Jazmine Sullivan e a vida como um ‘reality show’
Texto: JOÃO MOÇO
Nos últimos anos muito se tem discutido, com maior ou menor inteligência, questões relacionadas com as causas feministas no contexto pop. O facto de Beyoncé ter recuperado um discurso da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie em Flawless e de ter feito do empoderamento feminino uma bandeira do seu percurso musical e social é só a ponta do icebergue para uma série de outras vozes que no cenário pop actual clamam, com justiça, não só pela igualdade de género mas também por uma postura mais autoconfiante e, por vezes, combativa. E que é sempre necessária. Aliás, este é um dos pontos que tem unido a maior parte dos nomes pop que têm adoptado o feminismo como também a sua arma e se têm afirmado pela sua atitude plenamente segura de si e autoconfiante.
No entanto, o que transparece no novo álbum da norte-americana Jazmine Sullivan, Reality Show, é a capacidade de exposição de uma vulnerabilidade intrinsecamente pessoal e isto não faz dele um manifesto menos feminista, já que é precisamente o reconhecimento e exploração (quase analítica) dessa vulnerabilidade que, no final, permite à intérprete e compositora chegar a uma posição de autoconfiança. Aliás, numa recente entrevista dada à webzine Slate a cantora confessou: “É suposto uma artista ter confiança; se não tens isso, então quem és tu? Voltar a ter essa confiança na minha arte foi difícil de conseguir”.
O disco surge depois de quatro anos de um hiato em que Jazmine esteve afastada da indústria, período em que enfrentou um relacionamento abusivo que contribuiu para esta saída de cena. Mas o que aqui encontramos não é o típico álbum em que se disseca até ao osso a separação amorosa, mesmo que as suas consequências estejam espalhadas um pouco por todo o alinhamento.
Curioso que a cantora tenha decidido intitular este seu regresso aos discos como Reality Show, quando ele acaba em muito por ser um prolongamento do que já acontecia na recta final do anterior Love Me Back (2010), mais precisamente da canção Famous, confissão dramática da sua necessidade de ser amada, vista, reconhecida. O prolongamento faz-se mais no que diz respeito ao tom emocional que enforma a maioria destas novas canções do que ao tipo de produção.
Da necessidade de ser amada e, por consequência, de revelar sem pruridos a vontade de conhecer esse limbo que é a fama – “You say it ain’t fair but what ain’t fair is no one cares if you ain’t famous” – Jazmine Sullivan parte para Mascara (segunda canção do novo disco, a partir do qual a sua narrativa realmente começa), tema sobre o constante escrutínio a que as mulheres são alvo no espaço público – “I keep mascara in my pocket if I’m running to the market ‘cause you never know who’s watching you” – mas também sobre recorrer, simbolicamente, à maquilhagem como uma ferramenta de empoderamento – “Don’t I deserve to be privileged? Don’t I deserve to get the very best? ‘Cause it ain’t easy being this fine all the time, ‘cause if it was, then we all could do it, but we can’t now, no, so bitch don’t kill my vibe, don’t be mad cause you coach class and I’m in that G5. Beautiful girls run the whole world, so I got to stay on”. Num tempo em que as mulheres e os seus corpos são tão policiados, acima de tudo pelo poder patriarcal, ouvir esta honestidade da parte de Jazmine Sullivan é sempre de louvar.
A cantora não engana quando em Masterpiece (Mona Lisa) revela: “I’m feeling exposed but I can’t hide no more”. Essa tem sido a sua postura desde que há sete anos se estreou com o álbum Fearless. Mas em Reality Show Jazmine Sullivan chegou a um tal nível de riqueza interpretativa (explorando as várias gamas do seu alcance vocal com uma tensão que nunca a aproxima de meros malabarismos técnicos) que elevam estas canções a um patamar de honestidade como já há algum tempo não se ouvia no r&b moderno (provavelmente desde Kandi Koated, 2010, de Kandi, uma voz, infelizmente, desaparecida desde então).
Em Stupid Girls, um dos pontos altos deste terceiro álbum, Jazmine Sullivan discorre sob a quase submissão ao homem, confessando-o com a perfeita consciência da posição em que se coloca – “Boys have toys too, you know they do, they call us stupid girls and when you love ‘em like I do you’ll be a fool, you’ll be a stupid girl… Better learn from my mistakes because it isn’t too late for you to get up and run, please just don’t be dumb ‘cause you have a choice to run after the boys or take over the world, don’t be a stupid girl”.
Noutros momentos, mais precisamente em #HoodLove, canta sobre a entrega incondicional ao outro, mesmo sabendo que esse é um lugar longe de perfeito – “’Cause when you love your man you’ll do anything they need, God damn, when you love your man it’s hard but you make it look easy”. Veins segue uma narrativa não muito distante, ainda que partindo de uma exposição emocional muito mais brutal, centrada num relacionamento pouco saudável para a narradora – “Now I can’t live without him ‘cause he’s all that I breathe, I don’t hang out much cause he’s all that I need, this crazy intoxicating kind of feel one day might be the death of me”. No entanto, o momento mais emocionalmente cru de todo o álbum vem na canção que se segue a Veins, Forever Don’t Last, com Jazmine acompanhada só por uma guitarra a cantar sobre a superação da dor mas a partir de uma posição ainda muito vulnerável e próxima da causa de toda esta turbulência. Não é também feminista assumir toda esta fragilidade individual sem pruridos ou sem sequer querer corresponder a quaisquer expectativas exteriores?
Além da já mencionada superioridade interpretativa, o que resiste no final deste Reality Show é o talento de Jazmine Sullivan enquanto compositora de canções, compondo as suas histórias de uma série de pormenores que lhes dão uma dimensão quase cinemática e bastante relacionável sem fazer dessas revelações (ou criações, como se queira ler) um fetichismo da sua individualidade.
Até Dev Hynes (conhecido pelo projecto Blood Orange e ex-Test Icicles e Lightspeed Heat, sendo um músico que confesso ter muito pouco em conta) escreveu, no site Saint Heron, que neste terceiro álbum Jazmine não recorre a gimmicks (ou truques), digo eu daqueles que dominam o r&b que a crítica hoje tanto gosta de elogiar. Só espero que isso não leve a que, quatro anos depois do seu “desaparecimento”, agora Sullivan não tenha a atenção e aclamação que merece.
Jazmine Sullivan
“Reality Show”
RCA Records
4 / 5

Deixe um comentário