Charli XCX em busca da pop de alta-voltagem
Texto: ANDRÉ LOPES
Disseminando singles e mixtapes no espaço da pop underground londrina desde o início da década, Charlie XCX soube cativar atenções pela forma como juntava elementos alternativos (formalidades synthpop ou ideias rítmicas associadas ao witch house) com refrões e melodias vocais extremamente cativantes. True Romance foi o álbum com que, em 2013, se estreou numa editora major e com ele afincou trejeitos melódicos e uma forma muito própria de mapear as possibilidades da canção pop.
Os resultados agradaram à crítica, mas falharam em atrair admiradores numerosos. Em vez disso, despertou o interesse de Iggy Azealia que a recrutou para a composição de Fancy – uma das canções que marcaram 2014, em muito graças aos versos que Charli assinou. De resto, algo de similar tinha já acontecido em 2012 quando assinara o sucesso comercial I Love It – o single que levara as Icona Pop ao pico da sua popularidade.
Antecipado pela própria artista como um álbum mais “gritante e associado ao girl-power”, Sucker consider a guitarra e o riff elétrico como uma nova ferramenta de trabalho para Charli XCX, que consegue assim refrões mais encorpados e um sentido de urgência que não falha em contagiar. A alma do disco deseja-se punk ou próxima da cena riot grrrl, mas nada aqui chega perto do frenesim de umas Bikini Kill ou das The 5 6 7 8’s. Em vez disso, com uma voz que desde as primeiras gravações faz tanto lembrar Gwen Steffani como uma versão (muito) festiva de Siouxsie Sioux, Charli XCX apresenta um conjunto de canções que rumam contra a corrente da pop comercial contemporânea.
Em faixas como Breaking Up, Gold Coins, Famous ou Hanging Around, riffs de guitarra bastante próximos do grunge dos anos 90 (ainda que longe dos discos memoráveis de Hole) sincronizam-se com os elementos eletrónicos bem espalhafatosos que em tudo combinam com o espírito juvenil destas canções. E se é verdade que as letras assinadas por Charli XCX não primam por serem exatamente imaginativas, essa também não será de todo a prioridade deste álbum. Com a produção assegurada por Rostam Batmanglij (dos Vampire Weekend) e de Patrik Berger (encarregue de produções para Robyn ou Lana Del Rey), foi encontrado o suporte certo para que todo o álbum funcione de modo coeso, ainda que nada acabe por soar realmente inédito.
Rompendo com a famigerada tradição de música de dança criada em redor do dubstep mais abrupto e anémico, este é o disco com que Charli XCX mostra da forma mais explícita possível que a música popular em muito pode ganhar com o recordar das noções rítmicas do punk – que afinal, nunca triunfaram sem aquilo que a autora de Sucker melhor sabe fazer: refrões inesquecíveis.
Charli XCX
“Sucker”
Atlantic / Warner
3 / 5

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