Música desviada
Texto: ISILDA SANCHES
Levon Vincent é nova-iorquino mas vive em Berlim, faz techno e house com apelo físico e mental e grava desde 2002 mas só agora lança o álbum de estreia e fá-lo com algum estrondo, sobretudo porque o disponibilizou gratuitamente durante 24 horas, antes da edição em vinil quádruplo chegar às lojas. Estratégia interessante para alguém que, estando já num patamar elevado, acredita que o mais importante é mostrar a música (até porque pouco dinheiro se faz com a sua venda) mas interessante também enquanto estratégia de marketing para multiplicar shares, likes, tweets e todas essas pequenas coisas que hoje em dia parecem fundamentais para fazer passar a mensagem (especialmente de discos “difíceis”). Four Tet e Aphex Twin, por exemplo, também disponibilizaram recentemente considerável quantidade de material gratuitamente.
Quando foi lançado, Levon Vincent escreveu no seu facebook “this is music for the ugly ducklings of the world”, aviso mais do que evidente de que o melhor seria esquecer os clichés do house e techno. Continuou: “if you are a member of the rat race (…) you may off course listen but know – this is not music for you. This is Action Against You!”. A verdade é que o disco é um chuto na funcionalidade e conformismo da música de dança, isto apesar de Levon Vincent ter provado vezes suficientes que conhece as regras que orientam o movimento dos corpos numa pista, mesmo quando as usa de forma desviada. Ainda assim, apesar dos desvios prévios, o álbum de estreia de Levon Vincent é como uma porta para um universo paralelo, onde a exploração cerebral prevalece sobre imediatez, a política está acima do hedonismo. Anti Corporate Music, mesmo estando mais próxima do registo habitual de Levon, diz quase tudo: é techno musculado, subterrâneo, fiel às suas próprias convicções nomeadamente às linhas que o fazem convergir para o dub. Mas há faixas em que também divaga na direcção do ambiental (Black Arm W/Wolf) ou do industrial (Junkies on Hermann Street) e até há um épico que começa com marimbada hipnótica e ascende ao espaço com linhas de sintetizador em crescendo e harmonias vocais celestiais (Launch Ramp to the Sky). Apesar do tom geral ser introspectivo e críptico há também um momento de melancolia poética, que o título deixa adivinhar de sentimentalismo exacerbado, mas que até mostra mais contenção do que promete: For Mona my beloved cat, rest in peace, a canção dedicada ao animal de estimação que partiu.
Talvez este não seja o disco que esperávamos (ou que os DJs esperavam) de Levon Vincent, talvez tenha mais lados B do que lados A, seja mais para pensar do que para dançar, mas que isso não desvie a atenção do essencial: da música exploratória e inconformista que Levon Vincent criou e de como ela faz diferença precisamente por não seguir os modelos habituais. Quem passar os preconceitos e barreiras e ouvir este disco com espirito aberto, será recompensado.
Este texto não respeita o novo acordo ortográfico
“Levon Vincent”
Levon Vincent
4LP e ed. digital, Novel Sound
4 / 5

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