O homem da câmara de fotografar
Texto: NUNO GALOPIM
O sal da terra somos nós, os seres humanos. E durante grande parte da sua obra, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado olhou esse sal, numa obra que cruza uma mestria técnica da luz e um saber na composição das imagens que, ocasionalmente, levantou críticas do foro ético sobre a estetização da pobreza, da dor e mesmo da morte. Não é por aí que Wim Wenders avança quando se propõe a mostrar-nos, n’O Sal da Terra, a obra e a figura que a assina. Não é sua intenção dar-nos nem uma lição sobre questões técnicas nem mesmo há aqui percursos lançados rumo a eventuais referências e influências (na fotografia ou noutras formas de expressão artística). O Sal da Terra é o mundo de Sebastião Salgado recordado pelo próprio. E conta com uma ajuda peculiar e, afinal, tão interessada em saber mais tal qual nós espectadores: o filho mais velho do fotografo. Julião, que o acompanha em campanhas na Papua Nova Guiné ou numa remota ilha do ártico siberiano, viveu muitas vezes longe do pai, tantas que foram as ocasiões em que este partiu em viagem para fotografar os mais distantes cantos do mundo. O filme, que tem Juliano como co-realizador (ao lado de Wim Wenders) é assim, ao mesmo tempo, um retrato de um momento de (re)descoberta de um pai pelo seu próprio filho. Convenhamos que, mesmo perante as ausências acima notadas, há aqui já suficiente pano para mangas para fazer um filme.
Wenders e Juliano dão conta do recado. Vale a pena notar que este é terreno habitualmente caro a Wim Wenders e, se excetuarmos alguns dos seus títulos maiores de ficção como Paris, Texas (1984), As Asas do Desejo (1987) ou Até ao Fim do Mundo (1991), é talvez entre os documentários que assinou que encontramos títulos para perfazer uma eventual lista em registo best of do seu cinema. Se filmes como Lightning Over Water (de 1980, sobre Nicholas Ray) ou Tokyo-Ga (de 1985, sobre Ozu) podem estar distantes da memória de alguns, já o impacte que tiveram, mais recentemente, Buena Vista Social Club (1999) e Pina (2011) dá exemplos mais nítidos deste gosto por observar, pensar e mostrar. E O Sal da Terra pode ir pelo mesmo caminho.
O filme abre com as imagens célebres de Sebastião Salgado na Montanha Pelada, aquele gigantesco buraco no interior brasileiro onde milhares “garimpam” ouro. Era, como o fotografo recorda, uma visão que o fez recuar no tempo, aos dias da construção das pirâmides ou dos Jardins Suspensos da Babilónia, contemplando um lugar onde não se escutava o ruído de uma máquina, mas antes o somatório do burburinho de cinquenta mil pessoas, subindo e descendo por pequenas escadas, carregando sacas de areia nas costas.
A forma de olhar estas fotografias e o registo de memória que as acompanha lança o mote para um filme que toma como momento presente a criação de imagens para o projeto Genesis – que visa captar ecos do mundo natural em lugares onde a ação da civilização não se fez sentir – e vários instantes nos quais Salgado e Wenders vão caminhando entre imagens do arquivo do fotógrafo. Muitas das sequências do filme fazem-se num preto e branco que valoriza o trabalho de luz e acentua contrastes, tentando mimetizar a linguagem e texturas das fotografias de Sebastião Salgado, sem contudo fazer desse exercício uma obrigação linguística. As imagens de alguns dos projetos maiores de Sebastião Salgado, sob comentários do próprio, ocupam parte de um filme que não deixa de ouvir o seu pai (que queria que o filho tivesse estudado direito, mas ficou feliz por vê-lo a acabar a formação em economia) e reparar na importância que o projeto de reflorestação que aplicou na sua terra natal nos últimos anos tomou um peso grande nas suas preocupações. Há ainda espaço para um era-uma-vez, que recorda que, por dissidência política, Sebastião Salgado saiu do Brasil nos tempos da ditadura militar e de como, em Paris, e por causa de uma câmara fotográfica comprada pela sua mulher, o que começou por ser um passatempo acabou por desviar o jovem economista do rumo que começara a definir. Quantas vezes, de facto, está o nosso caminho num lugar onde não o esperávamos?
“O Sal da Terra”
Realização: Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado
Distribuição: Midas Filmes

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