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Fuga sem fim

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de ter conhecido antestreia na Judaica – Mostra de Cinema e Cultura, o filme ‘Corre Rapaz Corre’, de Pepe Danquart, recorda uma história verídica de luta pela sobrevivência na Polónia rural em plena II Guerra Mundial.

Uma história real de luta pela sobrevivência passa por este relato da fuga sem fim de um menino de oito anos que escapa do gueto de Varsóvia para, durante três anos, caminhar pelo campo (ocasionalmente vivendo em quintas ou aldeias), numa fuga sem fim, de árdua luta pela sobrevivência. Trata-se de uma história verídica, relatada anos mais tarde pelo protagonista, Yoram Israel Fridman, em miúdo conhecido como Srulik, filho de um padeiro na pequena aldeia polaca de Blonie. Chegado a Israel em finais dos anos 40, e depois de um curso intensivo de hebreu, estudou matemática, acabando por fazer uma carreira académica que poderia ter guardado estas memórias nos confins de recordações arrumadas. Traumáticas, certamente, mas arquivadas num passado distante. Acontece que, na década de 60, Fridman resolveu contar a história, originando um livro assinado por Uri Orlev que ganhou um lugar entre as histórias de sobrevientes do Holocausto. A história que, agora, o realizador Pepe Danquart – que em 1993 ganhou um Óscar pela curta-metragem Black Rider – procurou para, com ela, procurar um ponto de vista diferente sobre memórias do Holocausto.

Cenas de dor e desconforto, de solidão e perda cruzam os anos que o pequeno Srulik – que por conselho dos mais velhos se passa a apresentar como católico e de nome Jurek – vive desde o dia em que, em 1942, se esconde numa carroça que sai do gueto e escapa ao destino rumo a Treblinka que tomou a maioria da população que ali vivia. Com ocasionais janelas abertas a algumas outras memórias que contextualizam a narrativa, Corre, Rapaz, Corre acompanha a viagem de resiliência de um rapaz judeu polaco. Uma existência em permanente movimento e essencialmente solitária, que por vezes se cruza com grupos de outros foragidos, passa por casas que aceitam escondê-lo (mesmo que o preço a pagar seja eventualmente demasiado alto) e até mesmo por cenários de captura e fuga.

Com uma realização convencional e uma narrativa claramente arrumada o filme sabe contudo olhar para a personagem a quem escuta o medo e solidão, mas também tenacidade, assegurando o seu era uma vez como, de resto, imaginamos que o (hoje) avô Yoram faça com os netos, quando lhes recorda aquilo pelo que passou. A maior diferença face a muitas histórias de fuga que o cinema já contou neste contexto de tempo e lugar mora no ponto de vista de alguém que, mesmo ainda longe de ter uma idade que lhe permita poder fazer um retrato mais amplo do que se passa e saber como arquitetar uma fuga refletida, aprende pela experiência como contornar os obstáculos de forma mais instintiva. Uma das expressões de uma certa ingenuidade com que o pequeno protagonista (naturalmente) observa o contexto sugere-se na breve sequência junto do exército russo, quando nota combates em Varsóvia que, lhe explicam, estão a acontecer entre polacos e alemães. Jurek nota que os russos estão ali longe. Sem intervir. E de facto esse é um entre os episódios negros da história da II Guerra Mundial, recordando hoje os polacos como os “aliados” russos esperaram a Sul de Varsóvia – a poucos quilómetros de distância – pela saída de cena dos alemães que, pelo caminho, dinamitaram grande parte do centro histórico da cidade (que mais tarde seria reconstruído à imagem do que antes tinha sido).

No mapa recente da cinematografia sobre a II Guerra Mundial, Corre Rapaz Corre é um contraponto, do outro lado da barricada, ao mais profundo, visualmente desafiante e cinematograficamente bem mais marcante Lore, de Cate Shortland, que recentemente nos deu uma visão do fim da guerra do ponto de vista do perdedor, através da viagem – também no campo, desconfortável, perigosa e solitária – de cinco pequenos irmãos filhos de um oficial alemão que, aos poucos, compreendemos que teve um papel no Holocausto. Mesmo havendo uma clara diferença no modo de pensar o cinema, tanto Lore como Corre, Rapaz, Corre, são claros exemplos de uma busca por um sentido de verdade que em tudo contrasta com o medíocre e inverosímil Rapaz do Pijama às Riscas, esse um filme que não só coloca em cena uma situação impossível no quadro dos modelos de segurança vigentes nos campos de concentração como foca a “tragédia” no filho do oficial alemão, secundarizando assim todos os demais casos não menos “trágicos” que conhecem ali o mesmo fim.

Neste filme de Pepe Dunquart uma primeira nota adicional para o feliz trabalho de casting que, ao encontrar – quase em vésperas da rodagem – dois gémeos idênticos com a idade do protagonista, entre si dividiram, da melhor forma, a construção de um papel fisicamente exigente e emocionalmente pesado. Uma segunda para um trabalho de fotografia que, ao enquadrar frequentemente o jovem Jurek como um pequeno elemento num quadro de paisagem maior, vasta, por vezes tão tranquila como ameaçadora, sugere a dimensão colossal da sua caminhada sem fim entre campos onde sabemos que a guerra corre por perto.

“Corre Rapaz Corre”
Realização: Pepe Dunqart
Com: Kamil e Andrzej Tkacs, Elisabeth Duda
Distribuição: Cinemundo

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