Últimas notícias

A semente da discórdia

Texto: NUNO CARVALHO

Em “The Banishment”, a segunda longa-metragem de Andrei Zvyagintsev (autor de “Leviatã”), os temas da família e da masculinidade em crise emergem como um denominador comum na obra do cineasta russo, sempre recoberta todavia por uma enigmática sombra metafísica.

Andrei Zvyagintsev prossegue no seu segundo filme, The Banishment (2007), a análise da família e da masculinidade em crise que iniciara em O Regresso (2003), uma primeira obra desde logo notada e premiada com o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Neste caso, o protagonista é Alex (Konstantin Lavronenko, distinguido com o prémio de melhor ator em Cannes), um homem taciturno e opaco que se muda com a mulher, Vera (Maria Bonnevie), e os dois filhos, Kir e Eva, para a antiga casa paterna, no meio do campo. No entanto, o aparente idílio campestre é quebrado quando Vera lhe faz uma confissão chocante. Ela diz-lhe que está grávida mas que ele não é o pai da criança. Alex fica desorientado, aconselha-se com o irmão, que lhe diz, num tom friamente amoral, que se ele quiser matá-la, que a mate, se quiser perdoá-la, que a perdoe – a decisão é sua. O processo de decisão de Alex será longo e tortuoso, mas ele acaba por “encomendar” um aborto. Porém, nesse processo, em que a sua consciência é assediada por várias tentações equívocas e malignas, ele está afinal a tratar da sinistra encomendação da alma de Vera, uma tragédia que vem cumular a sua incapacidade de resistir a paixões más conselheiras como o orgulho e a cólera.

Tal como em Leviatã (a sua quarta longa-metragem, em exibição entre nós, e que mereceu o prémio de melhor argumento no Festival de Cannes e a nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro), Zvyagintsev trata aqui o tema de um hipotético adultério com consequências devastadoras. No entanto, em The Banishment a possibilidade do adultério é mais um fantasma que se vai avolumando na cabeça de Alex do que propriamente uma realidade. Através de algumas pistas e sinais subtis, o filme dá-nos a entender que Vera é inocente e que a sua revelação bombástica teria apenas como intenção dissolver o gelo do coração do marido e o embotamento afetivo que cria um abismo de silêncio e de dor entre o casal. Apesar de haver uma cena em que os filhos de Alex e Vera constroem com outras crianças um puzzle com a imagem de A Anunciação, de Leonardo Da Vinci, sobre o qual caminha um agoirento gato preto, talvez não seja caso para pensar numa leitura radicalmente metafísica que transformaria a gravidez de Vera numa imaculada conceção, ou seja, num milagre. Porém, sabendo o gosto que o realizador russo tem pela simbologia cristã como matriz da cultura ocidental e europeia, nem seria totalmente descabido pôr a hipótese de The Banishment conter uma parcela do espírito de A Palavra, de Carl Th. Dreyer. Contudo, foi o próprio realizador que, em entrevistas, apelou para uma leitura menos mitológica, mais pragmática e contemporânea.

Adaptação livre do pouco conhecido romance The Laughing Matter, do escritor arménio-americano William Saroyan, The Banishment reconfigura alguns elementos da narrativa. Na história original, Vera é uma mulher mentalmente instável, e a sua confissão pode ser ou delirante ou fruto de uma cabeça com tendência para o absurdo. Mas, seja como for, Andrei Zvyagintsev constrói neste filme um enigma que não dá respostas claras. O tom dominante é de abstração (as referências temporais e espaciais são apagadas), tendo o cineasta sido mesmo comparado a Ingmar Bergman ou Michelangelo Antonioni. No entanto, se há nome em que é impossível não pensar ao vermos The Banishment, ele é o de Andrei Tarkovsky. Com uma montagem mais sincopada do que o habitual nos filmes de Tarkovsky, muito da dimensão formal deste filme faz todavia pensar no mestre russo, sobretudo a forma bela e caracteristicamente grandiloquente com que Zvyagintsev filma uma história dominada por silêncios e pelo laconismo verbal. Uma qualidade que o realizador mantém em Leviatã, filme no qual consegue dar o salto maior para o realismo sem perder a sedução da imagem.

“The Banishment”
Realização: Andrei Zvyagintsev
Com: Konstantin Lavronenko, Maria Bonnevie, Aleksandr Baluev
DVD Artificial Eye

Deixe um comentário