Os filmes da 8 ½ – Festa do Cinema Italiano em 2015
Textos: DIOGO SENO, LOURENÇO ROCHA e RUI ALVES DE SOUSA
“O Rapaz Invisível”
de Gabrieles Salvatores
Em Lisboa, a Festa do Cinema Italiano fechou a edição 2015 com uma simpática e agradável comédia familiar. Numa história que parodia/homenageia os clichés clássicos dos comics de super-heróis (como também pega no estilo enjoativo e mais negro incutido pela nova vaga de filmes do género), O Rapaz Invisível, exibido no festival numa antestreia exclusiva (foi a primeira vez que o filme foi visto fora de Itália – e daqui a algum tempo, chegará ao circuito comercial das salas portuguesas), centra-se nas peripécias de um jovem rapaz que, de um momento para o outro, percebe que ganhou o dom… da invisibilidade, pois claro.
A partir de uma sucessão de várias aventuras e desventuras, que culminarão na descoberta de um plano diabólico que pode trazer consequências fatais para o planeta, o realizador Gabriele Salvatores (que venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com Mediterrâneo, em 1991) desenha um filme divertido e cativante, que compensa, com as qualidades criativas da narrativa ligeira, os elementos que não foram desenvolvidos pela realização da melhor forma. É o exemplo de um cinema familiar que poderá não só apelar às crianças, porque dá também umas curiosas piscadelas de olho cinéfilas e culturais ao público adulto. – R. A. S.
“Torneramo I Prati”
de Ermanno Olmi
O último filme do lendário realizador Ermanno Olmi (que fez Il Posto e A Árvore dos Tamancos) tem um cruel e duro retrato do sofrimento, do desespero e da angústia causados pela guerra. É uma singular composição dramática que deve muito aos atores, que interpretam figuras complexas que interagem entre si nas trincheiras, durante a I Guerra Mundial, enquanto esperam que tudo acabe e que a paz volte a povoar a terra. Torneranno I Prati limita a sua narrativa apenas a esse lado fechado da fação italiana, evidenciando os múltiplos efeitos físicos e psicológicos causados por um conflito inútil, mas que condiciona e influencia a vida dos seus protagonistas de uma maneira avassaladora.
A guerra traz o medo e a descrença nos ideais que fomentaram essa mesma guerra, e a perda da inocência e do amor à vida, por parte dos soldados do filme, é desvendada através de pequenos gestos e de variadíssimas situações trágicas e dramáticas, filmadas através de uma belíssima cinematografia. “A morte não fazia parte dos nossos sonhos”, diz, a certa altura, uma das personagens mais inesquecíveis deste pequeno filme. E Torneranno i Prati representa isso mesmo: um mundo de horrores, de tragédia e de sangue, que estava longe de tudo o que se poderia imaginar. Um monumental lamento pelas perdas sofridas em todas as guerras da História, com um fortíssimo poder emocional. – R. A. S.
“Anime Nere”
de Francesco Munzi
Esta foi uma das grandes surpresas da secção Competitiva do festival, e que já tinha sido recebida entusiasticamente no Festival de Veneza. História de crime e vingança, que tem como pano de fundo os negócios e guerras da ‘ndrangheta, uma das organizações mafiosas mais poderosas do mundo do crime, Anime Nere surpreende pela construção narrativa, que tanto tem de clássica como de moderna, ao contrapor as peripécias de três gerações distintas ligadas à organização criminal.
Aqui encontramos tanto o lirismo de O Padrinho e o lado mais corriqueiro da vida familiar “mafiosa”, tal como foi tão bem ilustrada pela série Os Sopranos. E na junção desses dois lados, mais as componentes trágicas e dramáticas da história, Anime Nere revela-se como um forte e direto retrato do mundo do crime. Sem recorrer a lamechices, indo direto ao assunto sem esquecer as personagens e tudo o que cada uma delas representa, mas nunca caindo no erro de as tornar “figuras-tipo” da máfia, o realizador Francesco Munzi guia-nos por um inferno real e negro, em que as almas entram e do qual, mais tarde, não conseguirão escapar, porque terão de cumprir um destino que, no fim de contas, se tornara fatal desde o início da narrativa. Um drama sólido e emocionante, sem falinhas mansas, com óptimas interpretações e uma interessante realização. – R. A. S.
“O Bom O Mau e o Vilão”
de Sergio Leone
Não é preciso dizer muito sobre este grande clássico do cinema italiano – e não só – porque o seu estatuto fala por si mesmo. O Bom, o Mau e o Vilão é um dos filmes mais adorados do cinema, conquistando sucessivamente novas gerações de espectadores pelo humor, pelo estilo inconfundível de Sergio Leone, e pelo lado cool das personagens, a de Clint Eastwood em particular. E na Sala Manoel de Oliveira, que estava quase cheia, o público voltou a receber, com muito agrado, esta obra-prima do western spaghetti. Numa belíssima cópia restaurada a 4K, com a versão integral do filme na língua inglesa, o filme de Leone continua a surpreender e a cativar, algo que também se deve à inconfundível banda sonora de Ennio Morricone. O melhor filme da Festa do Cinema Italiano foi feito em 1966. – R. A. S.
“Il Treno va a Mosca”
de Federico Ferrone e Michele Manzolini
Em Il treno va a Mosca (2013, com o título internacional The Train to Moscow: A Journey to Utopia) Michele Manzolini e Federico Ferrone contam a história de Sauro Ravaglia, um barbeiro comunista de Alfonsine, na Romagna, que em 1957 participa no Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes em Moscovo. Romagna é uma das regiões a que se chamam vermelhas, apoiantes tradicionais do Partido Comunista; com imagens do Archivio Nazionale del film di famiglia (entre elas as do próprio Sauro) encena-se o ambiente feérico de um pós-guerra que conheceu a utopia tão perto. Depois do terror guerra e da pobreza do fascismo, “falava-se de um país donde tinham expulsado os patrões e dado a terra aos agricultores”, seguem-se as cooperativas, a festa: no aterrado, a possibilidade. Um grupo de sete rapazes e uma criança numa maré de gente que, de todo o mundo, conflui àquela que foi a maior destas jornadas. De Chopp, na fronteira Russa, até Moscovo, os locais acenando em festa. No congresso, a festiva trupe que urge mir i druzhba (paz e amizade). Mas, quando se afastam dos propagandísticos roteiros, a estupefaciente indigência e corrupção do projeto torna-se visível – o filme não se demora aqui. Após a viagem a Moscovo, Sauro visitou outros países e roturas: Argélia, Austrália, Brasil, Bulgária, Cuba, Finlândia, Hungria, Jugoslávia, Marrocos, Mauritânia, Portugal, Turquia. Foca-se apenas a sua viagem magrebina. A banda sonora (Francesco Serra), que desde o início sugeria a desolada deceção, conjuga-se com a narração de Sauro que rememora, numa contemporaneidade desprovida de ideal, os vários golpes infligidos ao sonho. Um filme que faz um luto poético ao ominoso chumbo de um fulgor efémero que, como aquelas filmagens caseiras, está por encontrar nos dias que correm. – L. R.
“N-Capace”
de Eleonora Danco
N-Capace (em português algo como N-capaz) é a estreia na realização da atriz e performer de palcos e ecrãs Eleonora Danco. Conduziu uma série de entrevistas a velhos e adolescentes, nas suas palavras “aqueles fora dos ciclos produtivos”, de Roma e Terracina, sua terra natal. Sem escrúpulos pede àqueles, não engrenados na estrutura fabril, que partilhem respostas e memórias do sexo, de deus, do castigo corporal parental, do casamento, da morte, dos sonhos, e pede também aos entrevistados que actuem cenas surrealistas que imagina. A inusitada circunstância, que Danco provoca, descobre a película de norma e organização que a memória – cronológica, causal,– induz. Em certas alturas, Danco, numa toga romana, profere discursos inconformados e angustiados perante transeuntes, em afazeres ou cafés, perplexos. Outra linha recorrente é o confrontar do próprio pai sobre a mãe que já morreu, mas não partiu, com questões que confrangem, sobre a intimidade e a infância. A tensão é lírica, provocando o sorriso e a catarse defronte as impressões do meio e do outro em todos estes indivíduos. – L.R.
“I Nostri Ragazzi”
de Ivano de Matteo
Dois irmãos jantam todos os meses, cumprindo há dez anos esta tradição de se reencontrarem, sempre no mesmo restaurante e na mesma mesa marcada. Mas desta vez, tudo será diferente, porque as circunstâncias serão outras. Massimo (Alessandro Gassman) é um advogado que defende um polícia acusado de homicídio, e Paolo (Luigi Lo Cascio) é um médico que acompanha o caso de uma criança, que entrou em estado de choque depois de assistir ao assassinato do seu pai pelo agente da autoridade. Com este acontecimento, que abre I Nostri Ragazzi de uma forma extremamente cativante, ficamos a compreender, desde logo, os ideais distintos que Massimo e Paolo defendem no que concerne a estes delicados casos judiciais.
Este é um drama familiar sobre o impacto de pequenos gestos na vida quotidiana, e que não vai ficar apenas por aqui, nesta dissecação moral e psicológica da sociedade moderna. Quando essas duas personagens (e suas respetivas mulheres) se apercebem que o filho de Paolo e a filha de Massimo podem ter sido os responsáveis por um crime horrível ocorrido numa rua escondida da cidade, os ideais são substituídos pelas emoções, e por uma confusão de sentimentos provocada pelo peso da lei e da justiça na mente dos dois irmãos. E as decisões tomadas pelos pais podem não ser tão previsíveis como estamos à espera.
O grande trunfo do realizador Ivano de Matteo, e que faz com que a sua função, cumprida com o auxílio de técnicas rotineiras e televisivas, não seja o elemento mais interessante do filme, é esse jogo de tensões que vai sendo criado entre os dois irmãos e os dois primos. E pelo meio, ainda há tempo para se mostrar a banalidade da violência na era moderna, e a irresponsabilidade das novas gerações graças às influências de programas televisivos extremos, que mostram como atitudes brutais (e mortais) têm o seu quê de divertidas, de espectaculares, de puro e duro entretenimento. Mas se a diversão cria a ilusão dos dois jovens, causa a extrema preocupação e desespero dos pais, que se encontram com um caso terrível nas mãos e que não sabem como o poderão resolver. Além da impecável gestão dramática e da eficaz oposição da moralidade das personagens, há ainda magníficos desempenhos de todos os atores, que também impedem que I Nostri Ragazzi seja um filme banal. Aliás, é impossível que assim o seja apenas pela sua história – porque iremos ficar a pensar nela, e nas várias questões levantadas pela narrativa, e que são essenciais para a compreensão da atualidade. – R.A.S.
“Le Cose Belle”
de Agostino Ferrente e Giovanni Piperno
O documentário de Ferrente e Piperno segue a vida de dois rapazes, Fabio e Enzo, e duas raparigas, Adele e Silvana, no último ano do século XX, e passados 12 anos. A primeira parte foi filmada com câmaras mais próximas do registo caseiro (tratou-se de um documentário para a televisão intitulado Entrevista à minha mãe e que pretendia mostrar as aspirações das crianças napolitanas), o que dá uma urgência ao filmado, e em certos momentos, chega mesmo a pôr o testemunho a cargo dos próprios protagonistas. As entrevistas aqui são caóticas, a montagem desregrada. Estas crianças vivem num meio precário, entre pais negligentes, onde a criminalidade é um dado natural e as hipóteses de fuga escassas. A segunda parte mostra o presente dos quatro protagonistas, e como estes tiveram que abandonar as suas aspirações. Entre a procura de emprego (estes estão ou desempregados ou em empregos precários) e o seu reencontro com os familiares, o que daqui emerge é uma tela de Nápoles, cidade assolada pela pobreza, pela miséria e pela criminalidade como se de pragas se tratasse. Ao recuperar excertos da primeira parte, para lembrar as expectativas dos protagonistas mas também de toda uma cidade (e do espectador) e comparar com o desesperançado presente, o filme acaba por prender a realidade a um molde, forçando leituras e ligações que, na primeira parte, surgiam naturalmente na espontaneidade do retratado. Nesta segunda parte entra a encenação, resgatada do maniqueísmo pela incrível dignidade de Fabio, Enzo, Adele e Silvana, adultos precoces, presos a um meio que não conseguem transcender, mas mesmo assim decididos a continuar, para preencher um presente possível, feito um dia de cada vez. Na versão apresentada na Festa há uma cena adicional, que acrescenta esperança, numa pequena história que vale a pena contar e que reforça o lado work-in-progress deste documentário. Enzo, queria ser cantor. Na primeira parte, víamo-lo a deambular de restaurante em restaurante com o pai, para cantar. Consta que Enzo deixou de cantar quando viu as suas prestações no primeiro documentário e é assim que o encontramos, recusando-se a cantar, abandonando o seu sonho e num trabalho de porta-a-porta na segunda parte do documentário. Após o visionamento de Le Cose Belle, Enzo ganhou coragem para voltar a cantar. E é com Enzo ao microfone que esta última versão começa e acaba. – Diogo Seno
“Il Giovane Favoloso”
de Mario Martone
Fazer um filme sobre a vida de um dos poetas mais conhecidos da língua italiana tinha tudo para dar certo. Infelizmente, Il Giovane Favoloso, que tem Giacomo Leopardi como protagonista, acaba por concretizar muito menos do que se poderia esperar. Não é completamente dispensável, porque nele encontramos uma lindíssima fotografia e um elenco fabuloso, encabeçado pelo extraordinário Elio Germano. Mas o filme de Mario Martone perde-se em pormenores menos interessantes da biografia de Leopardi, criando um conjunto desinspirado de cenas, sem qualquer tipo de ligação, que justifique a duração e a construção do filme.
E se a obra do poeta é magnífica, não é só com ela que, no entanto, se consegue fazer um bom filme. Em certos momentos, parece que Martone fica com a ideia de que se incluir algum momento aleatório com leituras em off de poemas de Leopardi o público conseguirá aceitar melhor as falhas da narrativa, e a falta de interesse demonstrada em ligar todas as partes da complexa personalidade retratada.
Os mistérios da vida e do pensamento do poeta são interrompidos por ninharias, por artifícios intelectuais vazios que desviam a atenção para características menos invulgares de Leopardi, o que faz com que Il Giovani Favoloso acabe, também, por cair na vulgaridade que encontramos em muitos biopics – que prometem muito, mas que não conseguem sequer aproximar-se dos biografados. – R. A. S.
“Basilicata Coast to Coast”
de Rocco Papaleo
Basilicata Coast to Coast (2010) foi financiado pela região para promover a sua imagem. “Não fiz este filme para fazer promoção da Basilicata, mas para fazer a minha promoção,” contrapunha o realizador Rocco Papaleo, presente na sessão, numa demonstração do seu cunho satírico. É com esse humor que a sua obra nos dá a conhecer facetas desta pitoresca região na planta do pé de Itália, donde Papaleo é originário. O mote para esta exploração é uma road trip de dez dias que uma banda teatro canzone de quatro amigos (Rocco, Salvatore, Franco e Nicola, interpretado pelo realizador) de Maratea empreende até uma competição em Scanzano Jónico; uma viagem que de carro demoraria cerca de hora e meia. Mas os amigos vão a pé, acompanhados por uma carroça com o equipamento, procurando uma conexão menos mediada com a identidade da sua música, que funde a linguagem introspetiva do monólogo com o folclore. Acompanhados da jornalista Tropea, uma intelectual que contrariada os segue para um jornal paroquial, as personagens vão encontrar na viagem solução para as adversidades em que a vida de cada um os envolveu. Este filme alegre não se torna então anúncio turístico, antes um apontamento sobre a relação que as personagens estabelecem entre as suas raízes singelas e sonhos maiores. – L. R.
“Short Skin”,
de Duccio Chiarinni
O início do filme de Duccio Chiarinni situa-o logo no território de tantos outros primeiros filmes independentes: a perda de inocência, as agruras do crescimento. Edoardo, um tímido rapaz de 17 encontra-se de férias junto ao mar, com a sua disfuncional família e o seu melhor amigo. A pressão daqueles que o rodeiam, incluindo os pais, e as hormonas, tornam premente a primeira experiência sexual, que todos encaram como uma espécie de teste, que o próprio protagonista considera inultrapassável. Edo sofre de fimose, um mal-estar no pénis que torna qualquer actividade sexual dolorosa. O filme ancora-se nesta “metáfora” para explorar o tema da sexualidade adolescente de forma sensível, embora pouco profunda. As dinâmicas familiares são pouco desenvolvidas, e o protagonista e o filme soam mais sinceros nos momentos entre amigos. As diferentes situações cómicas (uma das quais decalcada de um dos episódios mais conhecidos de Portnoy’s Complaint, o livro de Philip Roth sobre um homem atormentado pela sua sexualidade e pela relação disfuncional com as mulheres e os seus pais) não são muito originais, mas vão resultando devido ao actor principal, verdadeira descoberta. Matteo Creatini, cabelo encaracolado como um jovem Bob Dylan, alto e incrivelmente magro, dá vida ao protagonista com uma quase ausência de expressão facial, numa interpretação que sendo menos, consegue mais, e que dá um pouco mais de gravidade a um filme de outra forma imbuído nos tiques de um cinema independente mais sentimental. – D.S.
“In Grazia di Dio”
de Edoardo Winspeare
Adele é mãe solteira da adolescente Ina. A irmã de Adele, Maria Concetta, e um irmão ajudam-na numa manufactura têxtil, até que a crise financeira e um outsourcing esclavagista obrigam a empresa a fechar. O irmão emigra para a Suíça e as três mulheres mais a mãe de Adele, a avó Salvatrice, mudam-se para uma casa no campo, onde reconstroem a sua vida com base na troca dos seus produtos agrícolas, por bens necessários, com os vizinhos da comunidade de Salento, na ponta sudeste de Itália. É uma boa nova que este filme, tecnicamente decente, mimique o enredo e tenha sido conseguido também com recurso à interajuda e permuta locais.
In Grazia di Dio foi seleccionado para a secção Panorama de Berlim em 2014; não para a secção competitiva por ser, segundo o realizador Edoardo Winspeare, considerado “um pouco muito carinhoso e optimista” – mas, de qualquer forma, Winspeare “não queria épater le bourgeois.” Mas este tom leve – os maneirismos da identidade regional, os sonhos de ser actriz da (gorda) Maria Concetta (Barbara De Matteis, a única actriz profissional) são transformados em omnipresentes remates e toques cómicos, os contratempos são facilmente ultrapassados e esquecidos – este ligeirismo não parece jogar a favor da profundidade do filme. Apesar das personagens receberem uma interpretação honesta, o drama, quando as atinge, carece de contexto. Fora de sítio numa trama que é um arranjo de tipos e clichés moralistas com visões de um campesinato que se querem idílicas. O filme com uma pegada ecológica mínima (na rodagem não se usaram garrafas de plástico, usavam-se bicicletas, reciclava-se a comida) acaba por ter um peso igual com o espectador. – L. R.
“Incompresa”,
de Asia Aergento
Há um charme inegável no filme de Asia Argento, retrato cruel e pop da infância. Aria (a uma letra de distância do nome da realizadora, o que acentua a leitura biográfica do filme) é interpretada por Giulia Salerno num registo ora leve ora grave, sempre gracioso.
O filme encontra-se mais maduro e refrescante nas cenas em que os adultos não entram: o olhar da realizadora põe-se à altura da protagonista e dá-nos o seu mundo peculiar – nomeadamente em cenas de travessuras partilhadas com a sua melhor amiga (num terno retrato da efémera e instável amizade de infância) ou numa sequência do filme, nocturna, em que Aria se aventura sozinha com o seu gato preto e encontra um grupo de personagens marginais com o qual festeja.
Este olhar despudorado sobre a infância perde força quando tenta encontrar justificações para a “incompreensão” e abusos de que Aria é vítima, tanto pelos pais (uns caricaturais Charlotte Gainsbourg e Gabriel Garko) como pelas irmãs e pelos colegas de escola.
Com uma utilização expressiva e simbólica de cores saturadas e garridas, sobretudo nos interiores, e de extrovertidas canções pop, o filme dá a chave de uma das suas inspirações numa cena quase no final: uma festa só de crianças que culmina numa caótica luta de almofadas, clara citação de Zéro de Conduite, filme anárquico sobre a infância, de Jean Vigo. – D.S.
“Corações Inquietos”
de Saverio Costanzo
O realizador de A Solidão dos Números Primos regressa com um drama que dialoga com outro continente, numa tentativa de filmar algumas questões sociais que são importantes para a atualidade. Esta é uma história sobre um casal e a forma como o filho vai afetar e distanciar a relação entre marido e mulher, criando limites perigosos que contrapõem a obsessão louca da mãe em “purificar” o seu filho, com a preocupação humana do pai, que apenas deseja que a criança possa crescer com as condições apropriadas.
No entanto, são apenas as boas intenções que se sobressaem neste filme pontuado por dois ou três momentos de excecional composição dramática (da única responsabilidade dos atores Alba Rohrwacher e Adam Driver), mas que se dispersa pela forma como a realização conduz a narrativa.
E Corações Inquietos até começa muito bem, com o momento de “boy meets girl” mais improvável a acontecer diante dos nossos olhos, filmado num belo plano-sequência, bem enquadrado e elaborado. Mas a partir daí, quase parece que estamos a ver vários filmes sobre a mesma história ao mesmo tempo, graças aos desvios e facilidades do argumento.
Costanzo quis tentar fazer um filme de paranoia, de desespero e de sufoco emocional e psicológico à maneira dos clássicos. Mas as técnicas utilizadas para filmar a história danificam não só as interpretações, como também tudo o que as envolve. São repetitivos e descabidos os planos filmados usando o “olho-de-peixe”, tal como a montagem se perde e destoa no meio da tensão que poderia ter sido mais bem aproveitada. No final, ficam na memória os tais escassos momentos decisivos do filme que, infelizmente, não saíram “danificados” e que têm o impacto emocional apropriado. Corações Inquietos não é totalmente dispensável, mas custa acreditar que, com tantos meios e possibilidades, este tenha sido o resultado final. – R. A. S.
“O País das Maravilhas”
de Alice Rohrwacher
Quando o mediatismo do mundo televisivo invade uma comunidade de famílias rurais, os resultados podem ser imprevisíveis. Ou pelo menos, acabam por se tornar inesperados nas mãos da realizadora Alice Rohrwacher, que aqui nos propõe mais do que um simples olhar ao mundo mágico e ilusório da pequena caixa. Para além disso, O País das Maravilhas é um filme de memórias, de sonhos e de ambições, centrado numa família de apicultores, no pai, na mãe (interpretada por Alba Rohrwacher, irmã da cineasta e que também protagoniza Corações Inquietos, filme presente neste festival) e nas suas filhas. A mais velha é quem nos serve de guia por aquele mundo tão particular e pela série de pitorescas personagens que o compõem.
Caminhamos entre a realidade e o sonho, entre a vida familiar, o trabalho na apicultura (com cenas impressionantes) e a possível decadência daquele tipo de vida, que só poderá ser eternizada (ou pelo menos, poderá subsistir, durante alguns dias, na memória coletiva) através da televisão. E a protagonista ao desejar, a todo o custo, que a sua família seja a vencedora de um insólito concurso televisivo que mistura mitologia clássica com atividades agrícolas (o que providencia alguns momentos verdadeiramente desconcertantes), faz com que se criem uma série de situações meio dispersas, mas que nunca se perdem demasiadamente na narrativa central.
O desfecho levanta algumas questões, e não sendo um filme perfeito ou fenomenal, O País das Maravilhas é uma aposta de cinema curiosa que, tal como outros pouquíssimos títulos deste ano, nos põe a pensar, mas também, a contemplar as belíssimas imagens que Alice Rohrwacher filma (que ficam ainda mais inesquecíveis pelo facto de terem sido filmadas em película, criando um belíssimo e inesquecível resultado visual). – R. A. S.

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