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Viagem ao país da imaginação

Texto: NUNO CARVALHO

Em ‘Yvone Kane’, de Margarida Cardoso, Beatriz Batarda e Irene Ravache interpretam duas mulheres acossadas pelo fantasma da morte, mas uma procura a reconstrução enquanto a outra enfrenta a proximidade da dissolução.

“Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação”, afirmou Charles Chaplin. Foi imbuída de um espírito que concorda com a essência desta frase que, em Yvone Kane, a realizadora Margarida Cardoso mandou às urtigas a estreita referencialidade e o realismo mimético para perseguir, tal como a protagonista, o “fantasma de uma oportunidade” – a oportunidade de fazer o sempre impossível filme-síntese do trauma colonial e pós-colonial. Não há síntese possível, ninguém é capaz de falar de forma épica e englobante de uma realidade cuja natureza dolorosa tudo fragmenta e dispersa. Daí que a abordagem da realizadora a essa arqueologia mnésica seja empreendida pelo lado do fantasma, através de personagens que, como a própria referiu, são “muito etéreas”.

Porque tanto a personagem de Beatriz Batarda (Rita) como a da veterana atriz brasileira Irene Ravache (Sara) são de mulheres assombradas e atormentadas pelo maior dos fantasmas – o fantasma da morte. Rita viaja para um país africano não especificado (mas que sabemos ser Moçambique) após a morte da filha, para aí reencontrar a mãe, com quem a comunicação não flui facilmente (Sara é uma mulher dura, opaca e lacónica que enfrenta a angústia do seu próprio fim), mas também para investigar a verdade sobre o assassínio da personagem que dá título ao filme, uma ex-guerrilheira e ativista política acusada de uma tentativa de golpe de Estado no período da independência. Na verdade, Yvone Kane organiza-se em torno desta trindade fantasmagórica – o luto de Rita, a situação terminal de Sara e o mito de Yvone Kane, que se transformou numa muito conveniente “bela história” oficial, mas que configura um fantasma do passado que se insinua no espírito de Rita, como se nele procurasse a oportunidade e o instrumento capaz de repor a justa verdade.

Mas nem Rita sabe muito bem o que procura. Pensamos que possa ser uma jornalista em busca de pistas para escrever uma reportagem ou mesmo um livro sobre a “verdadeira” Yvone Kane, mas Margarida Cardoso já esclareceu que a personagem interpretada por Beatriz Batarda não é uma jornalista nem está ao serviço de ninguém, apenas escreve para si própria, como se ao concentrar-se na demanda do passado de uma figura mitificada se afastasse da realidade deprimente da sua própria vida. Graças a este estado de espírito dominante (que diríamos ser o da ausência), reina sobre o filme uma atmosfera fantasmática que empresta às imagens uma impressão de abstração, como se o mais importante para a realizadora, não obstante um fio narrativo discernível, fosse a criação de ambiências e de texturas visuais que procurassem sobretudo no espectador uma constelação de emoções estéticas e uma apreensão mais sensível e espiritual do que lógica e realista (no sentido mais aprumado, referencial e mimético do termo). E para a construção dessas atmosferas emocionais muito contribui também o exigente trabalho de fotografia de João Ribeiro.

“Yvone Kane”
Realizadora: Margarida Cardoso
Elenco: Beatriz Batarda, Irene Ravache, Gonçalo Waddington
Distribuidora: Midas Filmes
3 / 5

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