode acontecer numa fase de pesquisa. Mas rapidamente percebe-se que as actuações públicas dos grupos não são boas situações para se filmar. Basta ver o que se encontra na internet. São registos. Há microfones no palco, público barulhento, é difícil colocação e movimentação da câmara. Mesmo nas tabernas onde o cante é espontâneo, dá-se frequentemente o caso da luz ser má. Assim, acabei por compreender que captaria melhor som e melhores imagens em situações preparadas. Ora pré-iluminava espaços onde sabia que ia acontecer algo, ora levava flanelas para isolar os cantores no espaço onde ensaiavam. Claro que nas filmagens diurnas, é tudo um pouco mais simples.
Houve uma etapa de contactos antes da claquete surgir em cena?
Existiu uma relação de proximidade, de confiança, por vezes de amizade que se foi criando pouco a pouco com os grupos e com os cantores. Naturalmente, filmei muito mais do que o que aparece no filme. Almocei, jantei, passei horas nas tabernas, fui conversando muito com todos os que me abriam a porta.
O cante é aqui o centro das atenções. Mas o filme procura também um olhar sobre as gentes do Alentejo, os seus espaços de vida, os sabores, as conversas… É uma forma de dizer que a música é expressão daquelas vivências?
Eu queria que o filme fosse um retrato de uma região, do modo de estar das pessoas. Fiz até questão que, sendo um filme centrado no canto, fosse referida a importância do silêncio dos alentejanos. Queria que os alentejanos encontrassem no filme uma espécie de bandeira e que a linha narrativa alternasse o cantar e o contar – sendo que há sempre música no sotaque do contar.
Como sentiste a relação das novas gerações de alentejanos com o cante e a própria relação desta canção com os tempos modernos?
Tive o privilégio de presenciar o momento preciso em que se deu uma marcada alteração de comportamentos. Quando iniciei a preparação e as filmagens, senti o peso do luto, o receio dos interpretes de virem a ser quase os últimos guardiões de uma tradição ameaçada. Apesar de em alguns municípios se ensinar o Cante nas escolas primárias, falava-se muito do envelhecimento dos grupos, da dificuldade de atrair jovens. Mas a partir do momento em que surgiram os Bubedanas, em Beja, e que foi se solidificando o apoio à Candidatura à UNESCO, um sem fim de novos grupos de adolescentes começou a aparecer. O Cante voltou a ser moda e razão de orgulho.
A aprovação pela UNESCO teve / terá consequências?
Creio que agora os grupos são mais solicitados para actuações. Têm surgido muitos grupos novos. O orgulho sente-se na pele e no olhar dos cantadores. Mas ainda é cedo para perceber os verdadeiros resultados. Há sempre o perigo de uma recuperação institucional. Na minha opinião, seria interessante que o cante seguisse mais no caminho das actuações informais ou conviviais do que se institucionalizasse nos grandes palcos sob forma de espectáculo onde às vezes parece que estamos a reviver celebrações do Estado Novo. Confesso que tive calafrios na espinha quando em janeiro passado vi no CCB um grupo de fabulosos cantadores entoarem o hino nacional a olhar directamente para a figura de Cavaco Silva – que muitos deles desprezam. Foi para mim um acto de submissão inesperado e a maneira mais fúnebre de iniciar uma comemoração oficial da elevação do Cante a património imaterial da humanidade. Puro Estado Novo.
Era intenção original fazer acompanhar o filme pela edição de um disco? Talvez desde uma edição pela EMI do Grupo de Pias não havia um lançamento, com esta dimensão, de cante alentejano…
A ideia do CD veio muito mais tarde e foi até estimulada por uma crítica muito elogiosa à captação de som do filme publicada no Hollywood Reporter.
O disco é como que uma antologia das vozes atuais de uma expressão antiga. Como chegaste a estes grupos e vozes? As gravações são “de campo”? São as mesmas que ouvimos no filme?
O CD reúne a maioria das cenas do filme e acrescenta outros temas filmados e captados por nós, mas que não foi possível incluir na montagem do filme. Todas as gravações de som são feitas durante as filmagens e incluem uma naturalidade que não é a das gravações em estúdio. Também deixámos pequenas frases, comentários, enganos – que parecem dar mais vida. No entanto a masterização sonora do CD é diferente do mix do filme por os parâmetros de escuta serem outros. Além disso, este disco apresenta uma diversidade muito rica de cores de voz, de estilos, de grupos (masculinos, femininos, mistos), havendo varios cantos individuais também. Não é habitual encontrar tudo isto reunido num único CD.
Pode o “Alentejo,Alentejo” ser um porta voz local e internacional para uma redescoberta de uma música portuguesa que andava algo arredada das atenções?
Seria muito bom que o Cante Alentejano pudesse vir a ter, para além do reconhecimento da UNESCO, uma presença assídua em palcos internacionais, tal como têm, por exemplo, as Vozes Búlgaras.
As diásporas têm sido uma presença em vários filmes. É uma temática a continuar a explorar?
Mais do que a diáspora, é o sentimento de exílio que me acompanha ao longo da vida. E por isso me comovem pessoas que cantam o seu amor à terra – sobretudo quando são pessoas que não possuem terra nenhuma.

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