Spring break for ever
Texto : JOSÉ RAPOSO
Por esta altura do ano estamos em época de “spring break”, pausa intercalar entre semestres na maioria das universidades Norte-Americanas. A história é tão conhecida, que uma explicação mais alongada corre o perigo de parecer um sermão – todos os anos é a mesma coisa, milhares de jovens partem em direcção à Florida, à procura de aventuras e sarilhos. Descrever a “spring break” é também olhar para um ritual, uma cerimónia do excesso que nos transporta para lá do horizonte da cultura popular. É essa viagem para o outro lado da cultura contemporânea – região sem mapa, continente dos sonhadores profundos – que faz de Spring Breakers, do cineasta Harmony Korine (HK), um dos filmes mais contemporâneos do nosso tempo.
À primeira vista, Spring Breakers nem sequer parece um filme do mesmo realizador de Gummo, fulgurante início de carreira, e momento fundador de uma obra incandescente. É preciso olhar para lá das aparências, seguindo a estrada de tijolos amarelos, para que lhe possamos reconhecer os traços característicos de um cinema enfeitiçado pela mitologia Pop. Na América de Korine, tudo é superfície feita à imagem da estrela de Hollywood: Charlie Chaplin, Madonna, James Dean, Marilyn Monroe, Michael Jackson – constelações maiores do enigma da máquina do Universo, referentes misteriosos do inominável. Life is a Mistery, era assim o refrão da inesquecível sequência daquele filme primeiro, que reunia Madonna e o fantasma de Marlene Dietrich numa cave na América profunda. O espelho que ali ocupa toda a parede, reflexo do universo duplo de HK, é a fronteira que o seu cinema procura desde então atravessar, membrana tão inalcançável quanto magnética. HK não tem feito outra coisa senão devolver imagens ao Mundo, dobrando o cabo da linguagem à procura da estrela em falta. Em Trash Humpers (TH), filme anterior a Spring Breakers, rodado em VHS, os sons já não formavam palavras; no lugar do rosto, máscaras grotescas – imagens tão degradadas quanto aquela realidade, ruína do nosso tempo. HK não desiste. Eis uma pergunta: como resistir à extinção daquela luz, que nos momentos finais de TH tem uma presença tão eléctrica?
Spring Break, Spring Break for ever
Viagem para o outro lado da cultura contemporânea, dizíamos, e mal Faith, Candy, Britt, e Coty se põem a caminho já sabemos a resposta. More colors, more love, more understanding. Cinematografia embriagada de néon luminoso, que adorna os corpos belos do amor com o feitiço da matéria sensível – corpos de Estrelas da Disney, transfiguradas em bacantes viciadas do presente. Na sequência do paraíso é isso que preocupa Faith, desejosa que tudo possa permanecer tal como está, que o mundo seja como um ecrã de computador, submisso por uma vez às nossas vontades: click and freeze, click and freeze, dirá repetidamente. Talvez seja aqui que encontramos a Utopia de HK no seu estado mais puro, escondida por entre os objectos de superfície. Look at my shit, look at my shit: a mesma coisa, pensada de outra maneira – o sonho americano de Alien, mugwump 24/7 disfarçado de rapper, companheiro inesperado de aventuras criminosas. No golpe de asa de HK em Spring Breakers, reconhecemos-lhe a mesma estratégia adoptada em Gummo: no lugar de Madonna, Miss Britney Spears, an angel if there ever was one on this Earth. Mas se na sequência na cave, a que fazemos alusão naquela obra de estreia, o espaço diegético nunca se chegava a desmoronar, impedindo-nos de ver para lá do espelho, em Spring Breakers a máquina do cinema já funciona de outro modo.
Sempre que vejo aquela sequência de montagem, com a canção da Britney Spears em off sobre imagens hiper-estilizadas de violência, do mais plástico e artificial que já se viu, não consigo deixar de pensar que, afinal, para lá do espelho, há sempre outro espelho. São essas as imagens-reflexo que HK, poeta do caos, coloca no centro do seu cinema. E, do mesmo modo que Sísifo era consciente do seu fracasso, também nós estamos condenados a ser duplos de Chaplin, uma e outra vez. O que é subversivo em Korine passa pela procura de uma autonomia individual, artística, verbal, a partir do que está agora à nossa frente, de Calvin Klein à Britney Spears, de A a Z, sabendo já o absurdo de tudo isto. Eis um retrato possível da nossa condição, sobre a forma de refrão: my loneliness is killing me, and I, I must confess, I still believe, I still believe, cantarolado junto de uma loja de conveniência, na América ou em qualquer lugar.
Spring Break, Spring Break for ever
Numa célebre entrevista de Andy Warhol, conduzida por Gene Swenson, Warhol comenta que Pop Art é gostar de coisas. Há um impulso muito semelhante em toda a obra de HK, que não é assim tão dedicada às coisas da juventude como as aparências nos dão a ver – é antes paradigma da profunda admiração pelo encanto da matéria, marca fundamental de todo o seu cinema. Na sequência final de Spring Breakers Alien não chega a ressuscitar, mas para ver milagre maior é preciso recuar até Ordet, do mestre Dreyer.

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