Tirar o peso de cima
Texto: DANIEL BARRADAS
Esta banda norueguesa que assina pela editora independente alemã Glitterhouse records, deu-nos em 2002 e 2006 dois dos mais deliciosamente depressivos momentos da década passada nos álbuns Star is just a sun e Come up for air. Se o primeiro lhes valeu comparações aos Sigur Rós, o segundo movia-se em direção a algo mais arejado, precisamente como um subir à superfície para respirar como era apontado no título. A relutância da banda em dar concertos manteve-os no entanto num relativo anonimato, inclusive no seu país natal, e o silêncio que se seguiu a 2006 foi o suficiente para que o culto à banda fosse sendo apurado apenas entre um grupo de fãs fiéis mas zelosos do seu precioso segredo e outros que ocasionalmente descobriam por si próprios estes delicados álbuns.
Durante os nove anos que se seguiram, Ola Fløttum, o cerne da banda, nunca a deu por extinta mas dedicou-se antes à composição de bandas sonoras para filmes e cedeu prioridade à sua vida familiar. Mas eis que temos finalmente The Weight of Spring, um disco que evidentemente foi feito com o devido tempo e ponderação de quem se dispõe a romper um longo silêncio. E embora Ola se tenha rodeado de alguns dos melhores músicos noruegueses para o produzir, o resultado é mais uma vez uma viagem a um universo íntimo e introspectivo.
O álbum abre com New York, uma canção que surge lenta e hesitante de uma profunda quietude. Um único violino é o fio de Ariadne que nos guia para fora do escuro silêncio até encontrar um subtil mas incentivante pizzicato de outras cordas. A voz de Ola Fløttum, o único sobrevivente da formação original da banda, surge então, chocantemente transformada pela idade, mais grave, mais rouca, ferida, começando por se limitar a colar cada sílaba à marcação do tempo. Pouco depois, alguns instrumentos de sopro juntam-se à caminhada e, sem sabermos como, estamos numa marcha rumo à luz, a que se juntou a percussão e um piano. É esta subtileza de orquestração, a noção de que cada silêncio e cada som têm uma função, que tornam este álbum uma preciosidade.
The Fall é um olhar para trás, como quem se detém num limiar antes de avançar. Há referencias na letra e na melodia ao álbum de 2002 Star is just a sun e a canção simplesmente “flutua”. Mas à terceira canção, Solid dirt, já estamos em terreno novo. A voz de Ola ganha confiança e surge apoiada por outras que não fazem um coro, mas que partilham as mesmas palavras, a mesma melodia: “Once I was just a boy with the need to destroy, now I will be a man that will rise from this land. Let the bells ring, let the air sing, let the heart spring.”. É nesta canção que se consolida o que se pode esperar dos renovados The White Birch.
E o que temos, o que nos oferecem, é um álbum que nos pede tempo e dedicação auditiva mas que recompensa com a beleza das suas nuances, como nuvens de primavera mudando a luz do sol. Ao longo dos seus 12 momentos (chamar-lhes canções é talvez redutor) somos conduzidos em direcção a essa luz de Primavera, tão mais preciosa porque ainda tem em si o peso do inverno.
No final do disco encontramos Spring, um instrumental (porque não há mais palavras) em andante, que já não se ergue a custo dos pavimentos de Nova Iorque mas que avança decido entre o brilho da natureza. Brilho que está patente no soar de um triângulo ou de um xilofone, numa alegre frase do piano, e mesmo, lá muito ao fundo, no chilrear de um pássaro. É talvez o momento mais ingénuo de todo o disco, mas estamos preparados para o receber. E perceber.
“The Weight of Spring”
The White Birch
Glitterhouse records
CD/2-LP(+CD)/Digital
5 / 5

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