Os filmes da Judaica 2015
‘Pour une Femme’, de Diane Kurys
França, 2013
(ficção)
1980. Anne, uma realizadora, ignorando os conselhos da irmã mais velha, Tania, vasculha fotografias e cartas da mãe, recentemente falecida, à procura do seu passado. Encontra assim um tio misterioso do qual nunca ouviu falar. Esta descoberta propicia uma viagem à França do pós-guerra, e a uma história de origens, amor e traição.
1947. Michel (Benoît Magimel) e Léna (Mélanie Thierry) vivem em Lyon com a sua primeira filha, Tania. Sobreviventes do Holocausto, estão a recomeçar a sua vida. Michel tem uma alfaiataria e faz parte do Partido Comunista Francês, Léna não quer saber de política. A chegada do irmão de Michel, que este julgava morto, vem perturbar a vida pacífica deste casal. Jean (Nicholas Duvauchelle), já não via o seu irmão desde os nove anos. Os mistérios relativamente ao seu passado recente, bem como o seu desdém pelo modelo soviético, testam as convicções políticas e morais do seu irmão, ao mesmo tempo que atraem Léna, dividida entre o homem que a salvou e aquele que lhe traz a possibilidade de um amor mais verdadeiro.
No início do filme um longo genérico de fotografias dos protagonistas a preto e branco, define o tom. O dispositivo narrativo do filme acentua o carácter biográfico. Anne é um alter-ego da realizadora Diane Kurys. Contado em longos flashbacks, é um filme sobre a memória e o sentido que damos ao nosso passado e ao dos nossos familiares, o modo como organizamos os momentos de uma vida para contar a nossa história. É também uma narrativa sobre a história íntima face à História. O resultado final é bastante satisfatório mas desequilibrado, pois Kurys não se consegue decidir entre o elemento biográfico e a evocação histórica. O passado dos pais de Anne, cuidadosamente reconstruído no que aos valores de produção diz respeito, contado em cenas subtis, ancoradas nos três actores magistrais que constituem o triângulo amoroso, apresenta-nos nuance psicológica e algum interesse na evocação histórica. Passam por aqui os fantasmas do século XX, temas como o amor e a traição, a tensão entre dever e desejo, a emancipação da mulher. A emoção destas cenas é sincera e verdadeira. As cenas passadas nos anos 80 e que estruturam o filme e lhe dão uma dimensão biográfica são desinspiradas e, por vezes, desnecessárias. – Diogo Seno
“Make Hummus, Not War”, de Trevor Graham
Austrália, 2012
(documentário)
Passa hoje, às 16.00 na Sala 3 do Cinema São Jorge
Entre todos os tipos de disputas entre povos, sobretudo vizinhos, as comidas parecem ser a mais potencialmente indigesta das quezílias. E quando israelitas, libaneses e palestinianos contestam entre si a “propriedade” do hummus, a dúvida não se explica apenas escutando argumentos que contam que, se o prato feito por nós é o melhor então a invenção é nossa… Será hoje o melhor cozinheiro de pizzas um italiano? E o melhor chef de sushi um japonês? A coisa não é assim tão a preto e branco, claro. E por isso, para tentar resolver a “guerra” do hummus, um documentarista australiano parte em busca da verdade. Ou das verdades…
Para quem não provou nunca – e não sabe o que perde – o hummus é uma pasta feita de grão de bico esmigalhado, ao qual se junta limão, alho, azeite, um pouco de tahine (pasta com sementes de sésamo) e sal e pimenta a gosto… O realizador, que cresceu a comer esparguete e hambúrgueres e, mais tarde descobriu, com uma antiga namorada, a culinária judaica, era portanto uma alma atenta à gastronomia desta região do globo quando à imprensa chegaram notícias de uma disputa entre territórios, com tentativas de bater o recorde de maior prato de hummus a vincar o desentendimento.
De quem é o hummus afinal? Make Hummus, Not War parte em busca de respostas entre ruas e restaurantes em Israel, Palestina e Líbano. Com o cuidado de fazer uma contextualização histórica da região e das tensões que ali habitam, notando a riqueza cultural que ali conflui, escuta opiniões e observa. De figuras com responsabilidade política a cidadãos comuns, sem esquecer bloggers ou especialistas em questões de gastronomia, juntando ainda cozinheiros e donos de restaurantes, escutamos as mais variadas justificações. E vamos fazendo a nossa história, acompanhando várias imagens de cozinheiros a preparar hummus, ficando claro que há ali uma tão grande variedade (de texturas e sabores) que pode fazer desta disputa uma forma míope de ver a questão. Certo é que saímos da sala com vontade de comer um pratinho de hummus… – N.G.
‘Gett: O Processo de Viviane Amsalem’, de Ronit e Schlomi Elkabetz
Israel, 2014
(ficção)
Gett é a denominação que o divórcio recebe na tradição judaica. É também o nome e o foco do culminar de três filmes que os irmãos Elkabetz (Ronit e Schlomi) escreveram e realizaram centrados na personagem Viviane Amsalem, protagonizada pela própria Ronit e inspirada na sua mãe. Se em To Take a Wife (2004) assistíramos ao drama emocional, intimamente encenado em seio familiar, de uma Viviane que não se sente amada pelo marido, dez anos depois Gett traz-nos uma Viviane mais resoluta na sua demanda existencial. Pelo meio, um 7 Days (2008), em que um Shivá (semana de luto após a morte de um familiar próximo) é pretexto para um escrutínio das dinâmicas sociais da família de Viviane – um olhar que, perdendo de vista a própria Viviane, se revela difuso. É durante este Shivá, que ocorre durante a Guerra do Golfo, que nos apercebemos de que Viviane já não mora em casa há três anos, o que coloca a acção do mais recente filme um pouco mais adiante no tempo. No entanto, Gett: O Processo de Viviane Amsalem tem um carácter autónomo, não sendo necessário ter visto os dois primeiros filmes para o perceber.
O Gett, em Israel, é jurisdição de um tribunal rabínico ortodoxo que, procurando a harmonia do lar judaico (seja ele observante ou secular), nem sempre tem a disposição para apressar a sua solução. Mais, de acordo com um arcaísmo social tomado aqui como preceito religioso, é o marido quem pode conceder o divórcio à mulher e ao tribunal cabe apenas mandatá-lo. Em entrevistas, os realizadores já revelaram que o silêncio sobre este tema, e o facto de o Gett ser um julgamento à porta fechada, os impulsionou a retratá-lo. Compreende-se pois a decisão do duo de constranger a acção do filme ao tribunal: anacrónica, a ortodoxia, a que o Estado dá voz, continua hoje a secundarizar a mulher.
É a este cenário sóbrio que a dupla traz Viviane tentando forçar o marido Elisha a conceder-lhe o divórcio. A certa altura, exasperada, Viviane grita: “Donne-moi ma liberté!” Impávido, Simon Abkarian, interpretando Elisha, permite-nos sondar o seu conflito interior, que tenta conciliar com uma intransigente honra e crença religiosas (Viviane é o seu destino, o seu castigo) a modernidade que a historicidade exige ao homem. É o trabalho destes dois actores, que encarnam de facto as personagens, o carácter contido e sintético das demais personagens que aparecem enquanto necessários, e finalmente a fotografia (entregue a Jeanne Lapoirie, cujo trabalho em Eastern Boys pôde ser visto no Queer Lisboa no ano passado), que toma o ponto de vista das personagens, que contribuem para encerrar numa teia muito concreta um drama tão humano, e por isso tão político. O tribunal transformado em muro é onde se grafita, a título de exemplo, a condescendência misógina do painel de rabinos, o sofisma do rabino Shimon, a apatia que o patriarcado, em Elisha, nutre pelo segundo sexo, e a opressão normalizada no casal-testemunha Aboukassis. – Lourenço Rocha
‘Corre, Rapaz, Corre’, de Pepe Danquart
Alemanha, França, 2013
(ficção)
Uma história real de luta pela sobrevivência passa por este relato da fuga sem fim de um menino de oito anos que escapa do gueto de Varsóvia. Cenas de dor e desconforto, de solidão e perda cruzam os anos que o pequeno Jurek vive entre o campo e ocasionais passagens por casas que o acolhem desde que, em 1942, se esconde numa carroça que sai do gueto e escapa ao destino rumo a Treblinka que tomou a maioria da população que ali vivia. Com ocasionais janelas abertas a memórias que contextualizam a narrativa, Corre, Rapaz, Corre acompanha a viagem de resiliência de um rapaz polaco. Uma existência em permanente movimento e essencialmente solitária, que por vezes se cruza com grupos de outros foragidos, passa por casas que aceitam escondê-lo (mesmo que o preço a pagar seja eventualmente demasiado alto) e até mesmo por cenários de captura e fuga. Com uma realização convencional e uma narrativa claramente arrumada o filme sabe olhar para a personagem a quem escuta o medo e solidão, mas também tenacidade. A maior diferença face a muitas histórias de fuga que o cinema já contou neste contexto de tempo e lugar mora no ponto de vista de alguém que, mesmo ainda longe de ter uma idade que lhe permita poder fazer um retrato mais amplo do que se passa e saber como arquitetar uma fuga refletida, aprende pela experiência como contornar os obstáculos de forma mais instintiva. – N.G.
‘Natan’, de Paul Duane
Irlanda, 2013
(documentário)
A escola pública de cinema de Paris, a La Fémis, habita espaços dos antigos estúdios Pathé que, nos finais dos anos 20 e primeira metade dos anos 30, conheceram ali o protagonismo maior de um dos primeiros grandes empresários de grande sucesso do cinema francês que, de resto, edificou aqueles edifícios. Ao perguntar aos alunos se sabem da história da casa onde estudam, uns encolhem os ombros e nada dizem, outros balbuciam o nome Pathé… Ninguém fala em Bernard Natan. Porquê? Porque é um nome esquecido.
Natan, de Paul Duane, é por isso um filme que parte em busca de uma memória silenciada. E redescobre um cidadão de origem romena e, mais tarde, nacionalidade francesa e que, pela bandeira tricolor, se bateu na I Guerra Mundial. Encantado pelo cinema nos seus primeiros dias começou a trabalhar como projecionista, trabalhou em revelação de películas, passou a diretor de fotografia e acabou como produtor. São-lhe atribuídos alguns dos primeiros grandes títulos do cinema francês, assim como peças pioneiras do cinema erótico e pornográfico (sendo menos unânimes as suas ligações a produções do género depois da década de 1910). Empresário com visão adquiriu os estúdios Pathé em 1929 e desenvolveu o modelo “vertical” que congrega sob uma mesma companhia a produção, distribuição e exibição, sendo então uma figura marcante na construção de salas por toda a França. Natan acreditava que, perante a expansão do cinema americano por alturas do advento do som, os franceses deveriam responder com a produção e exibição de filmes nacionais já que ali havia um mercado a explorar. Porque não sabem então os alunos da escola o seu nome?
O filme mostra-nos o porquê. Explica como tudo desabou, como o seu nome foi usado em ações de propaganda, apagando-o do mapa do cinema francês antes mesmo de ter perdido a vida em Auschwitz, em 1943. Da acusação à calúnia, as ferramentas usadas foram implacáveis. Ao cinema cabe assim a tarefa de recordar a sua própria história. – N.G.
‘Esclavo de Dios’, de Joel Novoa
Argentina, Venezuela, 2013
(ficção)
Baseado em factos reais – um atentado ao Centro Comunitário Judaico de Buenos Aires em 1994 – Esclavo de Dios pretende ser mais que um mero thriller de espionagem, onde naturalmente o tutano da narrativa acompanha a luta do gato e do rato entre agentes especiais e elementos de uma célula terrorista a operar na América do Sul. Na verdade o que Joel Novoa aqui persegue, mais que um confronto maniqueísta entre o bem e o mal, é um ensaio de insight sobre os peões em jogo. Por um lado um agente especial que conhece de cor aqueles que persegue e factos a que estão ligados. Por outro um jovem que em tempos quase viu o pai ser assassinado e, sem rumo nem família, abraça uma causa que junta vingança, desencanto e niilismo, aceitando viver “adormecido” durante anos a fio – trabalhando como cirurgião e criando uma família – até à hora de ser chamado a agir. O filme acredita que, como em tudo na vida, é da dúvida que pode nascer a chave da razão. Mesmo em situações no limite. – N.G.
‘Labirinto de Mentiras’, de Giulio Riccarelli
Alemanha, 2014
(ficção)
Num edifício público de Frankfurt, na Alemanha dos tempos de Adenauer, um jornalista pergunta a quem aparenta estar na casa dos 20 anos de sabe o que foi Auschwitz. Numa biblioteca da cidade há dois livros sobre o tema. Um está requisitado. Outro está numa outra biblioteca, e leva oito a dez semanas a chegar. Entre os mais velhos a ideia de remexer no passado é foco de ansiedade, por vezes mesmo de violência. É num tempo em que muito do que acontecera durante a II Guerra Mundial ainda não estava ainda nem conhecido nem assimilado nem mesmo ultrapassado que Giulio Riccarelli, faz de Labirinto de Mentiras um retrato não apenas dos passos que precederam e levantaram o processo contra antigos elementos das SS no campo de Auschwitz como de uma sociedade onde laços pessoais e de família ainda se cruzavam com memórias (e experiências pessoais) vivas da guerra e do Holocausto.
Num registo realista, contudo não muito distante da arrumação clara de factos e figuras características do telefilme de reconstituição histórica, Labirinto de Mentiras recorda como um jovem procurador, sob o apoio de um superior hierárquico que contraria a tendência dos demais colegas, desenterra memórias, testemunhas e documentos e tenta construir um caso. A revelação progressiva de factos até aí silenciados e ignorados, revela os contornos maiores de um labirinto que só a tenacidade de um espírito decidido pode vencer. O filme tenta ir além da trama central, revelando pontuais histórias passadas de algumas personagens e definindo uma trama amorosa que corre em paralelo. São contudo mergulhos superficiais que, se por um lado não nos afastam do rumo da história, por outro na verdade pouco mais fazem senão acrescentar umas breves linhas às personagens que vivem em torno do protagonista. – N.G.
Curtas-metragens:
Há algumas semanas, ao conversar com a realizadora Vanessa Lapa – autora do filme O Homem Decente, sobre a figura de Himmler, que esteve em exibição já este ano entre nós – era ela mesma quem afirmava que muito está ainda por contar da história do Holocausto. E se dos historiadores esperamos novos trabalhos, no cinema vamos encontrando sobretudo novos pontos de vista. E entre as curtas-metragens que integram a programação da Judaica – Mostra de Cinema, há alguns bons exemplos dessa demanda de novas formas de contar histórias (muitas delas baseadas em factos reais) e referir lugares.
A Good Story, do alemão Martin-Christopher Bode constrói uma viagem no tempo que tem uma caneca rachada como ponto de partida. Achada numa montra de um antiquário na fronteira entre a Alemanha e a Polónia, só pode dali sair, diz o dono, se escutar “uma boa história”. Uma narrativa que a protagonista está renitente a partilhar mas que revela como cada objeto é também a soma das vidas que por ele passaram, ecos das vidas de ambos (e das gerações) que o precederam encontrando naquela caneca um outro ponto de cruzamento, nos tempos da II Guerra Mundial.
Uma trama bem mais complexa cruza a história que caminha entre um certo humor negro e a tomada de consciência da carga histórica que depois ali passa, em Salomea’s Nose, de Susan Korda. Coprodução entre os EUA e Alamanha, recorda uma intrincada sucessão de factos numa casa de família abastada em inícios do século XX, jogando com as relações entre personagens e factos com a boa arrumação característica de um Wes Anderson. Essas mais remotas memórias ganham sentido na construção de um arco de tempo maior que depois emerge, colocando aquelas figuras num cenário de devastação que depois se revela.
Uma história sem palavras e na qual dos protagonistas não vemos os rostos, mas antes os pés, é o que descobrimos em Shoes, de Costa Fam. Pelo contexto imaginamo-nos algures no Leste europeu nos anos 20 ou 30. Uns pés femininos descobrem uns sapatos vermelhos numa montra. Calçados daí em diante serão a personagem central de uma história de vida em cenário campestre, entre outros pés e sapatos sugerindo-se quem é, o que faz, com quem vive. Uma outra vitrina – que imaginamos em Auschwitz – confirma o fim do percurso de uma vida que, mesmo muda e sem rosto, sabemos assim que existiu. E pelo que passou.
Depois destas três ficções, um documentário. After, do polaco Lukasz Konopa, é uma curta soma de olhares sobre o dia a dia do museu de Auschwitz-Birkenau nos dias de hoje. Silenciosa e atenta a câmara olha os trabalhos de limpeza num dos blocos de Auschwitz ou a mudança dos sacos de lixo em Birkenau. Há ali depois turistas, alguns em excursões, outros em pequenos grupos, mais as fotos de recordação. Um museu como tantos outros. Mas diferente de todos os demais. – N.G.
A Good Story e Solomea’s Nose repetem domingo, às 14.00.
After passa domingo às 19.30 na Sala Manoel de Oliveira
Todas as sessões decorrem no Cinema São Jorge, em Lisboa

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