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A impossibilidade de uma ilha

Texto: NUNO GALOPIM

Estreado em 1950, “Stromboli” foi o primeiro de uma série de filmes que Roberto Rossellini criou com Ingrid Bergman como protagonista. Ciclo chega hoje ao Porto.

A história de Stromboli começa, em 1948, com uma carta. Uma carta enviada a Roberto Rossellini por Ingrid Bergman, uma atriz com dez anos de sucesso em Hollywood – tendo já ganho um Óscar e garantido, logo em Casablanca, um lugar no Olimpo da iconografia do cinema. Queria escapar ao universo em que trabalhava, fazer algo diferente. Rossellini responde lançando em quatro páginas o que acabaria por ser a história do filme, partindo de um relato (que na verdade lhe fora contado) que fazia de uma visita a campos de refugiados e, em concreto, da história de uma mulher de dali tinha saído depois de se ter casado com um jovem que a levara para a minúscula ilha de Stromboli, habitada por pescadores. “Uma ilha onde a terra é completamente negra e o mar se assemelha a lama saturada de enxofre”, ele mesmo acrescentou. O desafio estava lançado, e um encontro secreto em Paris, no hotel George V, algumas semanas depois, deixou ambos impressionados e decididos a avançar. Firmes também na vontade de contar com um produtor americano para assegurar custos de produção de uma amplitude superior ao que até então havia sido a obra do realizador italiano.

Stromboli, o filme que nasceria deste encontro, da ideia lançada na carta e da busca de um produtor americano cruza o cinema com a vida pessoal de Roberto Rossellini. O encantamento profissional e simpatia com que realizador e atriz saíram do encontro em Paris transformar-se-ia numa paixão quando Rossellini foi a Los Angeles ter com Bergman. Na bagagem ia a necessidade de encontrar um estúdio, mas nem Selznik nem Goodwin (que chega a mostrar Alemanha, Ano Zero numa festa em casa, que termina com a plateia de convidados em absoluto silêncio) ficam a bordo. É o (então ainda) marido de Bergman que enceta contactos com Howard Hughes, que tinha recentemente adquirido a RKO, quem dá o sim final, aceitando as condições sem pedir sequer informações sobre o argumento nem dirigindo mesmo a palavra a Rossellini. É com Ingrid Bergman que fala, perguntando se usará belos vestidos. Stromboli não seria exatamente um filme de belos vestidos…

Filmado in loco, como Rossellini o havia feito em Berlim com Alemanha, Ano Zero ou em várias regiões de Itália em Paisà, Stromboli levou uma equipa de cerca de 60 pessoas à pequena ilha a norte da Sicília. Chegaram em inícios de abril de 1949, após quatro horas de travessia pelo mar, descobrindo como os oito quilómetros quadrados que emergem das águas mostram pouco mais que o grande vulcão – ainda hoje ativo – com duas pequenas localidades e pequenos espaços de cultivo junto ao mar. Não havia eletricidade nem água canalizada. Rossellini e Bergman ficaram hospedados na casa do professor – a melhor da ilha – que usava um bidão para recolher água no terraço.

Uma vez mais Rossellini filmou com as gentes da terra. Usou dois pescadores de Salerno para os papéis do marido de Karin (Ingrid Bergman) e o jovem faroleiro que esta um dia tentará seduzir para que a ajude na fuga. Os aldeões e pescadores fizeram o resto do elenco, num labor de comunicação difícil já que muitos nem o italiano falavam, apenas o dialeto local.

Entre a desolação de uma terra que grita por dentro e é sacudida por fora pelo vento, com mar em volta fazendo um perímetro que não carece de arame farpado para fechar quem ali está, acompanhamos o percurso dramático e desajustado de uma mulher de berço lituano a quem ações durante a ocupação alemã acabaram por conduzir a um campo de detenção. Sendo-lhe recusado um pedido para emigrar para a Argentina, Karin vê no desafio para um casamento lançado por um soldado a sua estratégia de fuga. A bela ilha de que ele fala é contudo uma revelação de inferno para ela. Isolada, desconfortável, habitada por uma população uniformizada e incapaz de lidar com a diferença, a ilha de Stromboli não encaixa na maneira de ser livre e moderna de Karin. O momento em que visita uma mulher de “má fama”, porque na verdade não quer mais senão usar a sua máquina de costura, e que acaba num comentário generalizado da aldeia ao marido, tratado como “cornudo” (porque havia um homem também naquela casa), vinca o desenquadramento, a violência da acusação ignorante e o peso de um moralismo castrador que acentua mais ainda o mal-estar da protagonista.

Rossellini é sublime na forma como deixa claro este choque de culturas. E não precisando nós de imaginar o mundo de Karin (porque afinal é o da modernidade urbana, que se adivinhava sentada na sala a ver o filme), somos por vezes levados a contemplar o universo da ilha de Stromboli com olhos de ver. Não apenas o casario meio deixado em cacos pela mais recente manifestação de atividade do vulcão, mas também as gentes da ilha (as suas roupas, gestos e rotinas), sendo ainda inesquecíveis as sequências de pesca do atum (filmada pelo próprio Rossellini, embora mais perto do continente) e de uma pequena erupção que obriga a uma evacuação da ilha, com toda a população levada para o mar, em pequenos barcos. Os dois momentos chegaram a valer críticas pela sua afinidade com o cinema documental (como os tempos mudam, já que hoje esse seria mesmo um valor a aclamar). E servem narrativamente para não só colocar Karin perante cenários de isolamento e rituais de morte que a fazem sentir que a sua única saída é a fuga. Uma fuga que, porque se sente sempre observada, sabe que terá de ser feita subindo o vulcão. Uma escalada que é uma provação na qual, no fim das forças, uma confrontação com a transcendência e a ideia de Deus servem para possíveis interpretações (que as diferentes montagens então estreadas, a italiana e a americana, de resto frisam seguindo opções bem distintas).

Assombroso, tanto pela carga das imagens da ilha como pela interpretação de Ingrid Bergman, Stromboli é uma das obras-primas do cinema e um dos títulos centrais da filmografia de Rossellini. Estreado em 1950 o filme encetou um período durante o qual o realizador e a atriz (que entretanto casariam) voltaram a trabalhar várias vezes, em títulos como Europa 51 (1952), Viagem a Itália (1954) e O Medo (1954), que integram este ciclo. A sua obra conjunta inclui ainda um episódio da série Siamo Donne (1953) e Giovanna de’Arco al Rogo (1955), a filmagem de uma encenação teatral rodada em Nápoles, com Ingrid Bergman no papel de Joana d’Arc, e cujo negativo, depois dado como perdido, foi reconstruído em 1987 a partir de duas cópias em más condições-

“Stromboli” passa no Espaço Nimas hoje e repete amanhã e no dia 26

O ciclo dedicado a Roberto Rossellini, que se mantém até dia 29 em Lisboa, começa hoje a ser exibido no Teatro do Campo Alegre, no Porto.

1 Comment on A impossibilidade de uma ilha

  1. Um filme maravilhoso que é bom rever.

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