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O novo filme de Malick e outras histórias de Berlim

Texto: NUNO GALOPIM, em Berlim

A estreia mundial do magnífico ‘Knight of Cups’ de Terrence Malick é um dos episódios da edição 2015 da Berlinale que aqui deixamos em revista.

Christian Bale e Natalie Portman em "Knight of Cups"

Dia 6 – ‘I Am Michael’, de Justin Kelly

Há um tempo que em História se costuma deixar respirar entre o decorrer dos factos e a construção de um discurso que os tente não apenas descrever, mas interpretar. Cinema e história são realidades diferentes e não tem um de usar as éticas e métodos do outro. Mas ao levar ao grande ecrã uma história que nem dez anos de vida tem sobre o sucedido a capacidade de refletir sobre as personagens e contextos não é certamente a mesma que existe quando algum tempo mais nos separa da realidade sobre a qual se quer fazer ficção. Mas este não é o único problema de I Am Michael. E a tentativa de biopic da figura de um ativista pelos direitos LGBT que, depois de um problema clínico, se aproximou de uma igreja, acabando por declarar publicamente não ser mais um homossexual, daria certamente muitas mais possibilidades a um filme que a magra soma de ideias escritas e realizadas por Justin Kelly mostrou primeiro em Sundance e, agora, em Berlim.

Inspirado pelo artigo de Benoit Danizet-Lewis “My ex-Gay Friend” publicado na New York Times Magazine, o filme conta com James Franco como protagonista (vestindo a pele de Michael Glatze) e Zachary Quinto como Bennett, o seu antigo namorado, que conhecera quando ambos trabalhavam na revista XY Magazine. O filme não é senão uma sucessão de sequências, cada qual antecedida por um ecrã a negro onde se lê o local e ano do que sucede logo depois, mais ao jeito de uma reconstituição para docudrama televisivo que para o que se espera ver num ecrã de cinema. E um pensamento sobre cinema ali não parece existir. Ou se existe não damos por ele.

I Am Michael arruma sequencialmente os acontecimentos, da vida ativista de outrora em San Francisco partindo para Halifax, onde Bennett é chamado para um novo trabalho, pelo meio juntando o estudante de física Tyler (Charlie Carver) que não só terá um relacionamento com o casal como um papel na criação de uma nova revista dedicada aos jovens gays americanos. Uma situação clínica desperta em Michael uma fé a que nunca se ligara até então. Progressivamante aproxima-se da igreja, renuncia a homossexualidade (apesar de “tentações” num retiro) e procura uma nova vida, usando por vezes um discurso nos antípodas do que outrora praticara.

Convenhamos que a figura de Michael Glatze, e todas as suas contradições, é interessante ponto de partida para uma qualquer reflexão ou mesmo filme. Mas não só talvez seja demasiado cedo para o fazer. Como o argumento, realização e soluções encontradas em I Am Michael em nada servem a dimensão maior que uma personagem como esta poderia suscitar.

 

Dia 5 – ‘Knight of Cups’, de Terrence Malick

O ritmo a que vamos encontrando hoje novos filmes de Terrence Malick em nada se pode comparar ao que outrora conhecíamos num realizador que merecia, mais que qualquer um, o epíteto de bissexto quando chegava a altura de reparar na sua agenda de estreias. Cinco anos separaram a sua estreia em Badlands (1973) de Days of Heaven (1978), o filme que revela primeiros sinais de uma linguagem que viria a aperfeiçoar com o tempo. Vinte anos esperámos depois para o rever, em 1998, em A Barreira Invisível, sete depois até O Novo Mundo (2005) e seis até A Árvore da Vida (2011). De então para cá os intervalos foram reduzidos a dois anos para To The Wonder (de 2013, que entre nós estreou com a tradução menos inspirada A Essência do Amor) e, agora, Knight of Cups, havendo já em carteira dois novos projetos. Um rodado ao mesmo tempo que Knight of Cups, deverá focar a cena musical em Austin, no Texas. Ao mesmo tempo está em pós-produção Voyage of Time, documentário no qual trabalha há vários anos e sobre o qual se disse já que seria destinado a ecrãs Imax e teria duas versões, uma para exibição em museus, outra, mais longa, destinada às salas de cinema… Explicações para tão prolífica agenda? Haverá razões, certamente. E habitualmente esquivo nestas coisas dos media, Malick não deverá ter vontade para as justificar. Mas se virmos em A Árvore da Vida o alcançar definitivo de uma linguagem muito pessoal que vinha a ensaiar desde 1978, podemos entender o pós-2011 como um tempo em que, com voz dominada, agora pode procurar outras demandas: histórias.

Knight of Cups (o título vem de uma carta de tarot) é uma narrativa clara e bem focada sobre um tempo de desnorte e vazio na vida de um argumentista de Hollywood (interpretado por Christian Bale) que, apesar de criar tantas personagens, não sabe afinal nem quem é nem para onde vai. O filme acompanha a sua demanda por um sentido para a sua vida, ao mesmo tempo que evoca ligações passadas e presentes, frágeis e curtas, entre as mulheres que passam pela sua vida cruzando-se personagens criadas por Cate Blanchett ou Natalie Portman. Entre cenas de hedonismo em mansões luxuriantes ao bom estilo o Grande Gatsby (versão Hollywood) ou clubes de strip e tempos de fuga entre areais de praia ou a paisagem sem vivalma do Vale da Morte, a vida do protagonista esbarra no que vê e sente de imediato, um sentido mais profundo não surgindo sequer na linha do horizonte.

Num filme urbano, essencialmente rodado em Los Angeles (e com uma sequência em Las Vegas que acentua mais ainda o fosso que separa a exuberância das formas do vazio que as move), as marcas formais do cinema de Malick são rapidamente reconhecíveis nos movimentos de câmara, nas opções e ritmos de montagem, na música – onde se destacam desta vez Vaughan Williams, Grieg, Debussy, Pärt e Hanan Townshend (que tal como no filme anterior assina o score original), surgindo ainda pontualmente ecos da cultura pop/rock contemporânea – e na presença da voz em off (que em alguns momentos cabe a Ben Kingsley, que conta a história de um príncipe enviado pelo pai para encontrar uma pérola e que, depois de se distrair, esquece quem é e cai num longo sono, num paralelo evidente para com o protagonista).

Há também elementos temáticos em comum, da busca interior ao procurar na fé ou espiritualidades (e aqui não se fecha no cristianismo, apesar de ser num padre que escuta a ideia do sofrimento como etapa a cumprir antes de atingir a iluminação). Há uma família que perdeu um de três irmãos (como n’A Árvore da Vida). Há ocasionais olhares sobre vidas marginais, entre ruas menos bafejadas pela sorte (como em To The Wonder). Mas há um respirar de uma busca nova, entre as imagens da cidade, os muitos planos subaquáticos (entre o mar e piscinas) e uma breve sequência – que podemos associar ao trabalho de fotografia que a personagem de Christian Bale às vezes acompanha – de imagens paradas a preto e branco que colocam novos elementos em jogo.

Ao invés da narrativa fragmentada em A Árvore da Vida este é um filme sem grandes elipses. O passado surge mais em encontros e evocações em vez de flashbacks, estes sendo breves e muitas vezes usando as texturas de imagem das velhas câmaras de vídeo. Tal como em To The Wonder, mas sem o desencantamento que então assombrava as figuras de Affleck e Bardem, a firme busca de sentido e de identidade do protagonista acompanha-nos num contraste entre a tranquilidade aparente da sua expressão (algo inerte e desencantada) e o torpor de dúvidas e ansiedades que imaginamos por detrás dos seus olhos. Acompanhá-lo, ao longo de duas horas, foi até aqui a melhor das experiências desta 65ª Berlinale.

Dia 4 – 100 anos de Technicolor

Uma fantasia das arábias e uma história com cavaleiros na Inglaterra medieval. Novidades? Nem por isso. O primeiro dos filmes, O Ladrão de Bagdad, foi realizado em 1940 por Michael Powell, Ludwig Berger e Tim Whelan. O segundo, Ivanhoe, baseado no romance homónimo de Walter Scott, foi assinado por Richard Thorpe em 1952. Em comum têm, por um lado, uma banda sonora assinala por Miklos Rosza. E, por outro, o facto de terem integrado a seleção dos filmes que ontem a Berlinale apresentou integrados na grande retrospetiva que, este ano, assinala o centenário do Technicolor.

Grande parte deste ciclo que representa a fatia maior das memórias em exibição – há um outro a decorrer, evocando a filmografia do homenageado Wim Wenders – tem ocupado uma das salas de tamanho intermédio do multiplex Cinemaxx, na zona de Potsdamer Platz (o coração do festival) e muitas vezes de casa cheia. Assim foi nessas duas sessões, uma ao fim da manhã, outra ao início da tarde.

O Ladrão de Bagdad – que o cinema visitou várias vezes – é nesta leitura um verdadeiro festim visual, não apenas pelo recurso a efeitos visuais como os que fazem o génio sair da garrafa ou põem a voar o cavalo-brinquedo oferecido ao sultão de Basra (e vale a pena voltar a lembrar que estávamos em 1940), como pelas opções de art direction que sublinha o tom de fantasia que o próprio título do filme desde logo sugere e que o uso da cor amplifica, concedendo ao filme a sua alma. Uma narrativa era-uma-vez junta ingredientes que, somados, construíram um clássico do cinema de aventuras que ontem abriu uma janela no tempo num festival onde a novidade tem – naturalmente – feito a notícia.

Ivanhoe é uma história de cavalaria projetada nos tempos do rei Ricardo Coração de Leão, fazendo do monarca (raptado) o fiel da balança numa disputa de poder entre normandos e anglo-saxões, demonstrando a evolução da narrativa uma importante representação da integração em solo inglês do povo judaico (que toma o partido do rei, mesmo perante um cenário de eventual perda pessoal). Variação do universo de capa e espada para cenários do século XII (será assim um filme de machado e massa de armas), Ivenhoe tem os seus mais inesquecíveis momentos precisamente através da contribuição da cor, sobretudo nas cenas do julgamento e do combate final.

Em nenhum dos casos foram apresentadas cópias restauradas – será que já o foram? – mas a mais-valia de um reencontro destes num grande ecrã está a ajudar a escrever a história desta edição da Berlinale.

A propósito deste ciclo, que inclui ainda títulos como O Rio Sagrado de Jean Renoir, E Tudo o Vento Levou de Victor Flemming ou Black Narcisus, de Michael Powell, foi lançado um livro sobre a história do technicolor, disponível apenas numa edição em língua alemã.

Dia 3 – ‘Queen of The Desert’, de Werner Herzog

Após uma série de olhares documentais sobre condenados que esperam a hora ditada pela sentença no corredor da morte, Werner Herzog regressa à ficção com um filme que tem por base uma figura real. Chamou-se Gertrud Bell (1868-1926) e, pelo trabalho de contactos que desenvolveu com clãs de beduínos, ficou conhecida como a equivalente no feminino de Lawrence da Arábia. As comparações possíveis com o magistral filme de David Lean (que em 1962 nos apresentou o ator Peter O’Toole no papel de T.E. Lawrence) ficam contudo pelas figuras e contexto – histórico e geográfico – que o filme Herzog agora visita, havendo ainda um breve plano aberto onde a música cita claramente a memória da partitura que Maurice Jarre compôs e que recordamos da primeira cena em que o filme de David Lean visita o deserto. Fora isso Queen of The Desert é uma sucessão de tiros ao lado e, no fim, uma tremenda desilusão.

Com um elenco de estrelas encabeçado por Nicole Kidman, e que a ela junta nomes como os de James Franco ou um constrangedor Robert Pattison (ainda por cima a tentar vestir a pele de T.E. Lawrence, o mesmo que O’Toole tornou num ícones da história do cinema), Queen of The Desert tinha matéria prima de primeira água a trabalhar. Não só a figura que quer revisitar, como a época em que o faz (sobretudo os tempos da I Guerra Mundial) e os próprios cenários do deserto.

E aqui, e perante memórias de outros filmes de Herzog que tão bem souberam olhar os espaços em redor da câmara – como um Fitzcarraldo ou Cave of Forgotten Dreams – sem os reduzir a um postalinho, as expectativas caminhavam bem altas. Mas nem só desaproveita os lugares por onde passa (e Petra é um deles) como reduz a narrativa de vida da protagonista a um plano dominado pelos trágicos dois amores que Getrud viveu. A mulher que domina a cultura árabe, que aprende a lidar com os povos locais melhor que o faziam os diplomatas de então e a carreira política que depois encetou são como que paragens num percurso que, na verdade, fecha ação e até mesmo expressão das personagens numa trama de romance com cenografia em travo exótico.

Hoje tem estreia mundial em Berlim o filme Knight of Cups, o novo filme de Terrence Malick, que passa na seleção oficial que assinala ainda as estreias de El Botón de Nácar, de Patrizio Guzman (o autor de Nostalgia For The Light) e Mr Holmes, de Bill Condon, a história de Sherlock Holmes que, já de idade avançada, vê um filme sobre si mesmo e sente que a história não aconteceu bem como foi contada.

Dia 2 – ‘After Work’, de Janina Herhoffer

Um homem, aparentando uns sessenta anos, apoia os braços e faz o pino. Ali fica, estático. Mais adiante uma mulher, também já grisalha, faz um exercício de relaxamento… Mas, curiosa do mundo à sua volta, levanta a cabeça e espreita o que se passa… Sob gargalhada da sala, que reparava como a curiosidade por vezes fala mais alto que um exercício numa aula de ioga, assim estavam lançados os dados para After Work um documentário de Janina Herhoffer que procura juntar olhares sobre o que muitos fazem depois de cumprido o horário diário de trabalho.

Mais que um catálogo de tempos livres, sem uma única entrevista e longe de querer desenhar ali uma tese, After Work não é mais senão uma soma de momentos, com a mais valia (ou o senão) de focar a recolha de situações e personagens sobretudo entre classes de ioga, relaxamento, dança, umas terapias de grupo, a exceção maior a estes comprimentos de onda surgindo na sala de ensaio de uma banda feminina herdeira das linhas angulosas do riot grrrl (embora ainda a aprender o seu caminho) ou num encontro de um grupo de mulheres que querem perder peso. A câmara de Janina Herhoffer procura muitas vezes soluções em planos fixos e, apesar de olhar por vezes os grupos, há ocasiões em que escolhe “protagonistas” e os observa com atenção. As sequências em cada um dos lugares e grupos não são longas, mas é no regresso a cada um que não só se aprofunda o nosso relacionamento com as figuras que vemos, ao mesmo tempo que se sugere o facto de tudo o que ali fazem corresponde a rotinas de aulas e encontros que imaginamos terem calendário semanal, mais coisa menos coisa. Nada nos é dito, senão o que é falado entre “personagens”. A construção da narrativa e eventuais hipóteses de conclusões cabe a cada um que está na sala. No fim fica uma sensação pouco nítida. Tivemos um retrato de algo maior ou apenas fragmentos de vidas que por ali passam?… Seja um ou outro, estes são olhares fora de horas de trabalho de homens e mulheres de uma cidade no primeiro mundo. Quaisquer generalizações serão, por isso mesmo, desaconselháveis.

After Work foi um dos primeiros filmes exibidos entre a seleção da habitualmente interessante e surpreendente secção Forum, que ontem arrancou.

Entretanto vale a pena passar sistematicamente pelo edifício que acolhe o Mercado Europeu do Cinema onde revistas como a Variety ou Hollywood Reporter, entre outras, lançam edições diárias onde dão conta não apenas de negócios de produção, distribuição ou exibição que vão acontecendo por aqui, como apresentam artigos temáticos sobre muitas das cinematografias dos países ali representados e críticas aos filmes que vão sendo apresentados. Na edição de ontem, por exemplo, a Variety chamava atenções para uma nova vaga de realizadores polacos. Gregorz Jaroszuk (que teve o seu Frozen Stories em Sundance em 2011), Kataryna Klimkiewicz (que trabalhou já com Dominga Sotomayor e se estreou nas longas em 2012 com Flying Blind) ou Krzysztof Skoniecczny (estreado em 2014 com Hardkor Disco) são alguns dos nomes referidos num destaque de oito páginas quer não ignora o facto de Ida é um dos favoritos na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Hoje, terceiro dia do festival, é a vez de acolher as estreias de Ixcanul de Jayro Bustamante, Journée d’une Femme de Chambre de Benoît Jacquot e Victoria, de Sebastian Schipper na seleção oficial. Entre a secção Panorama um dos destaques do dia aponta olhares a Cobain: Montage of Heck, o muito esperado documentário sobre Kurt Cobain.

PS. Em tempo de pausa entre filmes, a Cinemateca Alemã tem patente este ano uma exposição que justifica a visita de qualquer cinéfilo (apesar de estar às moscas de gente com sacola de serapilheira ou cartões com as acreditações do festival). Trata-se de uma mostra sobre a obra de Ken Adams, o homem que assinou a art direction de filmes como Dr. Estranhoamor ou Barry Lyndon de Kubrick ou Dr. No da série 007. Podem ler aqui um texto sobre esta exposição.

Dia 1 – A chegada (naturalmente)

Sacos em serapilheira, com mais ar de quem vai para a praia que o clima com temperaturas negativas que por aqui se vive neste momento, são uma marca que identifica muitos dos que, desde ontem, fazem de Berlim a cidade no centro das atenções do mundo do cinema por dez dias. O saco oficial da 65ª edição do festival, entregue aos portadores de acreditação, mas também disponível para venda em alguns pontos – entre os quais o stand de merchandise no centro comercial Arkaden – são parte da indumentária 2015 de quem anda por aqui. Em típicas rotinas de início de festival, é frequente vermos nas estações (e carruagens) de metro quem vá consultando programas e escolhendo sessões, a sacola de serapilheira ao lado confirmando por onde vão andar… São muitas sessões, em salas de cinema espalhadas por toda a cidade. E por dez dias vai ser assim.

Os ursos vermelhos com inscrições a amarelo já estavam instalados nos seus locais habituais entre as ruas que fazem da zona de Potsdamer Platz o coração da Berlinale. E aguardavam desde o início do dia de ontem a multidão que, até dia 15, viverá em correria e azáfama aquela zona da cidade que, depois de ter sido dominada por uma importante estação de comboios em finais do século XIX fora tornada terra de ninguém já que, durante anos a fio, foi não só cortada pelo muro que divida Berlim como era palco de uma das mais vastas zonas de vigilância, com edifícios arrasados de ambos os lados e quase nem vivalma por perto. Exceção (rara) para um mítico estúdio de gravação (que era mesmo conhecido por morar junto ao muro) no qual David Bowie gravou Heroes em 1977 e, já em tempo de reencontro entre as Alemanhas, os U2 registaram Acthung Baby. A queda do muro abriu nova vida à zona de Potsdamer Platz, que hoje é uma das mais evidentes expressões locais da arquitetura contemporânea (que, de resto, tem outros pontos de interesse espalhados pela cidade). Após anos a fio com a grande sala do Zoo Palast como sua principal casa, a Berlinale mudou para aqui não apenas escritórios, como algumas das suas principais salas de projeção, entre elas o gigantesco Berlinale Palast, os multiplexes Cinemax e Cinestar e as duas pequenas salas, de alma mais arthaus, do cinema Arsenal.

A 65ª edição do festival de Berlim arrancou ontem de noite, precisamente na grande sala do Berlinale Palast, onde foi exibido o filme Nada Quiere La Noche, da espanhola Isabel Coixet , que nos transporta à Gronelândia de inícios do século XX com um elenco encabeçado por Juliette Binoche. O filme abriu a seleção oficial de um ano que promete ser dos mais bem vitaminados que a competição em Berlim viveu nos últimos tempos, incluindo entre outros novos títulos de nomes como Terrence Malick, Werner Herzog, Jafar Panahi, Pablo Larraín, Patricio Guzman ou Peter Greenaway e, fora de competição, estreias de cineastas como Kenneth Brannagh ou Wim Wenders (que também é homenageado numa secção especial que revisitará a sua filmografia).

Ao mesmo tempo que o Berlinale Palast acolhia o filme de Isabel Coixet, a secção Panorana tinha honras de abertura ali bem perto, na sala maior do complexo Cinemax, onde era exibido o filme brasileiro Sangue Azul, uma história que aproveita as paisagens (e a ideia de isolamento) da ilha de Fernando de Noronha para, com os profissionais de um circo ali de passagem, explorar as consequências – familiares, sociais e pessoais – do regresso de um dos seus filhos à terra. A sessão foi apresentada por Wieland Speck, o responsável pela secção Panorama e teve na sala a presença do realizador Lirio Ferreira.

Ontem foi sobretudo dia de rotinas em tempo de chegada. Credenciais apresentadas, cartões levantados, primeiras consultas aos catálogos. O Mercado Europeu do Cinema, que uma vez mais decorre durante o festival nos espaços do Martin Gropius Bau – perto da zona de Potsdamer Platz – já tinha aberto as portas, à espera dos muitos programadores, distribuidores, exibidores e outros profissionais que ali vão saber o que produtores, companhias de distribuição e institutos nacionais têm de novo para mostrar este ano. Hoje a azáfama ali será outra. Assim como pelas salas de Berlim, com as restantes secções do festival a abrir as respetivas programações num segundo dia que terá as estreias de Taxi de Jafar Panahi, Queen of The Desert de Werner Herzog e 45 Years de Andrew Haigh como maiores focos de atenção. E Tudo o Vento Levou, filme de 1939 de Victor Flemming abrirá, por sua vez, a retrospetiva dedicada aos 100 anos do technicolor que decorrerá até dia 15 na sala 8 do Cinemaxx.

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