A voz esquecida de Lene Lovich
Texto: NUNO GALOPIM
Lene Lovich é um nome que hoje parece apagado da memória. Foi contudo uma força notada nos tempos da new wave, entre finais dos setentas e inícios dos oitentas (com relativo impacte entre nós e até mesmo atuação ao vivo numa altura em que as digressões internacionais nos visitavam a conta-gotas). A memória recorda ainda em si uma reconhecida activista pelos direitos dos animais. Nascida em Detroit em 1948, filha de mãe inglesa e pai sérvio, Lene Lovich (de nome real Lili Marlene Premilovich) cresceu no Reino Unido, onde fez a sua formação passando por várias escolas de arte. Nos anos 70 gravou gritos para filmes de terror e compôs um tema para Cerrone (estrela do disco sound) antes de se ver desafiada a gravar música em nome próprio. A bordo da Stiff Records, editora que estava então no centro das atenções em vibrante clima pós-punk no Reino Unido, Lene Lovich conqusitou sucesso imediato ao primeiro single – Lucky Number, em 1979 – ao qual fez seguir o álbum Stateless. A visibilidade que ganhou desde logo, pelo ineditismo de um look que chamava sugestões de um certo exotismo centro-europeu e uma voz capaz de soluções igualmente invulgares (a “escola” no cinema de terror não espantou a quem então a descobriu) colocou-a no mapa da noite para o dia. O facto de nunca ter repetido o patamar de sucesso alcançado com Lucky One arruma-a muitas vezes em listagens de one hit wonders. Destino injusto, que mede por feitos de mercado uma obra que, mesmo relativamente inconsequente depois de 1982, conta com um segundo álbum lançado em 1980 que merece romper o esquecimento a que foi votado.
Flex foi o seu segundo disco de originais. Lançado em 1980 o disco afina as ideias experimentadas em Stateless e fixa definitivamente uma linguagem procurada pela cantora sugerindo uma pop viva e intensa, que contrasta pelos seus arranjos de alma teatral com a simplicidade de muitas outras aventuras em terreno pós-punk. Em Flex as guitarras e ocasionais teclas convivem com a presença de um saxofone, com protagonismo maior inequivocamente por conta da sua voz. A sua enorme amplitude vocal encontra aqui, mais ainda que em Stateless, um palco ideal, que revela em canções como Bird Song (onde é notória uma sugestão de cenografia algo cinematográfica), Angels (um irresistível hino pop) ou You Can’t Kill Me (com grandiosidade épica uma vez mais a vincar a alma cinematográfica dos arranjos) alguns dos melhores episódios da obra da cantora. Tal como no disco de estreia, também aqui surge uma versão, a escolha recaindo desta vez sobre The Night, de Frank Valli.
A discografia de Lene Lovich teve ainda continuidade imediata no menos apurado (e ainda mais ignorado) No Man’s Land (1982), ao que se seguiu um período de mais silêncios que discos, os palcos do teatro tendo então cativado desde então mais vezes a sua presença que os da música. Mesmo assim, por duas mais vezes voltou a estúdio para gravar álbuns, juntando à sua discografia March (1989) e Shadows and Dust (2005). Flex teve reedição, com som remasterizado, em 2014.
PS. Lene Lovich é um dos nomes já confirmados para a edição 2015 do Entremuralhas, festival que decorre entre os dias 27 e 29 de agosto no Castelo de Leiria.

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