Novo mapa para um velho território
Texto: NUNO GALOPIM
Na era do soundbite e das notícias lidas pela rama, na qual muitas vezes o ato de comentar ou aderir a uma ideia se limita a um like, não é difícil vermos um livro (tal como um disco ou um filme) ser, mais que ainda no passado, reduzido a um denominador comum, não necessariamente o menor, entenda-se. E no caso de Submissão, o mais recente romance do provocador Michel Houellebecq fala-se, desde antes mesmo do seu lançamento, de uma narrativa projetada para um futuro não muito distante – o ano 2022 para sermos exatos – no qual os partidos tradicionais do poder em França (ou seja, socialistas e a UMP) se juntam para apoiar, numa segunda volta das presidenciais, o candidato de uma nova força política, a (ficcional) Irmandade Muçulmana, que assim vence a líder da Frente Nacional. É claro que aqui há logo pano para mangas. Mas Submissão é mais que este mapa político. E, de resto, é nas consequências deste cenário, nas mudanças que a vitória opera em França e na visão de uma outra Europa, que Houellebecq junta os argumentos mais sumarentos do livro.
A primeira metade deste relativamente curto romance – tem 263 páginas na tradução que a Alfaguara acaba de publicar entre nós – coloca em cena o cenário eleitoral, ao mesmo tempo que nos apresenta o protagonista através do qual somos levados a vislumbrar este what if… Ele é um académico, um professor de literatura que dedicou quase toda a sua vida ao estudo da obra de Joris-Karl Huysmans (romancista francês que viveu entre 1848 e 1907) e que, na verdade, poucos mais horizontes parece ter pela frente depois de defendida (e aclamada) a tese. É uma personagem pouco interessante. A sua vida pessoal, solitária e algo misógina (um pouco ao jeito Houellebecq em piloto automático), e as inúmeras considerações sobre Huysmans que vai tecendo são contudo a massa que faz o corpo e a alma crítica que observa a evolução dos acontecimentos. Um peão num jogo maior, mas não imune ao modo como o mundo ao seu redor se comporta e transforma.
É contudo na trama política que Houellebecq centra as atenções na primeira parte do livro que não é um exemplo de realidade alternativa porque, na verdade, não está a imaginar outros rumos para a história, como o fizeram Stephen Baxter quando, em Voyager, faz com que Kennedy sobreviva em Dallas ou Philip K. Dick que, em O Homem do Castelo Alto, cria um cenário de vitória das forças do eixo na II Guerra Mundial. Lança-se aqui não um futuro alternativo, mas hipotético. E o efeito da realidade proposta poderia ter um valor de choque maior caso a realidade não tivesse entretanto pregado uma rasteira a Submissão. Os atentados em janeiro – particularmente o que vitimou elementos da redação do Charlie Hebdo –, que terão vitaminado alguma islamofobia, e a vitória recente da UMP nas eleições locais em França jogam contra a construção do “e se” que o livro toma como ponto de partida (o atual presidente Hollande, ao contrário do que Submissão sugere, não deverá de todo ter hipóteses de vencer as presidenciais em 2017).
Mas não é só nesta soma de hipóteses que a trama tem a sua pedra no sapato no plano da busca de uma certa verosimilhança como patamar de lançamento da narrativa. Ao ultrapassar os candidatos socialistas e da UMP na primeira volta, Ben Abbas vai disputar a presidência com a líder da Frente Nacional. A adesão dos partidos do arco tradicional do poder em França na V República à candidatura de Abbas decorre de uma série de negociações. A UMP não tinha obtido mais de 12% para o seu candidato, mas os socialistas tinham ultrapassado os 20 por cento, tendo lutado taco a taco pelo segundo lugar, com um volume de votos fulcral para a candidatura de Abbas. E o “sim” socialista chega partindo Houellebecq de um pressuposto de que os valores anti-xenofóbicos dos socialistas seriam mais caros a defender que a sua visão de laicidade para a sociedade, particularmente no ensino. Ao ceder nas negociações precisamente neste ponto, os socialistas entregam o voto aceitando um novo modelo de educação não laica, que prevê não só uma mudança no plano curricular como uma redução drástica no tempo de escolaridade mínima e uma outra relação de prioridades em função do género dos alunos. Houellebecq aqui força a corda e o seu what if… não parece ter a verosimilhança de outros dos dados em cena. Os valores da laicidade, sobretudo no ensino, para uma força de centro-esquerda, não parecem ser argumento sequer a discutir. Assim como não imagino o centro-direita a abdicar definitivamente da identidade cristã para uma visão da sociedade – e uma vez mais em particular o ensino – que, afinal, é a base cultural que define a Europa como a conhecemos até aqui. São cenários. Suposições. Ficções. Mas num livro que cruza a imaginação com traços do real, estes pequenos elementos são como pequenas falhas na engrenagem. Que avança, mas com sabor a coisa forçada nesse ponto.
Este último ponto referido, o da identidade europeia, revela-se depois o mais sumarento do livro e conduz-nos com outra solidez narrativa e descritiva através da segunda metade do romance. Se a forma de fazer com que Ben Abbas vença as eleições parece algo forçada, não deixando de ser um ponto merecedor de reflexão, já a visão do novo presidente como um herdeiro de Augusto – o primeiro imperador romano –, procurando promover a construção de uma nova Europa centrada no Mediterrâneo (incluindo o Magrebe, como há dois mil anos acontecia), parece mais bem construída e capaz de sugerir um what if… bem sustentado. Houellebecq junta ainda um elemento importante, a da identificação de Abbas com o pensamento económico do distributismo (uma via alternativa ao capitalismo e comunismo, surgido na Inglaterra nos alvores do século XX – e tendo curiosamente como uma das fontes inspiradoras a doutrina social da Igreja), tomando como célula fulcral a empresa familiar e fazendo dos trabalhadores acionistas dos seus próprios negócios e corresponsáveis pela sua gestão.
Há ainda toda uma nova geopolítica em jogo, com relacionamentos privilegiados com economias poderosas do Médio Oriente e a eclosão de cenários de mudança semelhantes aos da política francesa noutros polos europeus. E há toda uma visão de uma sociedade modificada segundo os hábitos da cultura muçulmana, notando-se um recuo civilizacional no papel da mulher, o texto evitando contudo entrar por questões “fraturantes”. Sendo o protagonista um académico, notamos como o papel da educação é tomado pelo novo poder como determinante para o operar de uma mudança pensada à distância de duas ou três gerações, fazendo com que, em meados do século XXI, se recompusesse o mapa que a Europa podia ter conhecido há mais de mil anos, caso a batalha de Poitiers (que travou o avanço árabe em França) tivesse conhecido um outro desfecho. A submissão nasce aqui pelo voto e faz-se gradualmente, sem armas. E aos poucos, por conversão voluntária (ou porque o emprego a exige), uma nova França (e a caminho parece vir toda uma nova Europa) acontece…
Submissão é uma ficção e não um ensaio. Não é, de todo, o melhor romance de Houellebecq que, por exemplo, em A Possibilidade de uma Ilha mostrou até mais agilidade na construção ficcional de um mundo no futuro. Não deixa contudo de ser um livro capaz de lançar momentos de discussão que não se esgotam contudo no mapa eleitoral (o mais mediatizado, de facto). E limitar o potencial de discussão que o livro pode levantar à eleição presidencial de 2022 seria quase como reduzir um debate suscitado pelo filme 2001: Odisseia no Espaço à aparição do monólito frente aos hominídeos. Então e o resto?
“Submissão”
de Michel Houellebecq
tradução de Carlos Vieira da Silva
Alfaguara, 263 págs.
ISBN 9789898775276

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