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Texto: NUNO CARVALHO

Livremente inspirado por ‘A Gaivota’, de Anton Tchékhov, ‘Dias e Noites’, estreia na realização do ator Christian Camargo, é um retrato do tédio existencial e da desligação amorosa que cada vez mais afetam o homem moderno

A propósito de Dias e Noites, estreia na realização do ator Christian Camargo (até agora essencialmente um secundário com papéis em filmes como Estado de Guerra ou O Retrato de Dorian Gray ou em séries como Dexter e House of Cards), escreveu um crítico americano que o aforismo de Lev Tolstói que abre Anna Karenina e que diz que todas as famílias felizes são iguais e que cada família infeliz o é à sua maneira parece ter-se invertido no cinema americano contemporâneo. De facto, tornou-se de tal forma moda a representação de famílias disfuncionais, que hoje se corre o risco que correm certas pessoas com doença psíquica, que é o de se parecem imenso umas com as outras, ou seja, de reproduzirem um padrão arquetípico, rígido e estereotipado que as “normaliza” todas pela mesma medida. E é esta falsa medida do homem moderno que Christian Camargo confirma nesta reatualização do clássico A Gaivota, de Anton Tchékhov, ao forçar a nota da disfunção e da tragédia num filme em que todas as personagens parecem encarnar a metáfora da vida como um palco em que cada destino foi já previamente escrito por um dramaturgo pessimista, cruel e mal-disposto.

A ação deste drama relativamente estático decorre numa casa de campo à beira de um lago no estado do Connecticut no fim de semana do Memorial Day em 1984. Elizabeth (Allison Janney), uma atriz prestes a eclipsar-se, e o seu mais jovem namorado Peter (Christian Camargo), um realizador sem grande talento, apanham o comboio para visitarem o irmão dela, Herb (William Hurt), e celebrarem o seu aniversário, numa altura em que a saúde deste vacila. A partir daí assistimos a uma reunião familiar em que várias personagens se destacam e em que o catalisador do drama acaba por ser Eric (Ben Whishaw), o filho de Elizabeth, um jovem artista multimédia perturbado e desesperadamente apaixonado por uma vizinha, Eva (Juliet Rylance), a qual todavia parece mais interessada em conhecer o solitário e pouco expressivo Peter, que a certa altura lhe confessa, no meio da floresta, que o silêncio que o domina e enredoma resulta do facto de a sua cabeça estar sempre a pensar, não lhe dando tréguas (ela responde-lhe que é um efeito da solidão e que talvez possam entender-se quando ele encontrar uma saída do seu labirinto mental).

Mal recebido pela crítica americana, Dias e Noites foi descrito por alguns jornalistas como um filme em que não se percebem bem as relações entre as personagens e em que pouca coisa acontece. Porém, e apesar de alguma tepidez dramática na direção de Camargo, este filme tem pelo menos o mérito de parecer fiel a si mesmo e de dizer aquilo que quer dizer. É sem dúvida uma história de figuras atomizadas, solitárias, entediadas, falhadas (daí subsistir uma certa sensação de absurdo e de nonsense nos seus gestos e interações). É também um drama em que pouco se passa realmente (mas isso não nos parece um defeito ou insuficiência da narrativa, tendo em conta que se trata de um retrato do tédio existencial), mas em que intuímos e deduzimos que muito do que se passa acontece no plano mental, no domínio da interioridade. Na verdade, todas as personagens parecem transportar dentro de si uma angústia específica, a dos tempos da desligação amorosa, da dificuldade em construir pontes sólidas que estabeleçam a ligação ao outro, em que cada personagem parece condenada a viver acantonada no atol a que a deceção e o pessimismo existencial reduziu as suas almas. Nesse aspeto, Dias e Noites é um filme com um forte sentido do mal-estar na civilização moderna. De destacar o ensemble de atores, que inclui ainda nomes como Katie Holmes, Jean Reno, Michael Nykvist ou Cherry Jones.

“Dias e Noites”
Realização: Christian Camargo
Com: Allison Janney, William Hurt, Ben Whishaw, Christian Camargo, Katie Holmes, Jean Reno, Cherry Jones, Michael Nyqvist, Mark Rylance, Juliet Rylance
Distribuição: Lanterna de Pedra
Classificação: 2 / 5

 

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