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Algo estranho está a acontecer a nordeste…

Texto: NUNO GALOPIM

Criado inicialmente como projeto de ficção para a televisão, ‘O Pequeno Quinquin’, do realizador francês Bruno Dumond, chega agora às nossas salas de cinema.

Para simplificar as coisas, embora dadas as devidas (e grandes) diferenças, podia chamar-lhe uma espécie de versão nordeste francesa de Twin Peaks. E há de facto algo em comum entre a mítica série que David Lynch criou na viragem dos oitentas para os noventas – e da qual em breve teremos uma terceira época – e este Pequeno Quinquin que Bruno Dumont criou originalmente para a televisão e que, entre nós, depois da antestreia em grande ecrã na edição do ano passado do Lisbon & Estoril Film Festival, chega agora às salas de cinema. Se o formato televisivo é um ponto de partida e a arrumação da narrativa – continuada – se faz ao longo de episódios que não deixam de ter a sua personalidade própria, em Pt’it Quinquin há também um assassinato como ponto de partida e um detetive com a missão de o investigar a tomar o lugar de protagonista… Mas daí em diante, nada podia ser mais diferente…

Bruno Dumont, autor dos magníficos La Vie de Jésus (1997) e L’Humanité (1999) e de quem as nossas salas viram, nos últimos anos, filmes como Hadewijch (2009) ou Camille Claudel 1915 (2013) resolve aqui calar aqueles que gostam de aplicar rótulos desnecessários – e houve um com que o seu cinema foi sovado, o do chamado “novo extremismo francês” – e faz um filme onde, pela primeira vez na sua obra, o humor irrompe e domina tudo e todos. A narrativa não é coisa ligeira, diga-se antes de tudo mais. A história começa quando um grupo de miúdos, entre os quais o pequeno Quinquin, vê um helicóptero a tirar, de um bunker junto à praia, uma vaca. Dentro da vaca há um corpo mutilado de uma mulher assassinada. É o primeiro de uma série de assassinatos que assolam uma pacata povoação no nordeste francês, um a um desaparecendo com fins trágicos os eventuais suspeitos… Sucessão que deixará, cada vez mais perplexo e perdido o inspetor local a quem é confiada a investigação (uma figura nos antípodas do agente Cooper criado por Kyle McLachlan, vale a pena sublinhar).

Situações bizarras, mesmo desconcertantes, em momentos de funerais, quando achados novos corpos ou durante festas de aldeia, servem momentos de uma narrativa extensa, mas bem alinhavada, que não esconde o sarcasmo com que retrata jornalistas, os concursos de talentos televisivos ou a xenofobia que distingue pela crença religiosa. À narrativa – a alma da série (agora filme) – junta-se um elenco que tem como primeira característica o facto de ser essencialmente feito de não-atores (e todos eles da região) e, depois, de quase não haver quem não tenha uma característica fisionómica bizarra… Este elenco serve depois a criação de um corpo de personagens, algumas recorrentes ao longo dos quatro episódios, a todas elas o filme dando espaço para que se moldem e ganhem espessura e materialidade.

Com uma segunda época já encomendada – notícia que foi avançada pelo próprio Bruno Dumont num Q&A em Lisboa, durante o festival que apresentou entre nós o filme pela primeira vez – O Pequeno Quinquin é assim mais um belíssimo exemplo de como a ficção televisiva está a representar um dos mais estimulantes focos de criação até mesmo para quem faz cinema. Aqui, de resto, cabendo à opção de o mostrar em sala a confirmação de como é mesmo cinema aquilo que muitos realizadores estão agora a fazer em televisão.

‘O Pequeno Quinquin’
Realização: Brundo Dumont
Com: Bernard Pruvost, Alane Delhaye e Lucy Caron
Distribuição: Leopardo Filmes

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