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“Sinatra sou eu”

Texto: JOÃO LOPES

Bob Dylan revisita uma dezena de canções interpretadas por Frank Sinatra como se a respectiva história recomeçasse, agora mesmo, a partir do zero — sublime, claro.

Por mais voltas que demos, a noção de revivalismo não se adequa ao álbum de Bob Dylan com canções de Frank Sinatra. Na verdade, Shadows in the Night não satisfaz um dos princípios básicos da postura revivalista. A saber: a de que os originais recuperados entraram na história como padrões definitivos e, como tal, intocáveis.

Dito de outro: Shadows in the Night não é um disco de standards. Antes do mais, por uma razão que decorre das próprias escolhas de Dylan — não encontramos aqui o Sinatra “óbvio” de Fly Me to the Moon, The Lady Is a Tramp ou My Way. Depois, porque, mesmo não menosprezando a marca indelével de Sinatra em todos os temas agora retomados, Dylan distancia-se de qualquer tentativa de “recriação”. Tudo se passa como se as canções tivessem ido parar por acidente a… Sinatra, uma vez que Dylan as interpreta como se, no limite, sempre com elas tivesse lidado na mais radical intimidade. E podemos acreditar que sim, não só porque ele já o confessou, mas também porque os resultados são musicalmente depurados e emocionalmente intensos — se Flaubert achou por bem dizer “Madame Bovary sou eu”, Dylan não esconde a insolência do génio, informando-nos que, afinal, Sinatra é apenas uma das suas encarnações. Voilà.

Curiosamente, quase metade dos dez títulos provêm de um mesmo álbum de Sinatra. Assim, I’m a Fool to Want You, The Night We Called it a Day, Autumn Leaves e Where Are You? integram o alinhamento de Where Are You? (1957) que, para além de ter sido o primeiro registo em stereo de Sinatra, foi também o primeiro sem arranjos de Nelson Riddle (com Gordon Jenkins a assumir tal função). Pode dizer-se que a vibração rítmica de Riddle dava lugar a um espírito de balada(s) cuja respiração não seria estranha à referencia tutelar de Billie Holliday.

Face a tais pressupostos, Dylan adopta uma contenção dramática cuja ternura não repele uma angustiada visão da demanda amorosa (Stay With Me) ou essa frieza racional capaz de relativizar qualquer gesto passional (Why Try to Change Me Now). Isto sem esquecer uma descarnada versão de What’ll I Do, de Irving Berlin (escrita para um espectáculo de 1923), que passa a integrar um leque de interpretações do mesmo tema em que encontramos, entre muitos outros, os nomes de Nat King Cole, Judy Garland, Lena Horne, Julie London e, last but not least, Sarah Vaughan.

Com um envolvimento instrumental que corresponde a uma espécie de versão minimalista das grandes orquestras dos anos 50/60, Shadows in the Night será, talvez, o álbum mais confessional de Dylan desde Time Out of Mind (1997). Curiosamente, o respectivo produtor, Daniel Lanois, revelou recentemente que Dylan lhe deu a conhecer as gravações de 21 temas de Sinatra. A humanidade agradece, desde já, a edição das outras onze.

“Shadows In The Night”
Bob Dylan
CD, LP e ed. digital, Sony Music

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